Por: Gregório Sebastião

 

Das ruínas de uma antiga fábrica de sabão ergueu-se um centro de inovação, num dos bairros mais populosos de Luanda, o Cazenga. O que antes era um edifício abandonado utilizado como uma lixeira a céu aberto é hoje uma incubadora de novos negócios e soluções para enfrentar um sem número de barreiras sociais e económicas da comunidade. A BANTUMEN teve a oportunidade de conversar com Sorge Tyikoti, o porta-voz deste projecto idealizado por Jean-Claude Morais de Bastos e que prospera fruto de uma parceria publico-privada (o Ministério da Indústria cedeu à Kijinga, a empresa local de investimento de impacto social, de propriedade do Fundo Soberano de Angola, a concessão das estruturas da antiga fábrica de sabão e esta, por sua vez, arrendou à Kabassa, uma empresa privada, para desenvolver o centro de inovação de Angola), auto-financiamento e engajamento popular.

Quando e como é que surgiu este projecto de transformar o edifício da antiga Fábrica de Sabão num centro de inovação?

Este projecto surgiu há cerca de quatro anos quando o Jean-Claude Morais de Bastos apercebeuu-se que existia aqui este sítio e teve a brilhante ideia de transformar isto num centro de inovação para ver se podia ajudar a comunidade, que vive com problemas de pobreza e desigualdade social, com o objectivo de mudar esse cenário. Era a necessidade que a comunidade tinha de desenvolver uma estrutura que ajudasse no desenvolvimento social e económico da própria comunidade.

O que é se faz exactamente num centro de inovação?

Um centro de inovação é um sítio onde nós podemos entrar em contacto com as ideias mais absurdas às mais inteligentes e intrigantes. É um sítio onde se inova e se dá forma a sonhos. É acima de tudo um sítio onde se encontram formas diferentes de resolver problemas que por vezes afectam uma grande camada social. É um sítio para inovar.

Como é que a comunidade vê este projecto?

A comunidade vê esse projecto como parte da própria comunidade. É como se fosse uma bandeira das pessoas, algo que gostam de mostrar. Estás a ver quando tens uma camisa muito bonita e  queres vestir essa camisa a toda a hora? É como a comunidade vê este centro. É um local onde podem enviar os alunos, filhos, colegas, primos… É um centro que serve para defender a comunidade e os interesses comunitários, é assim que a comunidade nos vê.

Porquê num dos bairros humildes da capital e não no centro da cidade?

A ideia de ser num dos bairros mais humildes é porque nós precisávamos de um local com problemas para ajudar a resolvê-los. A ideia é fazer uma transformação social onde pegamos nos problemas e os transformamos em soluções. Escolhemos o sítio com a maior densidade populacional, que é o Cazenga, e um sítio com os problemas sociais que o Cazenga tem para ser um espelho. É um teste, porque se tivermos sucesso no Cazenga, será bem mais fácil conseguirmos reproduzir o projecto noutro sítio. Por isso escolhemos um município humilde como o do Cazenga.

Fábrica de Sabão
Jean-Claude Morais de Bastos e alguns dos aprendizes das várias oficinas do espaço | @Fábrica de Sabão

É um projecto auto-financiado ou depende de parcerias e patrocínios?

Este é um projecto misto. É um projecto que tem auto-financiamento, tem patrocínios e parcerias. É de auto-financiamento porque, por exemplo, se eu for um professor de inglês e se quero vir para aqui aprender informática, venho, ensino o inglês e em troca recebo as aulas de informática. E a população assim pode dar o seu contributo e ter acesso ao que quer. Estamos abertos a parcerias desde que façam sentido. Temos uma com a empresa que gere a própria fábrica e temos o seu patrocínio para algumas coisa que sejam necessárias. Mas para qualquer coisa que fuja esses trâmites, como por exemplo, nós precisávamos de computadores e um monte de materiais então vamos procurar alguém que queira patrocinar. Quando há necessidade, nós vamos atrás de parcerias e patrocínios, mas o que pretendemos é um ambiente auto-financiado e que dê oportunidade a cada um de ensinar e aprender.

