Se dissermos que estivemos à conversa com Igor Regalla, que aparece muitas vezes na tua televisão, sabes de quem estamos a falar? Igor é actor e talvez o reconheças da telenovela da TVI, “Única Mulher”. Tem uma paixão enorme pelo Teatro e pelo Hip Hop em português e, em conversa com a BANTUMEN, partilhou as suas experiências e planos para 2017, que envolvem Eusébio, antiga glória do Benfica.

Natural da Guiné-Bissau, Igor, de 29 anos,  é o mais novo de quatro irmãos. Mudou-se para Portugal muito cedo, onde cresceu até aos sete anos, altura em que teve de regressar a Bissau porque o seu pai tinha uma empresa para gerir. Sempre foi um aficcionado pelos jogos de computador. Jogou até aos 18 anos, participou em várias competições, e para ser profissional só lhe faltava ser pago. “Sempre achei que a minha vida seria atrás de um computador. É aqui que estou confortável, é aqui que me sinto bem e estou feliz,” disse-nos o actor salientado que conheceu Portugal, de norte a sul, com o vício de jogar Counter Strike.

“Ser actor é muito mais profundo do que aquilo que parece”

“O que é que queres fazer da vida?” foi a pergunta que uma rapariga de quem gostava na altura lhe fez e que o levou a uma reflexão sobre o seu futuro. Na altura, a repetir o 12.º ano e com 18 anos, Regalla apercebeu-se que não ia jogar videojogos a vida inteira. Apesar de ser dos melhores gamers, ficava exausto psicologicamente ao final do dia porque jogava para competir de verdade.

Desde criança, quando via as novelas com a mãe ou a série “Morangos com Açúcar”, o actor sempre pensou que conseguia fazer melhor. “A ideia do sucesso de ser actor é uma ideia apelativa”, este era o mindset que Igor Regalla tinha antes de chegar à Escola Profissional de Teatro de Cascais, em 2007. “Cheguei à Escola de Teatro e percebi à séria o quer era um actor. Ser actor é muito mais profundo do que aquilo que parece.”

Actualmente, a informação a que temos acesso é muita e o tempo para a processarmos é o tempo de passarmos para o post seguinte do feed, por isso Igor defende que a instrução que teve na escola foi essencial porque o obrigava a pensar, a parar e a discutir ideias com outras pessoas de perspectivas diferentes. “É preciso tu como pessoa pensares no porquê das coisas, senão estás aqui só a ser mais um e isso não é assim tão interessante.”

“Foi fora do comum ter um aluno negro como o melhor da turma”

Depois do curso começou a trabalhar por trás do teatro, a fazer de assistente de encenação onde juntou muitos contactos e aprendeu com grandes actores portugueses como Dalila Carmo, Manuel Cavaco, Custódia Gallego, entre outros. Nesse percurso “parecia que estava a aprender e a ser pago ao mesmo tempo,” disse o actor.

A ambição de trabalhar sempre o levou muito longe. Em 2010, ao terminar o curso de teatro acabou por ser o melhor aluno da turma e o melhor aluno da escola naquele ano. “Diga-se de passagem que, foi fora do comum ter um aluno negro como o melhor da turma, quanto mais o melhor da escola”. Hoje em dia o actor continua a quebrar barreiras que em pleno século 21 não deveriam existir, ao participar em novelas da TVI como a Única Mulher, Igor sublinha que as pessoas o abordam estupefactas: “As pessoas param-me na rua e dizem-me que ‘é um orgulho ver pessoas como tu na televisão'”.

“O brilho com que eu vejo aquelas pessoas a olhar para mim é quase como se eu fosse o futuro, mas a verdade é que parece que não há muitos. Mas é claro que é importante ter os pés no chão e enaltecer o papel fundamental da formação.”

Contudo, a sua vida profissional nunca mais foi a mesma desde que conheceu Renato Godinho, no seu primeiro ano escolar. O seu “mestre”, como lhe chama Igor, convidou-o para trabalhar com ele na companhia de Cascais, onde também era director.  “O Renato Godinho foi mesmo o meu mestre durante este processo todo. Hoje em dia, ainda consulto-o bastante a nível profissional. É importante para mim ter o ponto de vista dele. O Renato é das pessoas que eu mais respeito em todas os aspectos. Sempre fez acontecer, nunca ficou a chorar por nada. E sempre o segui muito como exemplo e a verdade é que tem dado bastantes frutos.”

