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Herberto Smith: “Achamos que, ao fazer de conta que elas não existem, as coisas vão passar”

Por Vanessa Sanches Fotografia: Eddie Pipocas e Vídeo: Geovany Catuco

Herberto Smith é um jovem fotógrafo de 42 anos, (não, não nos enganámos no número. A sua aparência facilmente dá a ideia de estarmos a conversar com um miúdo na casa dos 20, mas o seu à vontade e naturalidade na exposição de certos assuntos rapidamente indicam que a sua experiência de vida já galgou vários amores e dissabores ao longo da linha do tempo), que nasceu na Guiné-Bissau, cresceu em São Tomé e que actualmente vive em Portugal. O activismo sempre fez parte do seu carácter e desde cedo se manifestou nas pequenas coisas de meninice. Não vê o activismo apenas como uma condição que usa a manifestação como arma, e sim pela capacidade de se ser mentor, pela relação que se estabelece com as pessoas e a mensagem que se consegue divulgar.

A fotografia surgiu na sua vida através do pai. “Tinha uma câmara fotográfica e eu tinha um fascínio por aquilo mas ele não me deixava mexer. Depois vim para Lisboa para estudar Gestão e Engenharia Industrial, no ISCTE, e comecei a interessar-me ainda mais. Comprei uma máquina em segunda-mão, comprei um manual, comecei a fazer experiências e as coisas foram crescendo e fui entrando no meio”, explicou em entrevista à BANTUMEN numa ruela em Lisboeta, debaixo do sol ardente que se fez sentir no início deste mês de Julho.

Passou ainda como modelo pelo atelier da famosa estilista portuguesa Fátima Lopes, onde começou a ter mais contacto com fotógrafos e acabou por começar a trabalhar como assistente no backstage. “Investi muito mais energia a trabalhar com a fotografia do que a estudar. Trabalhava à noite, saía às 4h da manhã e tinha aulas às 9h. Chegou a uma altura em que não aguentei o ritmo. Hoje, já não é só fotografia, já me sinto realizado a fazer outras coisas que estou agora a descobrir”.

É um eterno outsider integrado na vida lisboeta que quer fazer parte da inclusão das gerações mais novas. Actualmente, embora envolvido em projectos como o AfroLis (um audioblogue dedicado à expressão cultural de afrodescendentes a viver em Lisboa), às revistas Epicur e Gerador, Herberto tem tentado dar maior prioridade aos seus projectos pessoais que, apesar de também cruzarem a fotografia, estão mais focados numa componente social e educativa.

“Acho que essa consciência de ser activista sempre esteve presente em mim. Acho que de uma forma, às vezes, um bocado passiva, sempre me opus a algumas coisas que achava que não estavam bem. O meu activismo começou com o meu pai, com a minha educação e com algumas coisas que o meu pai tentava impor e com as quais eu não concordava”. Mas esse seu lado menos conformista começou a impor-se cada vez mais a partir do momento em que foi pai. “Cresci em São Tomé, vim para cá já com 18 anos e há muitas coisas que nunca me fizeram confusão. Vejo-me como negro, como africano e há muita gente que tem muita confusão nas suas cabeças porque não têm uma relação com África, são negros e são tratados como africanos e gera-se um conflito interno. E eu comecei a ter essa necessidade depois de ter sido pai. O facto de ter uma mulher portuguesa, branca, faz com que os filhos tenham experiências diferentes à sua e que possam originar uma ambiguidade de sentimentos em relação às suas origens. “Os meus filhos são resultado dessa mistura e eles têm que lidar com essas questões. Eles não são brancos, são mais escuros e eu achei que tinha que começar a intervir e ganhar alguma bagagem para conseguir educá-los da melhor forma”.

“Achamos que, ao fazer de conta que elas não existem, as coisas vão passar”

Essa bagagem começou a formar-se ao passar pelas experiências de viver tanto na periferia da capital portuguesa, como no centro da cidade, no Bairro Alto e na Baixa.

Antes de iniciar essa jornada vitalícia que é a parentalidade e, apesar de ter consciência do certo e do errado, a passividade acabava por tomar conta das suas acções porque “não sabia como ajudar”. Além de que existia a ideia de que “achamos que, ao fazer de conta que elas não existem, as coisas vão passar ou que, senão te afectam directamente, não tem nada a ver contigo.

Sempre me senti o outro, embora me tenha integrado muito bem, tenha muitos amigos cá, e as pessoas tratam-me bem. Mas nunca me esqueço da minha condição ou tenho sempre noção de como é que as pessoas olham para mim, mas não vivo com a cena da vitimização. Sei que há espaços onde vão onde se calhar serei o único negro e reparo na forma como as pessoas olham para mim. Mas sou realista e essas coisas não me provocam confusão e tento lutar contra isso através do que faço e da fotografia. Tento mostrar que Portugal não é só pessoas de pele clara, há os outros que também são portugueses.” Essa vontade de. mostrar as duas faces da moeda, vê-se na forma como mostra o mundo aos filhos. “Tento mostrar um pouco de tudo. Eles gostam desses novos artistas de música pop e eu vou ao YouTube e tento mostra-lhes um artista africano também. Tento fazer com que não fiquem só com uma visão.”

Mas hoje em dia, há cada vez mais acesso à informação e à disciplina sobre quem somos e o direito a fazermos parte da sociedade visível. Porém, “ainda há pouca gente a trabalhar essa temática (conteúdos destinados à população afro-descedente) em Portugal. Há uns que são mais lúdicos, outros com uma vertente mais comercial, mas eu acho que há espaço para tudo. Eu, para ser um activista, não tenho que estar em manifestações. O activismo também passa muito por mentoria, pela relação que eu consigo estabelecer com as pessoas e a mensagem que consigo criar. É importante nós nos juntarmos e começarmos a fazer coisas.”

Vanessa Sanches

Vanessa Sanches

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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