Tiago Costa é aquele tipo porreiro, engraçado e “aparecedor” (como ele próprio se auto-intitula), mentor do projecto Goz’Aqui, que anima as noites de quinta-feira, no Espaço Bahía, em Luanda.

Nos intervalos do humor, Tiago acumula as tarefas de Consultor de Audiovisual, Assessor de Imprensa, Gestor de Conteúdos, entre outras.

Nasceu em Lisboa, em 1985, mas poderia muito bem ter nascido na antiga União soviética, por exemplo, dado o contexto da época.

Estudou em várias cidades portuguesas e com sentimento de “missão cumprida”, antes de voltar definitivamente para Luanda, licenciou-se em Direito e tirou uma pós-graduação em Assessoria e Consultoria em Comunicação e Marketing.

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Desde cedo que sempre mostrou habilidades em comunicação escrita e oral e, enquanto cursava Direito na Universidade Católica do Porto, começou a escrever alguns artigos para uma revista cujo principal mercado era o angolano, com a tónica nas eleições legislativas de 2008.

Foi assistente de produção na curta-metragem “Alambamento”, vencedora do Prémio FIC 2010, do realizador Mário Bastos, colaborador da revista “ÁfricaToday”. Actualmente é fundador e produtor do Goz’Aqui, uma marca registada que realiza eventos de humor ao vivo, do estilo Stand Up Comedy, e que ocorrem todas as quintas-feiras no Espaço Bahia e a cada final do mês (Show do Mês) no Restaurante Moments, em Luanda.

“Não me considero um humorista”

Tiago considera-se um “jovem extremamente bem disposto, bem humorado e brincalhão. Um analista (quase) político, filho de gente habituada a andar no limiar da liberdade de expressão”, ou seja não tem “papas na língua”, mas não se assume como humorista.

“Eu sempre achei que tinha piada. Mas é aquela piada de garoto… todo mundo tem. Com o passar dos anos, foquei-me mais no humor, afastando-me dos dramas do mundo contemporâneo, até porque para drama, já me bastava acordar e não ter água ou… ter energia… de gerador. Sou engraçado porque faz parte da minha forma de ser, mas não sou um gajo com piada. Digo umas “cenas” engraçadas… mas não me considero um humorista, por exemplo. Trabalho para tal… se calhar nem tanto, por força de outros compromissos, mas, penso que com o Goz’Aqui consigo constantemente, ainda que inconscientemente, acompanhar o humor de uma modo geral.”

Dentro do humor, prefere a sátira e dá-nos bons exemplos de onde vai buscar a inspiração:

A sátira é a minha forma de ridicularizar algo. Por exemplo: Acordei e estou sem energia. Por sorte, tenho gerador. No entanto, não tenho combustível… maravilha.

Há uns dias, e isto é verídico, um funcionário foi parar à esquadra. E outro foi lá ver o que se passava. Este segundo, foi “açambarcado” por uma polícia que se encontrava na esquadra, “pedindo-lhe” que fosse comprar água na esquina. Se isso não é ridículo por si só… resta-me dizer que era horário de Goz’Aqui. O rapaz não chegou a horas ao seu local de trabalho porque tinha ido comprar água para a polícia… Eu acho isso ridículo. Engraçado… mas ridículo. Eu gosto de ser irónico desde que me conheço. Há uns largos anos, descobri o sarcasmo… e nunca mais fui o mesmo. Claro que não!”

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“O meu conteúdo é tudo menos sério”

No mundo do humor nem sempre tudo tem piada e pode haver quem não goste de ser exposto ao “ridículo” em praça pública, mas Tiago garante que consigo isso nunca aconteceu, e revela uma forma peculiar de fugir a esses “beefs”: “ Nunca me correu mal ter gozado com alguém porque das duas uma: ou o faço em frente à pessoa (GOZAtv) ou quando o faço, e torno-o público, quero acreditar que as pessoas já sabem que é puro humor. Como eu gosto mesmo de me chamar de “Wanna Be” (expressão inglesa, pessoa que quer ser alguma coisa mas não é) ou “aparecedor”, penso que, com o tempo, as pessoas já sabem que o meu conteúdo é tudo, menos sério. Mas reforço que, com a oportunidade de entrevistar pessoas “públicas”, tenho sempre a possibilidade de gozar in Loco e portanto, posso ser mau humorista, mas as pessoas já me dão aquele desconto de “engraçadito”. E por conseguinte, se alguma piada corre mal… tenho sempre a desculpa de ser mau humorista. No final… todos ganham.”

Na sua lista de fontes de inspiração temos em primeiro lugar, o já falecido gigante do humor Bernie Mac, seguindo-se Jon Stewart, do jornal diário satírico “Daily Show”, os portugueses Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira e Aldo Lima, o brasileiro da Porta dos Fundos Fábio Prochat, o norte-americano Kevin Hart, entre outros.

“Sem trabalho, sem prática, sem foco, é difícil”

Tiago garante que é fácil fazer humor em Angola…”felizmente é. Há muita gente capaz e extremamente inteligente em Angola, por vezes, o humor inteligente até fica aquém das expectativas destas pessoas. Portanto, é fácil. Se é humor para todo mundo? Não, não é. Mas penso que, uma casa (Goz’Aqui) com uma média de 60 a 80 pessoas semanalmente… é um bom indicativo do público que aprecia um humor mais… “difícil”. Ainda para mais, quando o público não é sempre o mesmo.”

Muita leitura e muita prática, são estes os seus métodos fundamentais para se ser um bom humorista. Porque, “ou és o Messi do humor e não precisas nem de uma coisa nem de outra… mas ainda assim, é bom lembrar que o Messi treina todos os dias. Ou és o Cristiano… e aí treinas todos os dias, mais e melhor que todo mundo. É simples: sem trabalho, sem prática, sem foco, é difícil.

A BANTUMEN questionou Tiago sobre como se veria daqui a 20 anos, mas as incertezas são algumas. Contudo, afirma que gostaria de ter “um dedo” na maioria dos conteúdos produzidos em Angola e, quiçá, em todos os países de língua oficial portuguesa.

Mas, “no fundo, no fundo, o que ambiciono todos os dias que realizo o Goz’Aqui é: um casal que esteve no evento, chega a casa, está na cama e… antes de dar ‘uma’ (sim, porque os casais dão uma, duas e às vezes três… quando estão no inicio de relacionamento) ou mesmo depois, a dama dá uma dica que ambos ouviram no episódio do dia… ambos riem e de forma alegre, adormecem”.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.