As start-ups (empresas recém criadas que, na sua maioria, têm uma base tecnológica) são fundamentais para alimentar o motor económico de uma sociedade. Todos os dias nascem milhares de novas empresas em todo o mundo que inovam nos seus modelos empresariais e que, mais tarde, se tornam em negócios de sucesso. Google, YouTube, PayPal, Uber e Airbnb, numa escala internacional, são só alguns dos muitos exemplos que poderíamos nomear. Angola não escapa a esta nova vaga de negócios e começa agora a dar cada vez mais importância aos negócios com origem nas novas tecnologias.

O Kwanza Online é um desses negócios. Criado por Célio Garcia, a start up tem raiz angolana em todos os processos, desde a criação ao consumidor final.

O jovem empreendedor, de 28 anos, é licenciado em Engenharia Informática, pela Universidade de Belas desde 2011. Os primeiros passos no mundo do trabalho foram dados como técnico de informática da Sistec em 2009. Cinco anos depois estava a prestar serviços de consultor na Secretaria para os Assuntos Económicos do Executivo e de assistente de Tecnologias de informação para o Instituto de Fomento Empresarial.

As primeiras ideias para constituir a sua própria empresa surgiram em 2011, quando ainda trabalhava na Sistec. “Juntamente com três colegas, eu tinha sugerido que nos juntasse-mos e criássemos uma espécie de banco online. Nessa altura, estava a preparar o desenvolvimento de uma plataforma e-commerce mas a grande dificuldade que encontrei foi “em como receber os pagamentos a partir da minha plataforma”, uma vez que cá não tínhamos uma plataforma que resolveria esse dilema. Mas fui surpreendido pela resposta negativa dos mesmos e deixei-me influenciar, porque naquela altura tinha poucos skills em desenvolvimento e sentia que sem eles não seria capaz seguir em frente.”

Dois anos depois, em Novembro de 2013, a ideia de criar essa plataforma e-commerce nacional ainda não tinha esmorecido, mas Garcia acabou por estar envolvido noutros projectos. Desenvolveu o  Dicionário Ngola Yetu, um tradutor de português para algumas línguas nacionais, como kikongo, kimbundo e umbundo, o SendOut, aplicativo de envio de SMS para qualquer telefone registado em qualquer operadora do mundo (na altura), condecorado com o prémio de melhor aplicativo na categoria de pequenos negócios pelo Africa Android Challenge (AAC 2014) e que actualmente é um sistema de envio de SMS de Marketing.

Com novas experiências no bolso, “senti que poderia olhar para trás e avançar sozinho com a ideia do banco online. Durante o desenvolvimento, o conceito mudou de um banco online para um processador de pagamentos e disponibilizei a primeira versão do Kwanza Online (KO) em Março de 2014, com o objectivo de validar o produto que estava a ser desenvolvido para resolver a problemática dos pagamentos online em Angola. Na segunda fase do desenvolvimento, contei com a ajuda do meu sócio, Keven Chantre.C-lio
O facto de Angola ainda estar muito longe do actual panorama internacional a nível de compras e pagamentos através da Internet, Célio acreditou que poderia ajudar a alavancar esse sector de negócio. “Angola precisava de um serviço como este. Além de estar a viver a era digital (tarde, mas estamos), este serviço surge como uma oportunidade de qualquer pessoa que desejar vender artigos, como por exemplo exemplo, e não tiver meios de alugar um espaço físico, pode fazê-lo pela Internet e ter a sua casa como um “armazém” e fazer entregas ao domicílio após receber os seus pagamentos pela Internet. Facilita aos compradores efectuarem pagamentos, compras, envio de dinheiro (entre contas KO) sem a necessidade de saírem de casa ou do escritório e até mesmo se estiverem presos no engarrafamento. A verdadeira essência é unir a comodidade, rapidez com a segurança de comprar e vender online.

