Encontro de Cinema Negro no Brasil com recorde de inscrição de filmes

O eletrizante Hear Me Move (Ouve os Meus Movimentos, em tradução livre), primeiro filme sul-africano de dança, do diretor Scottnes Smith, abriu dia 30, às 19h, a 10ª edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe, no Rio de Janeiro.

O longa-metragem, de 2015, conta a história do filho de um famoso dançarino de rua que tenta descobrir as razões por trás da morte do pai. O filme rodou importantes festivais, como os de Toronto, no Canadá, e Cannes, em França, com uma banda sonora inebriante e é a aposta da primeira noite do festival.

O Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul vai até 9 de Setembro, trazendo na sua programação, que este ano homenageia o fundador do festival – Zózimo Bulbul, morto em 2013 – mais de 80 produções vindas do Senegal, Mali, Nigéria, Gana, Cuba, entre outros países. Haverá produções consagradas e trabalhos de jovens revelações.

“Na última edição, tivemos 32 filmes brasileiros seleccionados, de um total de 55 inscrições, este ano, tivemos 66, num universo de 98. É um salto de 100%”, diz o curador e director premiado, Joel Zito Araújo, salientando o caráter afirmativo do festival. Ele atribui o aumento de realizadores negros no Brasil a políticas de cotas raciais nas universidades e ao crescimento do movimento hip hop nas periferias “que aceleraram o processo”.

Outro destaque internacional da mostra vem da Inglaterra. O documentário Generation Revolution (Geração Revolução, em tradução livre, 2016) é sobre jovens activistas negros e latinos que vivem em Londres e se posicionam contra políticas de austeridade, pobreza e violência policial. O filme chama a atenção para a capacidade de organização dos jovens, além do compromisso deles com a igualdade de género.

Referência no Brasil e no mundo, o Encontro de Cinema Negro pretende fortalecer a identidade negra de maneira não estereotipada, favorecer a troca de experiências, negócios e o diálogo com festivais pelo mundo. Para isso, estarão presentes os curadores do Festival de Ecrans Noir, de Camarões, e o secretário-geral da Federação de Cineastas Pan-africanos, Cheick Oumar Sissoko, um dos mais premiados e reconhecidos cineastas do Mali. O evento é também uma janela de exibição para produções de destaque que não chegam facilmente ao público.

Uma novidade desta edição é a mostra de filmes infantis. As salas do Cinema Odeon, centro, vão exibir o consagrado desenho animado Nana e Nilo e o Tempo de Brincar, de Sandro Lopes, além de Òrun ÀiyÉ. Este último, de Jamile Coelho e Cíntia Maria, dublado por Carlinhos Brown, apresenta o mito de criação do universo narrado pelos orixás. Ainda na programação para crianças, El Reflexo, de Everlane Moraes, que estudou na Escuela Internacional de Cinema y TV, de Cuba, é um dos filmes em espanhol.

Estreias

Entre os destaques brasileiros estão as estreias do primeiro episódio da série Fé Menina, do Coletivo Mulheres de Pedra, e o aguardado documentário Tia Ciata, de Mariana Campos e Raquel Beatriz. O filme sobre Tia Ciata traz uma perspectiva feminina sobre a baiana baptizada Hilária Batista de Almeida, uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba, no Rio, no século 19. Haverá uma sessão especial do longa na quarta-feira (6), às 14h, no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), no Maracanã.

Para destacar o protagonismo das mulheres negras no audiovisual, será exibido ainda o curta Rainha (2016), de Sabrina Fidalgo, vencedor do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro – Curta Cinema, em Novembro passado. Em preto e branco, o filme narra a jornada de uma jovem para se tornar rainha de bateria na sua comunidade. A realizadora estudou na Escola de TV e Cinema de Munique, na Alemanha, e dirige a sua própria produtora.

“O filme selecionado, Rainha, é meu sexto curta e é o quarto filme selecionado para o Encontro”, disse. Ela frisa o papel do festival como uma importante janela de exibição. “Moramos num país onde mais da metade da população brasileira é negra, mas ela não é vista no audiovisual. As produções ignoram a nossa presença seja atrás ou na frente das câmeras”, criticou.

Paralelamente, na mostra educativa, serão exibidos filmes de sucesso, como os documentários Raça (2013) de Joel Zito Araújo, curador do Encontro de Cinema Negro, e Abolição (1988), de Zózimo Bulbul, o homenageado, sobre os 100 anos da Lei Áurea.

Podes consultar a programação completa aqui.

TRABALHO DE PRETO
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