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“Em África também temos inovações importantes à escala mundial”

Por BANTUMEN

A BANTUMEN esteve à conversa com Pauline Mujawamariya Koelbl, directora do Innovation Prize for Africa, uma iniciativa da Africa Innovation Foundation, para perceber como olha o continente africano para as novas tecnologias e como é que este prémio, que acontece anualmente e em países diferentes, apoia o desenvolvimento e estruturação de novas ideias e projectos tecnológicos.

Como é que o continente africano se tem posicionado a nível de inovação e tecnologia? Consegue acompanhar o ritmo dos outros continentes?

Os ecossistemas da inovação em África encontram-se num estágio fraco em relação aos outros continentes, umas vez que estes têm fundos de capital de risco e um acompanhamento muito mais organizado. Mas evitando generalizar, não é a mesma coisa em todos os países [africanos]. Há países já bastante avançados como a África do Sul ou os países da África do norte. Há hubs de inovação que proporcionam um acompanhamento à medida dos inovadores. Para mim, é bom observarmos o que se passa em África e as suas histórias de sucesso. E mesmo que estes ecossistemas não sejam tão fortes quanto os da Europa ou Estados Unidos, os africanos continuam a criar soluções para os problemas africanos. Isso, vê-mo-lo acontecer todos os dias. Portanto, a questão agora é como valorizar essas inovações. O facto de termos inovações mais fracas não quer dizer que não inovamos. Sim inovamos, mas as nossas inovações podem não se encontrar no mercado porque é preciso ter fundos, acompanhamento e todo um ambiente legal que facilite o registo e a protecção dessas inovações.

Que análise faz da evolução destas áreas, entre 2011, ano em que entrou para a fundação, e 2017?

Quando comecei em 2011, já tinha como objectivo criar este prémio. Sempre que alguém me perguntava se em África há inovações eu achava isso ofensivo, porque nós inovamos em África mas as pessoas não o sabem. No entanto, essa questão não a colocam mais porque temos mais de cem hubs de inovação e parques tecnológicos no continente. E depois, actualmente há os media, como a BANTUMEN, e as redes sociais, que fornecem plataformas que servem de montra para essas inovações. Além de que temos este evento do Innovation Prize for Africa, com cerca de 450 pessoas que vêm de todo o lado e temos a sorte de ter a publicidade que temos para a cobertura do evento. E cada ano temos a oportunidade de mostrar que estes inovadores inovam por África mas também que temos inovações importantes à escala mundial.

 

Quais são as principais formas de mobilização para aumentar o número de candidatos desta iniciativa?

Utilizamos canais diferentes de cada vez. Primeiro trabalhamos com pessoas que apelidamos de campeões da inovação em África. No início, viajávamos para mobilizar pessoas que acompanham os inovadores, porque não se trata apenas de se candidatarem, é preciso que as pessoas que ganham encontrem acompanhamento local e são essas pessoas que trabalham connosco desde 2011 que continuam a mobilizar os inovadores. Trabalhamos com a maioria das innovations hubs em África e eles ajudam-nos a divulgar a informação nos vários países. E há até várias apresentações sobre o Prémio. E claro que exploramos as possibilidades que temos nas redes sociais, além de trabalharmos com os júris que acabam por ser os nossos embaixadores. Há também o facto de as pessoas que se candidataram, continuam a estar interessadas em se candidatarem ano após ano e eles próprios passam a palavra aos seus amigos.

Pauline Mujawamariya Koelbl

Qual é  percurso que o programa faz com os vencedores? Depois da entrega do prémio há algum acompanhamento ou incubadora destas inovações?

No início damos o dinheiro e trabalhamos com uma equipa de comunicação que se certifica que continuamos a divulgar o impacto que o Prémio teve, tal como o impacto que as inovações criaram.

E isso ajuda a mobilizar investidores, formadores, bem como outras pessoas que possam abrir portas e oportunidades. Contamos com cerca de 30 milhões de dólares que é o montante que os inovadores vão poder usar como motor de arranque. Além de que o prémio em si são 100 mil dólares, mas em cima disso há publicidade e marketing gratuito e pessoas que abrem portas para que os inovadores possam encontrar outras pessoas que vão investir nos seus projectos. Todo este sistema de apoio proporcionou a criação do Zua Hub [plataforma online de suporte aos ecossistemas de inovação africanos, lançada em 2017 no Gana], que é como se fosse o Linkdin dos inovadores. Fora do plano online, temos também actividades reais, são os meet-ups nas comunidades, que podem ter continuidade online. Isto é a importância do network.

Algum caso em particular de um vencedor que nos queira falar?

