Deixe acontecer

A aventura da descoberta de uma nova relação é sempre algo surpreendente. E, entre jogos e cenários incrivelmente delineados, você se permite um novo ciclo. E este era um encontro casual que tinha tudo para dar certo. Um cenário bonito e tranquilo, alguém em quem eu investia há um tempo e que me dava aquele friozinho que implora para ser sanado. Um vinho, uma conversa e o afago que só os encontros naturais proporcionam.

E nós poderíamos continuar ali, deixar que os beijos nos calessem e a vontade ditasse o que aconteceria dali em diante. Mas o instinto caçador, muitas vezes, nos atrapalha. E aí surge aquela velha história do “vamos para um lugar mais reservado?”

Sair da conversa despretensiosa e dos sorrisos que se deixavam acontecer para seguir aquele velho roteiro: vinho, frases prontas e sexo. Não que eu não goste de sexo (não ouso ser tão monotonamente incomum), mas é que a vontade chegaria em pouco tempo. Uma vontade inevitável, confortável, natural. E nós, provavelmente, iríamos para um lugar mais reservado – sem roteiro, sem pressa e sem frases prontas. Simplesmente deixar acontecer.

Confesso que – como já aconteceu com todo ser vivo – bloqueei. Mesmo gostando de vinho e de sexo. É que não gosto da sensação de ser caçada. Convidada para uma situação propositadamente – e unilateralmente – articulada. Isso me traz a horrível sensação de não ter escolhido – de ter simplesmente sido levada. E isso – me acuse de hipócrita, se quiser – me incomoda.

Mais do que esta esquematização automática, gostaria de ter observado por alguns instantes um sorriso despretensioso, de te ter tocado o ombro assim como quem nada quer. Enfim… Só queria que o desejo nascesse naturalmente em vez de ser manipulado numa cama redonda com meia-luz – porque é assim que se descobre o desejo genuíno.
Um brinde a quem deixa acontecer!