Na imprensa mundial é bonito ser-se negro quando não se é. Nós explicamos: os lábios grossos, a bunda grande e as tranças são alguns atributos fantásticos de se ter, mas não quando se é negro. Caso contrário é sinal de pobrice ou, simplesmente, de nada de especial para ser destacado.

Um exemplo disso é o desafio mais pateta das redes sociais dos últimos tempos. Mulheres em todo o globo (mas principalmente nos EUA, onde muitas vezes o ridículo parece ser o normal), deram-se ao trabalho de sugar um copo ou uma garrafa com o objectivo de conseguirem uns lábios carnudos, por alguns minutos ou horas. Além de pateta, este desafio, intitulado #KylieJennerChallenge, pode também ser perigoso por gerar lesões na mucosa da boca.

Depois de aceite o desafio, há a típica fotografia duck face, onde as “meninas” se vangloriavam dos “novos” e, supostamente, sexy grandes lábios.

Na outra face da moeda, a marca de cosmética MAC publicou no mês passado uma imagem onde faz publicidade a um novo batom. A MAC é conhecida por pôr as questões raciais onde elas deviam estar: no lixo. As suas campanhas são protagonizadas por pessoas brancas, amarelas, verdes, vermelhas e azuis às bolinhas. Mas nesta, em específico, foi realizada por uma modelo negra, Aamito Stacie Lagum, onde em grande plano temos os seus fantásticos, naturais e apetitosos lábios carnudos. Nossa… Os seguidores da marca conseguiram insultar a modelo, de todos os nomes possíveis e imaginários.

Logo, lábios carnudos de negra já não é uma imagem tão bonita de se ver. (Felizmente, nem todos concordam com esta frase, mas há uma grande parte da população branca e negra, sim: negra, que pensa desta forma.)

Ninguém precisa gritar aos sete ventos que Black is beautiful [negro é lindo], porque negro é lindo como é o branco, o amarelo, o verde ou o azul às bolinhas. Mas a verdade é que num mundo onde o negro, se sente inferior, onde as crianças “nascem” com a ideia de que o seu tipo de cabelo e cor de pele são feios, é sim necessário gritar “hey, és linda/o e maravilhosa/o!”. É sim necessário elogiar e elogiar e dizer: “és capaz!”. São séculos de formatação cerebral e injecção de conceitos deturpados sobre o estatuto do negro. Esperemos que não seja necessário o mesmo tempo para mudar consciências.

Photographer- BambusO cabelo afro está cada vez mais na moda, soltando-se dos postiços e dos anos e anos de desfriso. Mas há muita mulher “natureba” que olha para a “química” com estranheza e, muitas vezes, com desprezo. Hello… não será isso também descriminação? Podes usar o cabelo liso, encaracolado ou encarapinhado… é indiferente, desde que seja uma escolha tua e que não seja por menosprezares os teus atributos naturais em detrimento dos que poderias eventualmente ter se tivesses nascido caucasiana.

Aos poucos chegamos lá. A Vogue Espanha dá uma ajudinha. Na capa deste mês o mote é “A rainha de África“, com uma modelo negra de tranças e com o subtítulo black is beautiful em letras garrafais. Perfeito. Vamos ter meninas, adolescentes e adultas a olhar para aquele editorial e pensar: podia ser eu!

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O único senão é todo o cenário africano ser ainda o típico ambiente tribal. Mas isso é todo um outro tema de conversa (mas aproveitando a coisa: em África também temos cidades. E bastante cosmopolitas por sinal!)

Mas resumindo e concluído: Queremos mulheres cheias de auto-confiança e que não precisem de ser valorizadas por terceiros para se sentirem “mais elas”. O sucesso acontece quando nos aceitamos e não andamos a divagar à volta de ideias erradamente pré-concebidas sem um pingo de racionalidade. Parabéns às mulheres. Negras principalmente. Não é descriminação. É uma chamada de atenção.

Parabéns. Não pelo dia 8 de Março e sim por todos os dias do ano. Por serem seres humanos, dignos de respeito, donos do seu nariz e que trabalham todos os dias para amanhã serem mais e melhor do que foram ontem.

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.