Ainda és tu! Estive aqui a pensar em como há pessoas que independentemente do tempo e de como as coisas não correram como perspectivadas, estas têm sempre um acesso quase que directo na nossa vida.

É assim, que mesmo que não notes, há situações e momentos que vão te pertencer sempre… E se eu disser que ainda são teus os meus domingos, as minhas lingeries novas? Que ainda é tua a minha cama, a minha casa, os meus beijos matinais? E se eu te disser que tu – só tu – ainda podes entrar e pegar qualquer livro na estante sem que eu me aborreça?

Quando a vida “arranca” alguém de nós  – como me arrancou de ti e vice-versa – anuncia-se um luto desesperado, agressivo, quase desumano. Vai passando como se nos aplicassem uma injecção calmante, e dando espaço a uma dor parcelada, que se arrasta e nos arrasta junto.

E agora o que eu tenho aqui é uma saudade calma, melancólica, vagarosa, que me rasga aos poucos como que por puro prazer. Não tem choro desesperado – porque, afinal, não é isso a merda da maturidade? – só tem um vazio estranho do que não foi, do que pensámos que fosse, do que merecíamos que fosse.

Uma saudade lenta, que me afaga quase todas as vezes em que me lembro. Isto não é sobre finais ou sobre começos ou sobre amores mal-resolvidos ou sobre a porra da vida adulta.

Isto é sobre saudade. Essa coisa fria e cruel que nos acalenta e nos apunhala quase ao mesmo tempo.

É sobre querer a tua voz ecoando macia… sobre o teu jeito apaixonante de fazer qualquer coisa nessa vida. É sobre o abraço que faltou, é sobre o vinho que não terminámos, os filmes que não vimos. Enfim… Isto é sobre ti, como tantas vezes foi. É que por mais que eu já tenha aberto a porta para tantos outros, ainda dói. Ainda és tu. Ainda poderíamos ter sido nós!