Este artigo é só o expressar de mais uma opinião sobre a nova polémica da nossa querida Banda, a mulatice alheia.

Cada um de nós tem a liberdade de não extrapolar a liberdade do outro, o que significa que cada qual é livre de fazer o que quiser consigo mesmo, desde que estejam salvaguardados os direitos constitucionais de todos os possíveis envolvidos nas nossas acções. Própria Lixa quer ser mulata? Força. Quantas “meninas” não aderiram ao silicone na bunda? A pergunta é retórica. Sexta-feira à noite, em qualquer club da ilha de Luanda a resposta está à vista. Se podemos aumentar a bunda, porque não podemos clarear a pele?

A resposta seria simples se não houvesse todo um fundamento hipócrita envolvido. Podíamos até alicerçá-la com contornos históricos, mas fará sentido continuar a fundamentar as nossas escolhas em ideologias obsoletas, imbecis e que nos foram impostas durante séculos? Luther King, Malcom X, Rosa Parks ou Mandela defenderam uma causa perdida. Lutou-se contra a supremacia branca, mas esquecemo-nos do ódio dos pretos contra os próprios pretos. Subcategorizamo-nos na esperança de um dia chegarmos a essa tal elite mulata, nem que para isso tenhamos de nos chagar com as milagrosas embalagens de Mekako vindas da China. Ensinamos aos nossos filhos que pretos não sabem estar, que cabelo natural é ruim, que a língua nacional é inútil em troca da aprovação de quem? Passamos a vida a falar de como os brancos nos inferiorizam mas esquecemo-nos que somos os primeiros a menosprezar as nossas capacidades.

Há toda uma supremacia relegada aos seres de pele mais clara, que nós os próprios escuros atribuímos. Queimamos o CD do Tugueda em praça pública, mas em surdina invejamos as qualidades supostamente intrínsecas a quem é mais claro do que nós. Foi piada. Foi apenas piada. Quem já não gozou com um cambuta, com um gordo, com um feio, com um langa? Ou a discriminação racial está acima de qualquer outra? Ironia mal colocada e mal interpretada, Puto, ‘tás perdoado.

No trabalho, aquiescemos a todo e qualquer mandamento de um branco ou mulato porque têm impressos na testa o selo da razão. Contemos quantos negros ocupam cargos de gestão ou direcção nas empresas de direito angolano. Contemos quantas mães infligem químicos às suas filhas pequenas para alisar os seus cabelos. Contemos quantos mulatos ficam na porta da discoteca à espera enquanto os escuros entram com prioridade.

Mas sim, vamos todos partilhar fotos e vídeos com a tag #EscuroSim, enquanto continuamos a imitar o branco ou o mulato, porque no fundo temos uma auto-estima débil e volátil. Se durante tanto tempo lutámos contra leis e pensamentos ignóbeis a nosso respeito, porque incutimos em nós próprios essa inferiorização? Masoquismo? Ignorância?

Minha gente, tantos outros assuntos que deviam merecer a nossa fúria.

Vamos partilhar fotos e vídeos com a tag #EscuroSim enquanto outros continuam encarcerados por quererem ter a liberdade de fazer uso dos seus direitos enquanto cidadãos de uma democracia? Vamos partilhar fotos e vídeos com a tag #EscuroSim enquanto professores violam estudantes nas escolas? Vamos partilhar fotos e vídeos com a tag #EscuroSim enquanto viajamos para o exterior para ter acesso a tratamentos médicos condignos? Vamos partilhar fotos e vídeos com a tag #EscuroSim enquanto em casa falta energia e água dia sim, dia sim? Continuo?

No dia em que o tom de pele for apenas um assunto sobre estética, a consciência negra deixa de existir e no dicionário o significado de raça será redefinido.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.