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Loreta: “Africanidade não é funaná ou kuduro”

Por Vanessa Sanches Fotografia: & Vídeo: Eddie Pipocas

Nuno Mendonça é filho de emigrantes cabo-verdianos, nascido e criado em Portugal, numa geração de 1980 que criou “nacionais estrangeiros”. Hoje, conhecido por Loreta, o rapper dá a voz aos seus pensamentos e experiência pessoal sobre a sua realidade e tem-se afirmado como um dos pilares da nova geração do rap kriolo.

No entanto, não se trata de música a nossa entrevista com o artista de Mira-Sintra, zona da Linha de Sintra, cujas imagens de drone aparecem no vídeo. Por diversas vezes, seja através da sua música ou em conversas ocasionais, Loreta faz questão de exalar orgulhosamente, física ou moralmente, a sua africanidade. Contudo, se as suas rastas, cor de pele ou passaporte cabo-verdiano denunciam um africano, as suas ideologias revelam um homem anti-preconceito, seja ela de que natureza for. “Não consigo ser preconceituoso. Eu sei o que é sofrer preconceito. Não ouso, nem com um homossexual, branco ou um negro como eu mas de outro país”, explicou-nos.

Sobre o que é africanidade e o que ela representa para as novas gerações, “não é só funaná ou kuduro. Tu só sabes o verdadeiro power que África tem e o quanto ela precisa de ti quando vais lá. Tens de ir à raiz. É dessa forma que podemos entender como os nossos pais cresceram e a distância que temos entre a nossa geração e a dos nossos pais. Provavelmente, o teu pai com 14 anos estava a carregar pedras na cabeça para construir uma casa e tu com a mesma idade estavas a pedir uma PlayStation e ficaste chateado porque não tiveste”.

Na maioria das vezes, o artista é visto pelos seus fãs como um professor/activista. Loreta indica que antes também achava que o artista tem de estar na frente de batalha e dar a cara pelos seus. “Mas hoje em dia acho que deve ser diferente. O artista deve responsabilizar quem de direito para estar na linha da frente e dar a cara. Chamar a atenção dos políticos e não te transformares tu num político. A não ser que tenhas uma veia muito grande para isso. Mas quem estudou para isso e tem as bases é que deve ter um cargo de liderança. Não podes pegar num Loreta e pô-lo a ser um ministro sem que ele tenha essas bases”.

Vê o vídeo da entrevista com Loreta, um artista que além de produzir arte em cima de beats, espalha humanidade através das suas letras e ideias.

 

Vanessa Sanches

Vanessa Sanches

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.

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