Estamos numa altura em que é cada vez mais raro encontrar rappers a fazerem música de intervenção social, assim como também é cada vez mais difícil encontrar quem consome faixas ligadas à intervenção.

Estamos a pouco dias do Angola Hip Hop Awards e entre os nomeados estão os FatSoldiers, um colectivo de jovens que faz, e muito bem feito, rap de intervenção, e não é daquele que retratas experiências imaginadas como já estamos habituados a ouvir por aí.

Soldier V, Timomy e M.P, formam o grupo que começou o seu percurso em 2010, com o lançamento da primeira mixtape “Mentes da Rua”. “Fat Soldiers” tem denunciado as condições de vida dos pobres e dos oprimidos de Angola através de letras subversivas e ácidas. Estamos a falar de jovens angolanos que vivem em Angola e que cantam a realidade nua e crua que o país vive.

Para quem conhece o rap angolano, sabe que existe rap de intervenção e sabe que contam-se pelos dedos das mão todos os nomes por de trás dele.

Estes jovens têm três nomeações para a segunda edição do Angola Hip Hop Awards: Melhor mixtape, Melhor Estrofe e Melhor Videoclipe. A BANTUMEN foi saber o que o grupo pensa sobre esta nomeação e o estado do rap “com tomates” – relembrando a frase usada por Valete para classificar a intervenção social no rap.

Questionados sobre o que representa esta nomeação para eles, a resposta foi curta e directa. O reconhecimento expresso de que, apesar de difícil e arriscado, estamos no caminho certo e que as ameaças e a separação nos benefícios sociais são acidentes de percurso já previstos e que não põem em causa a nossa convicção de chegar até à vitória.” Têm a certeza que o rap de intervenção social nunca deixou de ser ouvido e que esta nomeação e que o papel intervertivo é necessário no rap para alteração do estado das coisas, do statu quo.

Recentemente, estudantes  da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual do Mato Grosso, ambas no Brasil, consultaram o trio pela qualidade literária, profundidade na abordagem e o comprometimento com causas sociais com base na última mixtape lançada pelo colectivo, com o objectivo de estudarem as ideias e a filosofia bem como o conteúdo literário que serviu de material para tese de mestrado na USP. Este de tipo de incentivo é tido pelo grupo como maior do que qualquer número alcançado pela mixtape, que pode ouvir abaixo no embed do Spotify. 

“O que fazem é defenderem-se por via da música, lutando por uma sociedade mais justa. O objectivo não é ganhar prémios, mas é gratificante sentir este reconhecimento num concurso desta natureza, motiva a quer crescer mais”.

O grupo quer ter o papel de ripostar contra factos sociais que de alguma maneira denotam injustiça, subversão dos princípios que orientam a conduta humana lutando contra a precariedade a que a sociedade em geral está submetida nos subúrbios de Angola, por que entenderem que “se a vida é uma só, devemos vivê-la com dignidade para buscarmos a realização dos sonhos todos em igualdade de circunstâncias”.