Não sei se me atrevo a dizer que gosto muito de andar de candongueiro, porém confesso que existe qualquer coisa de fascinante naqueles veículos brancos e azuis que circulam nas vias das cidades de Angola.

Eu só andei de candongueiro em Luanda. E há em mim um mix de sentimentos no que toca a este tipo de transporte. Se por um lado não há o conforto que se tem numa viatura própria, por outro lado é muito melhor ouvir as rádios nacionais na companhia de mais 9 ou 10 pessoas a comentar do que sozinha.

Muitas vezes cheira mal e os bancos estão sujos, é certo e eu não posso negar. Mas não são poucas das vezes em que a minha primeira gargalhada se dá porque alguém disse um disparate, durante a viagem, daqueles bem bons.

Aprende-se imenso nos “transportes públicos”. Apercebi-me que há pequenos truques que posso utilizar para que o cobrador ponha uma cunha ao motorista de forma a que ele me deixe exactamente onde quero, isto porque volta e meia há aquela máxima do “aqui não se pára, moça”.

Sento-me perto do cobrador. Tem de ser perto o suficiente para o conseguir alcançar. Quando chegar a altura de lhe dizer a paragem onde vou descer, faço-o tocando-lhe no ombro ou no braço. Mas não é só tocar. É a criação de um laço. Tenho de sentir que ele gostou. É o início de uma empatia condenada a morrer ali porque candongueiros há muitos. O toque aproxima as pessoas e depois do toque surgem dois ou três dedos de conversa no escasso tempo que ainda nos restar. No fundo, é um pouco de amor que ali acontece.

A verdade é que no final, eu fico exactamente em frente ao edifício que quero sem ter de andar para trás ou para a frente, mesmo que sejam só uns metrinhos.

Há cobradores que não me “dizem” nada, mas há outros que até despertam em mim vontade de ficar mais um pouco, sei lá. Depois só teria de rezar para um ano depois eu não descobrir que afinal o rapaz é um Executivo de topo, if you know what i mean...