Nos idos 1986, no bairro do Cazenga, em Luanda, nascia Mistah Isaac. O artista de “mão cheia” que faz ecoar por diversos bares lisboetas melodias resultantes do cruzamento dos sons tradicionais da “banda” e a musicalidade de Bob Marley, Miles Davis, Robert Glasper, Jean-Michel Basquiat, Wes Montgomery, Terry Callier, John Forte, entre outros.
Vive em Portugal desde os 11 anos, mas na memória ficaram gravados os cheiros do funge de bombó e da muamba de galinha, preparados pela mãe para a assentada familiar de domingo à tarde. No ouvido, as primeiras impressões musicais de que se recorda são Mana Wavolo Maka, de Kipuxi e Uangami Uami, de David Zé.

Foto InstaGram
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“Tudo e nada foi difícil”
Chegou à Europa na idade em que o universo se restringe àquilo que se conhece no dia-a-dia. Aos 11 anos, Mr. Isaac deixa para trás a sua Angola para descobrir um mundo novo onde a sua essência enquanto ser humano e artista revelava a necessidade da constante procura de conhecimento e inspiração.

Da adaptação recorda-se que “tudo e nada foi difícil”. Entre o frio e o fugir das crianças curiosas com a forma e textura do seu cabelo, Isaac afirma que este foi um processo que dependeu da sua “consistência psicológica” e das bases que trazia de casa.

De poucas palavras quando o tema é família, o artista sublinha a distância como um entrave importante. “Transformei-me num criador de laços familiares muitas vezes impossíveis, resultantes de um caos organizado, que se transformou num amor evidente”, disse.

Actualmente, afirma-se como “guitarra, voz e movimento de Lisboa”. Quando questionado sobre a forma como o artista se “encaixa” na cidade portuguesa, revela que a sua presença em Lisboa resulta da sua aceitação, e a aceitação da cidade e das suas gentes. Quanto à sua vida artística, esta acontece quando se lembram “que existe muito mais música, feita por angolanos, além daquela que esgota os pavilhões da cidade”.

Foto Facebook
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“Sinto-me mais confortável a compor”

No que toca ao dom da música, Isaac garante ter-lhe sido concedido por uma “força natural, divinal ou não, e não auto-intitulada”. E explica, em tom de brincadeira, que “um certo grauzinho de  arrogância e presunção pode estar certo quando corresponde com o talento.”

Canta, compõe e é DJ. Mas afirma que é a compor que se sente mais completo. “Em tudo o que me envolvo tento sempre meter alma senão não vale a pena. Sinto-me mais confortável a compor. A personagem de DJ vem de arrasto com o fluxo cultural que me envolve com pessoas que comigo partilham o Tejo (rio que atravessa a cidade de Lisboa), criando uma vontade insaciável de coleccionar vinis de música de todo o mundo, optando sempre por um ecletismo, muitas vezes bem interpretado e outras vezes rejeitado por pessoas que nunca se imaginaram sentadas na relva no Mali ou em Nova Orleães a ouvir a surdina de Miles Davis ou a guitarra de Ali Farka Touré fazendo amor com a kora de Toumani Diabaté, ou ainda a voz única e inigualável de Cesária Évora.”

“Havemos de voltar à marimba e ao kissange”

Já partilhou palcos e estúdios com vários nomes da música feita na língua de Camões, como Saul Williams, Gabriel o Pensador, Capicua, Okestrada, Anselmo Ralph, Big Nelo, NBC e Bob the Rage Sense, entre outros, e no seu portefólio já conta com dois EP’s: Illegal Fatherless Child e The Kornestone.

Falando dos artistas com quem mais gostou de trabalhar, é rápido a evidenciar o nome de Chullage. “Além de ser, para mim, um dos maiores poetas tem uma sensibilidade cívica no que toca à intervenção em zonas e bairros afectados pela segregação, justificou.
Quando se fala num possível regresso a Angola, nem que seja artisticamente, Isaac nunca definiu se vai acontecer e quando, mas garante: “Havemos de voltar à marimba e ao kissange… ‘A parábola do filho pródigo.'”

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.