As limitações arcaicas do pequeno agricultor em África

Artigo originalmente publicado em Djembe Communications

 

Existe uma piada nigeriana que diz o seguinte: “Um velho agricultor Igboe escreveu uma carta para o seu filho na prisão.”Emeka”, disse ele, “este ano não terei capacidade para plantar inhame e mandioca porque já não consigo escavar a terra, sei que se estivesses aqui irias ajudar-me.” O homem jovem respondeu: “Pai, nem pense em escavar a terra pois foi aí que enterrei o dinheiro que roubei.” Após ler a carta, a policia foi à dita terra procurar o dinheiro escondido, sem sucesso. No dia seguinte o filho escreveu novamente para o seu pai. “Pai, agora já pode plantar o inhame e a mandioca. Isto é o melhor que eu posso fazer a partir daqui.” O seu pai respondeu. “ Uau filho! Deves ser um homem poderoso. Ontem um grupo de policiais, munidos de enxadas e pás, vieram cá escavar a terra. Irei escrever-te quando chegar a fase da colheita…”

Fora o facto desta ser uma história engraçada, esta revela muito dos problemas associados à mecanização arcaica que vários agricultores continuam a enfrentar em África. Contudo, este problema não está apenas limitado às ferramentas agrícolas. A falta de condições de armazenamento adequado, a inconstante demanda sazonal de mercado e as dificuldades de entrega do produto ao mercado fazem com que cerca de um terço do que é produzido seja perdido antes sequer de chegar ao mercado.

Os especuladores de longo termo, que vêem o negócio agricola em África como uma nova fronteira, conhecem esta realidade. No entanto, o seu entusiasmo não se estende para além da simples compra de terra já em uso pelos chamados pequenos agricultores. Estes, pela falta de registo efectivo da terra estão completamente inconscientes de que estão a cultivar a terra de outrém até serem expulsos da mesma.

Esta situação provoca uma movimentação de pessoas no país à procura de terra. Os agricultores tendem a ficar fechados no seu próprio meio de vida, pois têm um fraco acesso à educação e outras envolventes económicas. Nesta senda, os esforços dos investidores em comprarem terras cada vez mais a custo baixo, não só ignora a realidade das bases como também poderá contribuir para desestabilizar um sector com cada vez mais potencial do que o que se imagina.

Mas não serão estas palavras fantasiosas?

Posto isto, melhorar o sistema de agricultura em África constitui um potencial que poderá afectar o desenvolvimento como um todo. Não existe apenas a necessidade de se alimentar 1,3 bilioões de pessoas que se espera que nasçam até ao ano de 2050, mas de educar e activá-las em termos económicos. Concedendo aos pequenos proprietários a oportunidade de participar activamente na explosão agrícola em África poderá smplificar muitos destes problemas, um argumento defendido por um especialista africano na matéria, Dr. Agnes Kalibata, que escreveu no ano passado, “Se capacitarmos os pequenos agricultores para atingirem as suas aspirações, eles irão fazer o trabalho árduo do desenvolvimento por eles próprios.” Mas não serão estas palavras fantasiosas? Como temos a certeza que os pequenos proprietários estão activados?

Uma das formas de se fazer isto é através dos chamados “Agrihubs” existentes em todo o continente. Estes tendem a ser centros que conectam uma área que engloba entre algumas centena a dezenas de milhares de hectares. Eles oferecem aos agricultores locais uma espécie de “ponto central” onde têm acesso aos serviços e infraestrutura necessárias. É um modo inteligente de ignorar o tempo exigido pelo governo para expandir as infraestruturas centrais para as áreas rurais mais remotas.

O interessante é que estes centros podem ser instalados praticamente por qualquer um, quer seja do governo, Fundação ou um investidor. A terra em redor desta estrutura é arrendada aos agricultores, que comercializam uma parte da sua produção para a tecnologia e assistência que estes centros providenciam.

De facto, inovações recentes provaram que os agrihubs não precisam sequer de se limitar à esfera terrestre. Os centros virtuais como agritools.org, um website criado por jornalistas de todo o mundo, visa criar uma plataforma online onde estejam disponiveis soluções inovadoras, de fácil acesso a todos via internet, para os problemas agrícolas.

O poder inicial do tamanho e complexidade dos problemas faz com que o seu desenvolvimento nos faça parar antes sequer de começarmos a resolver. No entanto, a história provou que, no geral, são as soluções mais simples que nos conduzem a rendimentos maiores. Não podemos assegurar com certeza onde os agrihubs se apresentam como solução, mas sabemos uma coisa: a sua simplicidade e potencial significa que todos nós podemos ser envolvidos.

 

Por Thomas McEnchroe, Djembe Communications
 Este é um artigo patrocinado pela Djembe Communications
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