Os Tchobari lançaram há menos de um mês o último trabalho, “Filha Alheia“, que voltou a trazer para a ribalta do showbizz o nome do grupo e de Shanty Roque, que fez a sua primeira aparição mediática depois da polémica dos seus vídeos pornográficos.

Estivemos com Sarissari que nos falou um pouco sobre o seu dia-a-dia como pai, marido e músico.

Levanta-se todos os dias às 6h da manhã, para ir para a Mutamba, em Luanda, onde trabalha na Sonangol. “Vejo os meus filhos ainda a dormirem, a mulher ajuda-me a preparar tudo o que necessito para que o dia corra às mil maravilhas. Parto de casa todos os dias de segunda a sexta em direcção à Mutamba para ganhar o meu pão de cada dia e dar também o meu contributo intectual e académico ao país que se encontra numa fase em que precisa de quadros angolanos capacitados para desempenharem tal papel na sociedade.”

1A rotina diária passa também pelo estúdio de gravação. “Depois do expediente, passo sempre todos os dias pelo estúdio. Com ou sem luz, porque o Tchoboly tem sempre um beat novo para me mostrar ou uma ideia nova para partilhar.”

Pai de duas crianças, Skaya e Skaylan, Sari afirma que “educar não é facil, nunca foi e jamais será. Ser pai não é para qualquer um. Ser pai não é engravidar uma mulher. Aprendi que ser pai é ter a capacidade de deixares de comer para poderes alimentar os teus filhos, simplesmente sentes que a vida ganha outra importância porque a partir deste momento tu não dependes, tu tens um bebé inocente a depender de ti.”

O modelo a seguir na edição dos filhos vem da avó Zita que já faleceu. “Atrevo-me a dizer que eu era o neto preferido dela, toda a minha infância e adolescência foram passadas ao lado dela, sobre a sua tutela e sobre os seus cuidados. Tempos em que eu era feliz e não sabia. A perda não se descreve, fica um vazio. Dás conta que a vida acaba e que ontem tu eras só o filho, hoje és o filho com filhos, dás conta que o tempo passa a voar.”

“O que me fez entrar para o mundo da música foi exactamente o feeling”

 

A música surgiu na vida de Sari quando andava num colégio militar em Lisboa. Início dos anos 2000, nos leitores de CD a presença de honra era de Boss AC, Black Company e SSP. Começou a escrever as primeiras rimas quando corrigia as letras de uns colegas que já andavam na cena hip hop. “Tinha uns colegas um pouco mais velhos que tinham um estúdio e que, na altura, estavam a gravar um CD. Falo-vos dos Pentágono a.k.a P5 e o estúdio era Bunker X. Aquele ambiente de gravações, de ver eles a comporem e gravar e ver aquela base bem básica sem nada, a ganhar estrutura, sentir a ideia a resultar, e no final o impacto nas pessoas… Acredito que o que me fez entrar para o mundo da música foi exactamente o feeling de poder sentir que algo que fizeste ia ter um impacto positivo nas pessoas. Sempre quis fazer as pessoas sentirem-se bem”, disse-nos.

Enquanto se aventura a fazer correções nas letras, quando dava conta já eram letras novas. “Aí comecei a escrever e nunca mais parei. Quis sempre mais e mais oportunidades para poder concretizar o que escrevia, num flow em cima do beat e fazer daquela idea ou experiência algo que tocasse as pessoas.”

Alguns anos depois, 2014, nascia Kwatsiru. Quase dois anos depois, “Filha Alheia” surgiu como “um presente para todas as mulheres” que gritam pelos Tchobari nos shows. “É uma homenagem à mulher angolana que merece ser cada vez mais valorizada.”

2No vídeo, a estrela é Shanty Roque, que ficou conhecida Halona Vog, a primeira actriz pornográfica angolana. A escolha aconteceu naturalmente. “É nossa amiga. Como trabalhamos de forma independente, sem grandes apoios e às vezes contamos também com as nossas amizades quando precisamos, neste caso foi exactamente isso que aconteceu. A Shanty ajudou-nos a tornar uma ideia realidade. A amizade falou mais alto e decidimos ir em frente. Sabíamos que corriamos o risco de uma boa polémica, mas graças a Deus as pessoas receberam bem a música e o vídeo e estamos muito contentes pelo resultado final.”

Na calha há ainda o segundo álbum que já está em fase de produção. Sobre a possível mudança de estilo dos seus trabalhos, Sarissari diz que já sentiram alguma pressão. “Mas nós não mudamos. Sabemos bem aquilo que queremos atingir. Quando começamos a nossa vibe Kwatsiru, éramos malucos. Hoje temos artistas a irem lá ao estúdio pedir beats de kwatsiru porque tem uma vibe mais africana e como, hoje, África está na moda, muitos querem o kwatsiru que ontem ignoraram. Nós estamos aqui para trabalhar, somos artistas e vamos sempre tentar surpreender as pessoas de forma positiva. Normalmente, faço rap e no “Filha Alheia” eu cantei… O Tchoboly normalmente canta e no “Filha Alheia” fez rap. A intenção é fugir daquilo que o pessoal está à espera, o efeito surpresa é extremamente importante.”

Ainda este ano a dupla está a preparar um tour em Portugal, que vai começar pela cidade do Porto.