Nu artístico é a designação dada à exposição do corpo de uma pessoa nua nos diversos segmentos das belas artes, desde a pintura, escultura, fotografia ou cinema. Existe desde que a História é História e uns aceitam-no de mente aberta, outros nem por isso. A entrevista de destaque deste mês na BANTUMEN fala-lhe sobre o fotógrafo Carlos Yambissa e o Nude Project by Kkarlos, o seu projecto fotográfico de nu artístico.

O Nude Project by Kkarlos é um projecto que nasceu do amor pela fotografia e da vontade de superação das suas próprias capacidades fotográficas. “O nu artístico é uma das linguagens fotográficas mais difíceis de se fazer, daí ter mergulhado neste desafio”, revela Carlos.

“Elevar o corpo feminino a obra de arte”

Não é fácil abstrair-se da nudez. A sua primeira sessão foi produzida com alguém que lhe era próximo. Caso contrário, a inexperiência poderia ter falado mais alto e libertado a mente para o tipo de pensamentos e reacções físicas que o profissional tem de saber dominar. Ter optado por alguém que conhecia fez com que treinasse mais a parte psíquica e afastasse qualquer automatismo mental e começasse a trabalhar de forma mecânica, afirma o fotógrafo.

De momento, o corpo feminino é o que mais o cativa. Para Carlos, embora a idade seja factor de peso nas transformações que a mulher vai sofrendo ao longo do tempo, o corpo da mulher mantém sempre a sua sumptuosidade e beleza natural. E “fotografar de forma artística ajuda na auto-estima. É elevar o corpo feminino a obra de arte, que deve ser admirada todos os dias e isso cativa-me bastante. Retratar o corpo em todas as suas formas, buscar beleza onde não a vemos numa primeira instância, fazer com que a mulher se apaixone por si e mantenha o amor próprio em primeiro lugar”.

Apesar de ser considerado uma das classificações académicas das obras de arte e ser aceite em várias comunidades ocidentais, em Angola, sem qualquer tipo de estudo realizado, podemos dizer que o nu artístico é um tema que gera controvérsia.

“Tudo o que é inovação, inicialmente, acaba sempre por ser mal encarado”

Todos os dias assistimos na TV, no Facebook, no Instagram, nos grupos de Whatsapp e outras redes sociais, fotografias e vídeos que, legitimamente, nos rotulam de sociedade prevaricadora e promíscua, contudo quando se fala de assuntos directa ou indirectamente relacionados à sexualidade estes tornam-se tabus e, de repente, reaparecem todos os defensores dos mais castos valores morais e cívicos. E por isso, a página de Facebook de Carlos, que servia de veículo de comunicação do seu trabalho, foi denunciada e consequentemente bloqueada.

O fotógrafo acha que “tudo passa por uma educação artística. Tudo o que é inovação, inicialmente, acaba sempre por ser mal encarado. E aos poucos o angolano começa a encarar o nu artístico como arte e não pornografia”. E sublinha que não é qualquer um que imprime a palavra arte na nudez. “É preciso ter paixão e amor para poder retratar o corpo de forma artística e não pornográfica.”

Não é fácil encontrar as suas modelos, mas a confiança e o profissionalismo são os seus cartões de visita. A seriedade com que lida com cada uma das suas sessões fotográficas faz com que a palavra passe de boca em boca e sejam as próprias mulheres a contactá-lo para marcar uma sessão.

O processo de criação parte do fotógrafo, mas a opinião da modelo é preponderante no desenrolar do trabalho. Carlos diz que no início a tensão das modelos é palpável, mas no fim acabam por se descontrair e deixam despontar a auto-confiança. Mas nem sempre o trabalho corre como esperado, “há pessoas que marcam e no dia da sessão pura e simplesmente acabam por não aparecer ou inventam sempre uma desculpa. Isso mata completamente um artista, pois as pessoas não têm a mínima noção do tempo que se leva a planear uma sessão fotográfica. Por vezes, há coisas que eu dispenso, só para poder agendar o dia para fotografar”.

“São comentários depreciativos que pouco mexem comigo”

Quanto às críticas, a arte em Angola é uma área que ainda carece de bastante atenção e de desenvolvimento. As áreas mais incomuns ou arrojadas são genericamente mal encaradas. Frequentemente, Carlos ouve que faz este tipo de trabalho unicamente para ver mulheres despedias ou que se aproveita da situação para ter sexo fácil. Mas na verdade “são comentários depreciativos que pouco mexem comigo. Sei ser profissional e encaro isso apenas como frases ditas por quem precisa de pesquisar mais sobre as diferentes formas de manifestação artística”.

Para conhecer o projecto na íntegra clique aqui ou aceda ao perfil de Instagram Worldofnude_B&W.

Fotos cedidas por Nude Project by Kkarlos
Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.