“A maior parte das pessoas vive uma vida que não é aquela que queria”

Sempre com o hip hop português como banda sonora, ao longo de sete anos de carreira e, mesmo com o apoio dos pais, Igor sempre teve a mentalidade de se safar sozinho. No balanço das contas, a sua percentagem de sucesso dos castings tem sido bastante positiva, contando com diversas nomeações para prémios e o bom feedback das pessoas à sua volta. “Ser actor em Portugal é difícil e eu não vou aconselhar os meus filhos a seguir este meio,” disse. Justifica que a incerteza” de ter trabalho é uma dor horrível na vida de qualquer actor. Mas quando o amor pela arte é em demasia não existe apenas uma função para desempenhar, tenta-se contribuir da melhor forma com o que sabemos. Para Igor o ser actor e realizador são um só. “Quando eu acredito na Arte é neste sentido: A Arte tem um poder incrível de chegar às pessoas.”

O primeiro videoclipe que realizou foi de um spoken word que o Valete, rapper português, lançou no Facebook. Nunca estudou para ser realizador mas quando ouviu a música, Igor sentiu que tinha de dar vida ao que o artista estava a tentar transmitir às pessoas, porque se identificava com a mensagem e por uma homenagem ao teatro. Para esse trabalho, e juntamente com um amigo, Igor foi realizador, foi produtor e mexeu todos os cordelinhos para que o resultado final desse certo. Chegou a oferecer o seu quarto para a famosa cena de masturbação do padre. “A maior parte das pessoas vive uma vida que não é aquela que queria. Toda a gente anda aqui com uma máscara e a fazer o que socialmente pode ser aceite,” disse o actor.

Se nunca viste, vê em baixo o videoclipe de “Baile de Máscaras”, de Valete.

O feedback de Valete e de todo o público que viu o resultado final foi o melhor possível e, para Igor Regalla, a primeira experiência foi inesquecível, tanto que actualmente esteve a trabalhar com Valete num videoclipe novo.

Um ano depois, no Cascais Shopping, cruzou-se com Prodígio e NGA, metade do grupo Força Suprema e a partir desse momento a sua vida mudou. Para o actor, o rapper NGA fez com que Igor pudesse passar a considerar-se realizador. “O NGA fez com que eu pudesse passar a dizer às pessoas que eu era realizador. O NGA deu-me meios para eu poder fazer um videoclipe à séria. Para mim, será para sempre o artista que mais vou respeitar,” explicou.

Igor Regalla realizou o videoclipe oficial da música “Difícil”, do álbum Atitudecom total liberdade criativa do músico para com o realizador. Este foi o primeiro trabalho profissional como realizador e logo com uma responsabilidade enorme. Primeiro por ser o grupo Força Suprema, o grupo mais badalado do hip hop em português e depois pela admiração que Igor tem pelos quatros membros, em especial pelo NGA.

A música é uma injecção para tudo o que eu faço e acompanha-me para todo lado. Para mim o “Difícil” diz-me muito pela mensagem que tem e o NGA para mim diz-me muito como rapper. É um dos melhores rappers em Portugal”, disse o actor acrescentado que além do rapper luso-angolano, Sam The Kid introduziu-o ao hip hop e que foi a mensagem de Valete que o conquistou.

O resultado do videoclipe não poderia ter sido o melhor, com NGA super satisfeito e, a Platinaline, uma plataforma angolana de comunicação, nomeando o vídeo como um dos melhores do ano de 2015.

Actualmente, está a cumprir o sonho de um vida ao representar Eusébio, o “pantera negra”, antiga glória do Benfica, num filme biográfico intitulado de Ruth. Igor considera uma honra poder vestir a pele de uma personalidade que quebrou imensas barreiras só a jogar à bola.

“Esta é a melhor oportunidade que já tive na minha vida. Porque Eusébio foi uma pessoa que rasgou com isto tudo só com o simples amor de jogar à bola. Quebrou barreiras e mudou mentalidades. Eusébio só houve um, ” disse Igor que acrescentou ainda “por o protagonista ser um negro, estas oportunidades são raras”, mas acredita que o panorama está tudo a mudar.

Em paralelo, por amor à camisola e muita dedicação, continua a realizar sempre que tem oportunidade. Este novo vídeo conta com o nome da Afro Digital mas Igor entrou no processo a meio e colocou uma mãozinha sua. “Como realizador estou a viver o meu sonho agora até por estar a trabalhar com Valete,” sublinhou o actor.

O actor e realizador diz sentir-se completo e num estado de plena felicidade numa altura da vida em que interpreta duas personalidades que mexeram com a história de Portugal. Um foi um representante do povo português enquanto jogou futebol e que agora descansa no Panteão Nacional, em Lisboa e outro é um rapper que fez chegar a sua mensagem a todos os ouvintes da lusofonia nos últimos 15 anos.

Estas parecem não ser tarefas muito fáceis de executar, mas Igor encontra motivação no seu plano de reforma: “Um dia vou voltar à Guiné-Bissau e gerir um canal de televisão. Até lá, passo a passo que ainda há muito a fazer por estes lados”.

Fica com a entrevista em vídeo do actor e realizador abaixo.