Quantas pessoas fazem parte da equipa da Fábrica de Sabão?

Os colaboradores são entre 40 a 50 pessoas.

Quais são as actividades e eventos organizados pela Fábrica durante a semana?

As actividade que temos são cursos, palestras, feiras, conferências, desporto, teatro infantil e para adultos, é um leque de coisas que vão acontecendo. Por mês temos um programa de actividades e que varia.

Têm noção de quantas pessoas recebem semanalmente nas várias actividades?

As pessoas que recebem semanalmente estas actividades são acima de 200.

A Fábrica de Sabão é exclusiva para a comunidade do Cazenga?

Não. A fábrica está aberta a qualquer pessoa e todos os que venham são bem-vindos.

Quais são as diferenças entre a comunidade antes e depois do centro de inovação?

 As diferenças são várias. Isto era uma lixeira, as pessoas estavam sempre com problemas de cólera, paludismo, picadas de cobra… Para remodelar a fábrica foi necessário removermos toda aquela lixeira. Havia um lago de água suja onde as crianças brincavam e até já tinham morrido duas pessoas e agora já não há esse perigo. Portanto, tem essa parte estética e de qualidade de vida dos moradores, mas também tem a parte moral e social que não se vê. Há pessoas que não tinham qualquer perspectiva nenhuma de vida e que vês aqui e que estão a ter novas oportunidades. Há pessoas que nunca pensaram ter contacto com um computador e hoje estão aqui a programar e a fazer aplicativos para telefone e computador. Há pessoas que queriam ter o seu próprio negócio e diziam não conseguir e agora estão elas mesmo a modelar os seus próprios negócios e empresas. Há um conjuntos de transformações sociais e estas são só a ponta do iceberg. Há ainda as palestras, o peso da educação social, o peso de ter o acompanhamento de alguém caso tenhas algum problema, é o teu próprio pai que vê o filho com mais ânimo em casa, que têm um novo assunto para conversar. Nós temos famílias em que o pai começou aqui a trabalhar, depois veio um filho fazer um curso, depois veio o outro e a mãe também veio para cá trabalhar. É um conjunto de transformações que só conseguimos falar disso superficialmente, porque iríamos perder muito tempo a enumera-las… Até o lixo que ficava aí na estrada desapareceu…

A criatividade pode ser uma arma para enfrentar uma crise económica/financeira como a que Angola atravessa actualmente?

Eu acho até que é a melhor arma para o nosso caso. Estamos a diversificar essencialmente em agricultura, mas imagina quantos sacos de fuba precisas para fazer o preço de um computador, servidor ou telefones… Enquanto não tivermos aqui pessoas capazes de criar computadores, telefones ou servidores vamos ter de continuar a mandar vir de fora. Imagina se tivéssemos o poder de criar essas coisas. Seria uma arma para combater a nossa crise económica. Eu acho que no nosso caso, essencialmente, a inovação e criatividade iam resolver o nosso problema num curto espaço de tempo. Então definitivamente, a criatividade é sim uma arma para enfrentar uma crise económica.

Quais são os vossos projectos e objectivos num médio prazo?

Os objectivos num médio prazo é tornar a fábrica cada vez mais capaz e dar ensinamento de mais qualidade e acima de tudo começar a povoar a fábrica com mais startups daqui do Cazenga, que possam ter um impacto para Angola inteira. Imagina alguém que não conseguiu completar a faculdade ou o ensino médio e que consiga inventar algo que teria impacto na nossa economia? Seria muito, muito bom. O objectivo a curto e médio prazo são esses melhorar a capacidade de ensino, potencializar e ajudar mais a comunidade do Cazenga.

Algum evento a acontecer brevemente?

Nós temos já no dia 17 uma palestra sob o tema “Formas de Financiamento” e uma feira infantil, no dia 16 uma sobre os 4 R’s do ambiente (Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Recuperar), no dia 21 uma conferência sob o tema “Inovation open day”, dia 22 outra conferência sob o mesmo tema e no dia 24 um almoço sobre banda desenhada onde vai haver também uma palestra sobre o assunto.

 

Este é um artigo patrocinado pela Djembe Communications