Another Day of Life é um livro com base na experiência vida do jornalista e escritor polaco Ryszard Kapuściński, durante a guerra civil angolana, seguida da sua descolonização, e que, graças ao Platige Image Studio e ao director espanhol, Raul da la Fuente, tornou-se num filme que funde a animação com a História.

“A meu ver, é errado escrever sobre pessoas sem viver pelo menos um pouco daquilo pelo qual elas estão a passar”, escreveu Ryszard Kapuściński em Another Day of Life.

O livro levou o director espanhol Raul de la Fuente a seleccioná-lo como a base para o próximo filme e juntou-se à Platige Image, uma empresa de produção polonesa especializada em animação para começarem a desenvolver o projecto único, a nível de animação, para os cinemas espanhol e polaco.

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Nos meses que antecederam e após a partida oficial do Estado português, Angola foi atirada ao tumulto num conflito civil entre diferentes partes políticas para na luta pelo poder; o FNLA no norte, a UNITA no sul e oeste e o MPLA.

O jornalista Ryszard Kapuściński tinha viajado por toda a África Ocidental, dez anos antes e quando a agência de notícias polonesa lhe pediu para viajar para Angola em 1975, ele aproveitou a oportunidade. Os seus relatos de Luanda e das frentes de ataque entre os grupo armados mais tarde tornaram-se a substância do seu livro. Another Day of Life é de um modo geral considerado uma obra-prima da reportagem. O autor britânico Salman Rushdie, aquando do lançamento, disse: “A sua excepcional combinação de jornalismo e arte permite-nos estar muito próximos daquilo a que Kapuściński chama de inexpressiva imagem de guerra.”

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É impossível alguma vez compreender completamente a realidade de uma guerra através de relatos que recebemos nas noticias. Contudo, é muitas vezes impossível para os próprios repórteres seremos capazes de determinar uma visão ampla dos acontecimentos que vão surgindo. Kapuściński reconheceu a impossibilidade de transcender a sua perspectiva pessoal e como tal, usou-a como ferramenta para descrever como ele percebeu e experimentou o conflito. Como o próprio autor diz no romance: “O mundo contempla o grande espectáculo de combate e morte, que é difícil de imaginar, porque a imagem de guerra não é comunicável — não por uma caneta, ou voz, ou câmara.”

Em vez disso, temos as imagens dos montes de lixo que se acumulam em Luanda, uma vez que os homens do lixo abandonaram os seus postos; as suas descrições humorísticas das “orgias sexuais em massa” entre cães com pedigree que correm regularmente na relva do Palácio do Governo, uma vez que os seus proprietários portugueses tinham fugido do país; o mingau de tabaco encharcado, que foi um maço de cigarros no bolso, devido à quantidade de suor proveniente do stress de conduzir pelas áreas de combate.

Another Day of Life é tanto um estudo de caracter como uma reportagem política e embora não seja de grande volume, rapidamente enternece os leitores. Uma das personagens é Carlota, uma soldado de 20 anos que aparece apenas em algumas páginas, a sua morte súbita é um dos momentos mais trágicos num livro marcado pela sua pungência.

Foi o estilo simpático e humanista de escrever que atraiu o director Raul de la Fuente e que o fez planear a produção do seu filme baseado neste livro.

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O filme caracteriza-se pela fusão da animação com cenas da vida real, algo nunca antes visto em filmes espanhóis ou polacos. As sequências animadas, dirigidas por Damian Nenow recriam o poder das palavras de Kapuściński, enquanto as cenas da vida real têm testemunhos de alguns sobreviventes do conflito, 30 anos depois. Esta forma para dividir o passado e o presente foi uma decisão inteligente e cheia de nuances, solidária com a convicção de Kapuściński, de que é impossível ter uma noção geral da guerra. Pelo contrário, estas duas formas de contar a história, são nada mais do que duas perspectivas da guerra e o contraste entre a animação e a vida real realça as suas propriedades formais, tanto quanto as suas narrativas.

O filme é dado como solidário para com o original de Kapuściński e proporciona uma nova e única perspectiva sobre o conflito no país durante o processo de independência e o impacto permanente no país.