Alexandre Keto, uma força activa da cultura africana

Alexandre Keto é um graffiter brasileiro que nasceu em São Paulo, onde cresceu ligado à cultura urbana que agora o vê triunfar mundo fora. O artista, que se tornou conhecido pela influência africana nos seus trabalhos, esteve à conversa com a BANTUMEN,  onde nos contou um pouco de si e da sua arte.

No bairro Parque São Lucas, onde viveu a sua infância, teve o primeiro contacto com a cultura através de um projecto social, que o introduziu ao hip hop como bailarino mas rapidamente se viu atraído pelo graffiti. Apesar da vocação para o desenho, Alexandre confessou que nem sempre foi fácil praticar devido à falta de material e à escassez de recursos financeiros.

O contato com a cultura africana e afro-brasileira cedo se manifestou na vida do artista que cresceu numa família onde reinava o samba e o candomblé. Alexandre Keto acrescentou ainda: “Desde que o Brasil foi invadido, a presença europeia sempre foi menor, comparando a população indígena e africana. Com isso, facilmente sabemos quem construiu o nosso país e a nossa cultura. Sempre admirei a cultua indígena, mas a africana sempre pulsou mais e aguçou o meu interesse.”

“A arte deve ser livre! A arte é uma meio diferente de comunicação e cada artista tem de saber o que quer dizer através do seu trabalho”, são estas palavras de um homem que se revê como um artista social, que escolhe prioritariamente trabalhar com projectos sociais e que tenta através desse trabalho passar uma mensagem de valorização e celebração da cultura africana.

“É necessário entendermos e valorizarmos a importância dos africanos na construção do nosso país e cultura, criar diálogos e reflexões através de murais, construir e reforçar pontes com o continente africano. Quando pinto em países africanos é muito interessante ver a reação das pessoas, que se vêem representadas artisticamente por uma pessoa que não é africana, mas assim que explico que sou brasileiro, eles entendem a ligação e já vêem isso com uma naturalidade e sentem-se valorizados.”

Alexandre Keto já pintou murais em 16 países diferentes e foi somando histórias e aventuras que davam para escrever um livro, mas foi no Gana, em 2014, onde surgiu um convite inesperado que guarda na memória. O artista foi convidado a dar uma aula numa escola em Yendi e, sem saber, os filhos do rei da região (governante tradicional) faziam parte do corpo de estudantes. Alexandre foi chamado à presença do rei, onde lhe foi pedido para desenhar um leão, coisa que antes nunca tinha pintado. Ao terminar a peça, o rei ofereceu roupa da família real ao artista e ainda agradeceu pela lição dada aos seus filhos.

Durante o desenvolvimento das suas obras de arte urbanas, Alexandre tem a oportunidade de cruzar-se com várias pessoas que, por curiosidade ou apreço, acabam por falar das suas experiências de vida. Essa troca de conhecimento permite ao artista perceber melhor os “sentimentos, desejos, problemas e interesses” das pessoas no geral e que, consequentemente, acaba por imprimir na sua arte.

TRABALHO DE PRETO
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Tiago Firmino

Nascido e criado na Margem Sul do Rio Tejo, tenho formação profissional em Jornalismo, na ETIC, em Lisboa. Com 24 anos, tenho mil e um objectivos, mas o dia só tem 24 horas.