São tantos. Mas temos por exemplo o vencedor da edição passada, que se chama Eddy Agbo, nigeriano, cuja inovação é o Fyodor Urine Malaria Test, uma ferramenta que detecta a malária, que funciona exactamente como os testes de gravidez. Em 20 minutos ele detecta se estamos infectados com a malária ou não. Por norma, nos países que ainda têm a doença, se temos uma simples febre, vamos à farmácia e compramos a quinina – medicamento de tratamento da malária -, mas se eventualmente não tivermos a doença vamos acabar por ganhar resistência ao medicamento. E agora, com este teste, temos quase de imediato a certeza se estamos doentes ou não e se estivermos, aí sim, podemos comprar a quinina. E outro vencedor é o Valentin Agon, do Benin, que criou um medicamento com base na medicina tradicional, que combate a malária sem efeitos secundários. Estes dois inovadores acabaram por se juntar para divulgar as suas invenções e conseguirem mais apoios. E chegaram mesmo à CEDEAO e convidaram-nos para fazer a apresentação das suas inovações num evento com os chefes de Estado desses países e o presidente do Togo convidou-os para irem ao seu país para saber mais sobre o assunto. Quando eles chegaram, o presidente também tinha convidado o presidente do banco da CEDEAO e nesse momento eles decidiram financiar cada empreendedor com dois milhões de dólares, para os ajudar a desenvolver as suas inovações.

Como é composto o júri? 

Todos os anos escolhemos júris independentes, portanto pessoas influentes no panorama dos ecossistemas de inovações em África e experts em Agricultura, Saúde, electrónica e aos sectores da água e energia. E todos os anos, há um que se torna o chefe da mesa de jurados. E assim garantimos que há uma rotação e que as coisas que correram menos bem num ano não passem para o ano seguinte. Além de que esse método permite-nos aumentar o nosso network. E trabalhos também com um grupo que chamamos os “validadores”, que avaliam o que os inovadores inventaram, a nível mundial. São eles que respondem às perguntas “por que é que esta inovação passou? Por que é que esta inovação faz a diferença?”.

 

Há algum país que se destaque mais entre os candidatos?

Começa agora a haver uma mudança. Praticamente todos os países conhecem o prémio. Mas no início destacava-se principalmente a África do Sul e a Nigéria. Creio que deverá ter a ver com o número da população, visto que são dois países bastante populosos. De seguida, era o Quénia. Recentemente, temos também os Camarões. E começamos a ter cada vez mais candidaturas de Marrocos e Gana. No entanto, não temos candidaturas de países lusófonos e eu sei que eles também inovam. E espero que tenhamos também mais candidaturas de mulheres. Pois sabemos que quando as mulheres inovam, elas pensam em todo o mundo.

E há algum sector que se destaque a nível de número de candidatos?

Desde que começámos, há as Tecnologias de Informação e da Comunicação (TIC) que se destacam. Até porque tudo o que tem a ver com as tecnologias móveis estão em expansão em África. Mas o que também é importante é que não temos muitos vencedores das TIC, embora esta seja a área em que mais temos candidaturas. A maioria dos vencedores vêm de sectores como agricultura e saúde, visto que são inovações que atacam os problemas que enfrentamos no continente. Mas acima de tudo, têm de ser inovações que respondem a problemas reais do continente, se o produto pode ser comercializado e quantas pessoas vão ser afectadas pelo impacto dessas inovações.

Quais são os principais desafios que os inovadores e empreendedores encontram no seu percurso?

Antes de se candidatarem, eles não têm acesso a mecanismos de apoio. Se fores um inovador, por exemplo na Suíça, há imensas empresas onde podes ir e pedir apoio para lançar a tua inovação e montar um protótipo, registar o teu negócio, pedir apoio legal ou montar um plano de negócios. Mas em África não temos isso. Tens a família e os vizinhos. Mas isso também começa a mudar. E por isso há muitos que acabam por ficar a meio caminho, porque não têm, por exemplo, o financiamento necessário – cujas somas por norma estão entre os mil e os cinco mil dólares. Além de que os capitais de risco por norma financiam quando se tratam de valores acima dos 250 mil dólares, porque para investirem têm de fazer o due diligence, que é uma investigação sobre quem és, o que estás a programar, o dinheiro que vais precisar e tudo isso leva tempo, por isso preferem alguém que precise de dois milhões de dólares do que de 20 mil dólares, porque naturalmente também vão ganhar mais. Portanto, há cada vez mais investimento, mas principalmente para quem precisa de grandes quantias.

Qual é a principal vantagem africana para que o continente se destaque no mundo da inovação e tecnologia? 

Somos um continente jovem. Nem sempre temos as infraestruturas, mas temos uma população jovem que quer experimentar o que tem em mãos para resolver os seus problemas e das suas comunidades, que inventa e inova. E há também a atitude. Temos uma maior necessidade tecnológica em relação ao resto do mundo e quanto mais experimentamos mais hipóteses temos de inventar. Eu acredito que vamos voltar a ter os holofotes virados para nós. Somos o continente onde se construíram as pirâmides. África já foi uma potência mundial e as pessoas esquecem-se disso com alguma frequência.

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