Alexandra Barcellos é uma escritora brasileira formada em Letras (Português-Inglês), lecciona literatura brasileira (em português) e Literatura Estrangeira e lançou recentemente o livro Cadu e as histórias de Bantu.

A obra é dedicada aos mais novos e dá a conhecer as raízes afro-brasileiras, pouco exploradas na literatura infantil.

A BANTUMEN este à conversa com a escritora, que revelou alguns detalhes sobre a história de Cadu, um menino negro que vive à descoberta da sua herança cultural.

BANTUMEN: Quem é Cadu?
Alexandra Barcellos: Cadu, é um jovem negro que nasceu no vilarejo de Bantu, localizado no sul do estado da Bahia. Todas as famílias de Bantu vivem da produção artesanal de um legado africano. A família do Cadu tem um fábrica de berimbaus, herança de seus antepassados que fundaram o vilarejo, há muitos anos.

BM: De que histórias de Bantu fala o livro?
AB: O livro fala do povo que vive nesse vilarejo e das suas tradições afro-brasileiras. As histórias que surgem, sempre entrelaçadas ao menino que ao longo da narrativa se torna o jovem Cadu, são heranças das histórias de vida dos povos que vieram de diferentes países africanos e que contribuíram para a formação da identidade do povo brasileiro.

Cadu cresce ouvindo essas histórias nas rodas de capoeira e por todos os lugares do vilarejo. Ele gosta de ouvi-las e de fazer parte dessa ancestralidade, que o acompanha do inicio ao final do livro.

BM: Como surgiu o seu interesse pelo povo Bantu?
AB: Eu sou brasileira e o povo Bantu faz parte da história do Brasil. Esse povo, juntamente com outros povos, formou a identidade brasileira. Muitas coisas que fazemos, no nosso dia a dia, são costumes que foram trazidos da África por eles, e que agora fazem parte da nossa cultura. Acho muito importante que falemos sobre isso, não podemos jamais esquecer de onde viemos.

@Nelinho Santos
@Nelinho Santos

BM: Como foi o processo de investigação?
AB: Quando eu comecei a escrever a história do Cadu, eu queria muito falar sobre o berimbau, eu queria que esse instrumento musical estivesse presente na vida do personagem de modo especial, quase mágico. Eu, também, queria entender melhor a formação da nossa identidade e descobrir quais foram os povos que foram trazidos para essas terras, infelizmente forçados, mas que com o passar dos anos tornaram-se parte do que somos. A princípio concentrei-me em fazer pesquisas sobre Angola, suas tradições e costumes, mas à medida que minhas pesquisas avançavam eu acabei percebendo que o povo Bantu provinha de outros países africanos. Foi um processo enriquecedor, eu aprendi muito.

BM: Que descobertas faz Cadu sobre a sua história?
AB: Ele nasceu em Bantu e durante toda a sua infância ele acredita que seu vilarejo é o lugar mais bonito do mundo. Ele tem razão: Bantu está localizado diante de uma paisagem de beleza única. O vilarejo fica numa área remanescente da Mata Atlântica brasileira, onde as árvores, coqueiros, rios, córregos e pequenas dunas de areia lhe dão uma paisagem paradisíaca. Em Bantu, Cadu descobre que o som do berimbau é uma herança que foi trazida pelos povos da África. Ele aprende que a capoeira faz parte de um aprendizado diário que mistura um jogo, uma luta e um modo de vida cheio de rituais.

Ele cresce vendo os seus familiares confeccionando berimbaus e ouvindo sobre reinados Africanos que ele sonha, um dia, conhecer. Cadu perde o seu pai aos sete anos e por muito tempo carrega essa tristeza, que com a passagem dos anos torna-se a sua saudade.

Perto dos dez anos um Mestre de Capoeira, que nascera em Bantu, retorna ao vilarejo, o Mestre Maní, que será um mentor para o aprendiz Cadu. Com ele Cadu aprenderá sobre a origem do lugar onde nasceu e sobre muitas histórias dos povos da África.

Sobre a escritora:
Tem sete livros publicados ao todo, o primeiro foi publicado em 2003. As obras falam de ecologia e do ecossistema onde vivemos. Cadu e as histórias de Bantu é um livro “muito especial” para a autora, que levou dez anos para o publicar.