Durante a entrevista com a BANTUMEN, desenvolvemos algumas questões frequentes (FAQ), para que o leitor fique com uma melhor noção de como  funciona este serviço e quais as suas vantagens para o utilizador, bem como a área de negócio do Kwanza Online.

É seguro fazer compras pela Internet em Angola?

Comprar online é seguro como em qualquer outro país. Comprar online é seguro como comprar offline, digo, na rua, no shopping, na praça, no supermercado… A segurança parte de nós compradores. Obviamente que se eu sair da minha casa para fazer compras, terei de garantir a segurança do meu dinheiro em qualquer lugar, seja no bolso, na carteira, dentro sapato, enfim, e tenho de ter a certeza onde irei comprar, se o local é seguro, se inspira confiança e outras medidas de precaução. Claro, que os critérios não podem ser diferentes quando eu for fazer uma compra online.

O mercado nacional tem abertura para este tipo de negócio? 

Muita. Não só abertura como oportunidade de surgimento de novos negócios. No Brasil, o surgimento de plataformas deste tipo de serviço contribuiu para a diversificação da economia. Hoje existem mais de um milhão de plataformas e-commerce no Brasil. Esse dado eu tenho por intermédio do PagSeguro, a plataforma de processamento de pagamentos online e de gestores comerciais brasileiros.

Foi feita uma pesquisa de mercado antes de lançar o KO?

Sim. Fizemos pesquisa de mercado, procurámos opiniões de pessoas de diversas idades, etnias, classe social, rendimentos salariais, enfim. Medimos e validámos o nosso produto à medida do mercado angolano.

Quais são os principais receios dos consumidores angolanos?

Não vou afirmar que seja um receio mas sim uma certa estranheza por se depararem com algo novo. É um pouco difícil, também foi para mim, aceitar que aquilo que nós pegamos, tem o mesmo valor e conteúdo daquilo que nós simplesmente vemos. Refiro-me especificamente em, por exemplo, estar habituado a ter na minha mão dois mil kwanzas e depois passar a ter o mesmo valor de forma abstracta e ainda assim poder fazer o mesmo que faço com o dinheiro físico. É certo que o ser-humano tende a detestar aquilo que não entende mas se todos tivermos mente aberta para inovações, com certeza que estaríamos a dar sentido à música do Virgílio Fire.

E como têm reagido os comerciantes?

Muito bem. Diariamente são abertas mais de 20 contas. Só para ter uma ideia, de 1 a 13 de Maio foram abertas mais de 360 contas, somando com as que obtivemos na primeira fase, o KO actualmente tem aproximadamente mais de 780 contas criadas em menos de um mês. A nossa meta até ao final do ano é ter mais de 1000, mas se as coisas caminharem conforme estão, mudaremos a nossa meta a curto prazo.

Como todo e qualquer produto novo que chega a um mercado, a grande questão é: “O que é isto?”. Aqueles comerciantes que fizeram o trabalho de casa, olham para o KO para uma mais-valia e dizem: “demorou mas chegou”. Outros têm os seus receios, como é natural, mas procuram saber como funciona, outros estão à espera que outros comerciantes comecem a usar para ver como é… Existe uma divisão de emoções transmitidas pelos mesmos, mas estamos em contínua conversação para avaliar bem todos os feedbacks.

O que muda no ponto de vista do comerciante, com este novo método de pagamento?

Muda a forma como ele encara o meio que escolheu escoar os seus produtos. Ganha mais confiança por parte dos compradores e transmite uma certa preocupação para com os mesmos, visto que um método de pagamento que garante a segurança e a comodidade do cliente, espelha uma certa preocupação relacionado ao bem-estar dos clientes no que concerne à forma de pagar e receber os pagamentos.

Quais os próximos projectos?

Ainda é cedo para revelar os próximos projectos, uma vez que, o nosso principal foco é garantir que o Kwanza Online seja o método preferencial do comprador na hora de pagar por um serviço ou produto pela internet. Mas podem esperar coisas boas e novidades nos próximos 3 a 6 meses do corrente ano.