Jean Gutner apresenta livro com provas em primeira pessoa da Guerra Civil em Angola

Jean Charles Gutner é um fotógrafo de guerra que esteve em Angola durante os conflitos entre o MPLA e a UNITA. Agora reformado e com as eleições à porta, Gutner prepara-se para lançar um livro intitulado Era Angola, com imagens inéditas recolhidas no campo de batalha da guerra civil.

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Chegou a Angola, em 1993, e durante três anos andou a recolher, em primeira mão, imagens exclusivas de uma guerra que matou cerca de 800 mil pessoas. Em representação da France Press e da Associated Press, Gutner foi presenciando e capturando momentos que acabaram por deixar sequelas em si próprio, sem se aperceber.

“Após a cobertura do confronto angolano não consegui mais tirar fotos. Ficava horas a olhar lá fora, sem mexer. A alma e a vontade já não estavam presentes, estavam secas”, disse o repórter em entrevista ao SAPO.

O fim da guerra coincidiu com o terminar da sua carreira mas a estadia em Angola durou até 2007. Depois de regressar à Europa, a ideia de laçar um livro com o trabalho recolhido durante a guerra estava no seu pensamento mas sempre em stand-by. Em 2017, com o anúncio de José Eduardo dos Santos e as eleições em Angola, decidiu que era altura de mostrar as mentes mais novas provas do sacrifício feito pelo país para garantir a paz. De forma a garantir o financiamento para o livro organizou um crownfunding online.

“Achei importante dar a conhecer a uma nova geração a realidade dos anos de guerra que passei em Angola, para que lhes seja possível perceber que a maior melhoria que os angolanos conquistaram foi a paz. Eu sei que a maioria dos angolanos vive em condições extremamente duras, principalmente nas cidades. Conheço as realidades dos pais, a realidade dos musseques, da sociedade fina, dos camponeses: partilhei essa vida durante 14 anos. Mas, seja como for, a paz tem de ser apreciada, e creio que este livro pode fazer pensar sobre o valor real da paz. A preservação da paz e o desenvolvimento de Angola devem ser preocupações comuns e um objectivo claro para os angolanos.”

Apesar do acesso às zonas de guerra ser extremamente restrito, dependendo de aprovações do MPLA e da UNITA, e os jornalistas não serem bem-vindos, Gutner andou de câmara ao peito por todas as províncias que estavam envolvidas no conflito como o Bengo, Zaire, Uíge, Lunda Norte, Lunda Sul, Kwanza Sul, Benguela, Huambo, Moxico, Huila, Namibe, Cuando-Cubango.

“Era evidente que ambas as partes não queriam facilitar o acesso às zonas de combate. Para nos deslocarmos até aí era preciso, do lado do governo angolano, acreditação por parte da segurança militar e, mesmo depois disso, era preciso passar pelo Estado-maior da frente de combate das regiões para obter autorização. Do lado da UNITA, não aceitavam jornalistas correspondentes baseados em Luanda, pelo que era muito complicado obter uma credencial para ir fotografar com eles”, adiantou Jean Charles Gutner à publicação online.

Um homem cheio de histórias e fotografias para comprovar contou ainda como era normal ver cadáveres no chão ou como as crianças brincavam sem se assustarem com os tiros que se ouviam dos pontos limítrofes das suas cidades.

“O primeiro evento que me marcou foi em Caimbambo, na província de Benguela, depois da minha chegada. Estava a andar na rua quando, de repente, ouviram-se tiros de AK e de outras armas pesadas. Eu assustei-me, mas perto de mim estava uma criança, com cerca de cinco anos, que brincava e não reagia quando as armas disparavam. Ela não se assustava, já estava habituado ao barulho das armas e sabia que os disparos eram nos limites da cidade, um pouco distante de nós.”

Vê em cima a galeria com algumas das fotos que Jean Charles Gutner tirou durante a sua passagem por Angola.

 

TRABALHO DE PRETO
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