Um arquivo de cinemas históricos em África está a ser criado pelo Goethe Institut Angola, com a história dos cine-teatros Angolanos a serem revividos primeiro.

O cinema é facilmente uma das mais populares práticas culturais. Reflete um número de fenómenos sociais, políticos, económicos e culturais nas sociedades modernas. Uma memória colectiva é formada em redor dos cinemas: a experiência de ir ao cinema tem importância social e a arquitetura do cinema é uma referência comum ou ponto de referência para inúmeras pessoas.

Quando falamos em cinema muitas vezes pensamos no filme em si como o único elemento digno de conhecimento, mas a arquitectura dos edifícios dos cinemas está a ser finalmente noticiada nos países africanos. The Goethe Institut Angola está a criar um arquivo em cinemas históricos de África e está a trabalhar para restaurar cinemas nacionais como parte de um projecto para celebrar e preservar a herança cultural da arquitectura moderna dos cinemas em Angola.

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Em Angola, cinema é um bem cultural de grande importância e desempenhou um papel fundamental na formação de uma paisagem arquitectónica moderna. Entre os inícios de 1930 e os fins de 1970, 50 cinemas foram construídos em Angola como o Cine Infante Sagres em Luanda a ser o maior no continente, em 1975. Espalhado por dois andares, o Infante de Sagres (que agora está incrivelmente delapidado) era o lugar preferido para uma reunião, encontro, socializar e várias outras atividades. Para além de ter uma cultura de cinema muito forte, este cinema apresenta sucessivos espaços de convivência, bares, terraços, que funcionam de forma autónoma a partir do auditório do cinema.

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Restaurar os cinemas significa recuperar a sua forma arquitectónica e também a sua forma funcional. O primeiro passo neste processo de restauro começa com Angola cinemas: A Fiction of Freedom (Cinemas de Angola: Uma ficção da liberdade), um livro de mesa de café de fotografias, executado por Walter Fernandes e Miguel Hurst, que trás um foco fresco aos espaços históricos da visualização de filmes. O livro de mesa de café contém fotos dos cinemas de Angola na sua glória desbotada e dá evidências da sua importância no passado.

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O arquiteto portugês Francisco Castro Rodrigues fugiu para Angola para escapar ao regime autoritário de Salazar. Inspirado pelo estilo de vida e pela paisagem costeira de Angola, Castro Rodrigues tinha sonhado com cinemas e esplanadas (os cinemas ao ar livre). Paula Nascimento, da empresa de arquitectura angolana, Beyond Entropy, contribuiu para o Angola cinemas: A Fiction of Freedom, descrevendo as esplanadas como “estruturas distintas, cujo design e construção surgiu da cultura local, geografia e clima; e que não eram encontrados em mais nenhuma parte do mundo.”

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Castro Rodrigues desenhou a mais famosa das esplanadas, Cine Flamingo (designado assim porque os flamingos pousavam em enormes bandos, como fazem os cinéfilos) e o Cine Baia. Ele permaneceu em Angola durante anos após a independência como um arquiteto municipal para a República de Angola e faleceu em Maio deste ano.

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“O cinema foi sempre cheio porque era realmente agradável ir aos cinemas nessas noites quentes e ver um filme, em parte abrigada pela cobertura,” disse Castro Rodrigues numa entrevista captada pouco antes da sua morte.

Enquanto que os cinemas eram incrivelmente populares na Angola Colonial, eles foram afectados pelo golpe de segregação. A baixa de Luanda foi dispersada com cinemas para a elite branca colonial e os subúrbios escuros da cidade abrigava menos cinemas para a população africana de Luanda. Nascimento observa com precisão que os cinemas “são um testemunho de um período particular da nossa história, assim como para uma geração de arquitetos, locais e outros, que contribuíram para construir a imagem das nossas cidades.”

Alguns dos cinemas permanecem em funcionamento, mas são usados hoje para funções diferentes. A assembleia nacional, onde o parlamento se reúne, é situado no Cine-Teatro Restauração, desenhado pelos irmãos arquitectos João Garcia de Castilho e Luís Garcia de Castilho, com referência da arquitectura de Frank Lloyd Wright e Willem Dudock.

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O Cine Atlântico (ex-Cinema Império) continua em uso, hospedando o Festival anual de Files Internacionais em Luanda. Desenhado pelo arquiteto António Ribeiro dos Santos, o edifício foi inaugurado em 1966 com a exibição do filme My Fair Lady.

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O Cine Cazenga (anteriormente Cine Lis) foi colocado para fora como um cinema ao ar livre e o espaço continha uma área de refeições, assim como tinha um auditório parcialmente coberto. Quando estava em funcionamento, passava filmes como Oscar em 1967, e o clássico The Exterminator em 1980. Foi renovado para a filmagem de Assaltos em Luanda II, em 2008.

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O Cine Kalunga na província de Benguela construído em meados dos anos 60, nos estilo de esplanadas, continha um jardim luxuoso de generosas proporções, construído para ser ocupado por 1146 pessoas sentadas. O Cinema foi restaurado completamente agora e recebeu o Concurso de Miss Angola 2002.

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Existe actualmente 33 cinemas arquivados nos cinemas históricos de África. A entrada de cada um inclui inúmeras fotos do cinema em questão, passadas e presentes, locais, o número de salas de cinema, uma breve descrição e o nome do arquiteto.

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O arquivo dos cinemas históricos em África, de momento apenas cobriu Angola. Um projecto de pesquisa colectivo destes espaços está a caminho e pede por participação pública, via website. Tem ambição de estender o arquivo por todo o continente para incluir históricos arquitectónicos dos cinemas de Moçambique, Etiópia, Gana, Namibia, Nigéria, Quénia, África do Sul, Sudão, Zimbabue, Burkina Faso, Camarões, Costa do Marfim e Senegal.