João Neno aka Veneno é o fundador da V2N Music, uma label que nasceu depois de muitos obstáculos, mas como o mesmo diz “o nascimento seria quase impossível porque este sonho só se tornava verdade quando eu sonhava”.

Um sonho tornado realidade onde teve que fazer sacrifícios como a emigração. Decidiu arriscar quando tinha uma vida estável em Portugal, mas sonhos só são vividos com intensidade quando acreditas que o podes fazer e nada é impossível.

“Eu quero um dia poder existir neste mundo e nos outros. Normalmente recebemos desafios a altura das nossas ambições. E o céu para mim não é o limite, é o começo! #LeMondeOuRien,” disse Veneno.

1 – Há muitas diferenças no rap feito em português e francês?

– Quando sai de Portugal, sai com uma mentalidade e linha musical diferente, de intervenção. Em França, por mais que não se compreenda o que eles dizem, vês que aquilo tem sonoridade, tem alma, mesmo que não entendas a mensagem. Encontrei dois ou três sub-estilos dentro da música de intervenção, com uma linha mais festiva que já existia na altura em Portugal, mas em França era algo mais explorado. Tendo em conta que é um país com rappers oriundos de muitos países e inclusive África, e cada um deles traz a sua sonoridade e influências e adapta.

Abri muito a minha mente, e toda a minha visão musical. Habituei-me a fazer música de uma certa forma porque via os outros a fazerem, fazia um som de 32 barras com o mesmo flow do início ao fim. Mas em França eu via gajos a mudarem o flow de 6 em 6 barras e soava bem, resultava, escreviam o que viviam e sentias a lírica, enquanto que aqui um gajo escreve do que vê e imagina.

Quando regressei a Portugal pensei que fosse encontrar o mesmo movimento que deixei, mas não as coisas estavam mudadas e evoluídas como o trap. No início acabou por ser um estilo muito criticado e depois viram que afinal podia fazer uma coisa diferente.

Existem vários rappers que o fazem, não só por ser moda, mas por passar a mensagem de uma forma diferente, é a minha opinião.

Em termos musicais estou mais capaz que antes, como na criação, com uma visão e técnicas diferentes, já arrisco mais nas melodias e experimentação das músicas.

2 – Trouxeste bagagem musical de França, e há algo que possas aproveitar nessa área aqui em Portugal?

– De França, eu trouxe método de trabalho que não tinha, desde escrita da letra à masterização e vídeo. A noção que tenho de trabalho de equipa hoje comparando com antes, é totalmente diferente, sou mais aberto, sinto-me muito mais à vontade, canto refrões em francês, trabalho em melodias, instrumentais e flow mais diversificados. Mas acima de tudo, trago uma sonoridade diferente. Em cada projecto, tento não trazer o que já trouxe antes.

Em Portugal, encontrei um movimento e concorrência maiores, apesar de achar que a concorrência é saudável. Hoje em dia para seres um MC não precisas de ter muito skill, basta teres uma visão diferente e saber lucrar com isso, lá fora vê-se muito disso e é algo normal.

Antes tinhas dois grandes rappers e o resto não valia a pena, hoje é completamente o contrário tens muitos mais e bons rappers.

3 – O hip hop antes era feito para que se consumisse, sem pensar na rentabilização. Agora é uma máquina de fazer dinheiro, no teu processo de criação pensas em ganhar dinheiro ou apenas em passar a mensagem?

– Eu penso na comercialização da minha música, enquanto a crio penso de imediato como é que a vou interpretar em palco, qual a atitude a ter, levar o público ao rubro e depois deixá-los com uma boa vibe mais calma.

Portanto no que toca a rentabilidade, são as plataformas digitais, porque quando meto uma mulher jeitosa num vídeo é já a pensar em rentabilizar, atrai as pessoas principalmente os homens. Tendo em conta que o rende é o videoclipe, não tanto pela mensagem mas pela imagem, e os números normalmente não mentem.

Ao criar uma música estás a investir o teu tempo, o teu dinheiro, deixas a mulher e filhos em casa para correr atrás do teu sonho mesmo que não dê em nada, mas investes porque acreditas e tal merece reconhecimento, e as pessoas pagarem por isso é um agradecimento ao teu trabalho.

4 – Em relação ao pessoal que começou a trabalhar contigo, desde a geração do Tekilla, Bob The Rage Sense e Sam The Kid, os que fazem parte dos pioneiros do hip hop tuga, influenciam-te?

Eu era da margem sul, foi no início dos “The Gun”, com o Shakal, Malabá, entre outros, sou dessa altura por volta de 2005, influenciam-me. Serão eternos professores para mim, o rap é o que é hoje porque eles contribuíram com a sua parte, se não tivesse existido um Boss Ac, Valete, Mind The Gap, Dealema e Sam The Kid, não existia a música que temos hoje.

Eles trouxeram os sacos de areia e água, e o pessoal de hoje começou a fazer o cimento e a construir os murros.

Se os da velha guarda lançarem algum trabalho agora, não terão a mesma rentabilidade que tinham antes, o movimento é outro e está maior. Mesmo que inovem a sua música, serão fiéis ao trabalho de início e, têm os seus seguidores fiéis, logo a rentabilidade não os preocupa quando já o fizeram antes, têm o seu lugar na indústria definido. Se perguntarem na rua por eles, a maior parte das pessoas sabem quem são.

5 – Em França, quem são as tuas influências?

Em primeiro lugar o Niro, o Lacrim por causa da sua história de vida, no que toca à exploração musical é o MHD, a forma como faz o AfroTrap que só conheci quando lá estive, PNL, Booba, por vezes Soprano dependendo do meu estado de espírito e Karris inclusive o seu novo single “Tchoin”.

Enquanto que em Portugal, oiço Wet Bed Gang, Holly Hood, Phoenix RDC e as minhas musicas antigas, gosto de refletir sobre elas, sobre as minhas cenas.

6 – Nos dias de hoje, há a necessidade de fazer rap de intervenção? Qual a tua opinião no que toca a última música do Valete em que ele critica a música de hoje, uma vez que existem redes sociais onde se chega a todos de forma mais rápida e fácil?

O Valete sempre foi um homem que admirei muito e continuo a admirar por tudo o que conseguiu construir.
Mas não achei a última música, musicalmente correta. Ele passou muitos anos a lutar para que o movimento se elevasse, e isso aconteceu, e a partir desse momento com essa música ele atirou pedras a quem fez parte desse movimento e o ajudou.

Ao impingires algo que o hip hop ja não é a nova geração, não faz sentido, os putos incluindo eu vamos fazendo aquilo que vamos vendo no dia-a-dia. O estilo em si, já é mais aberto e consegue-se viver dele, não podemos julgar quem o faz só porque antigamente não se conseguia viver disso.

7 – Tens algo preparado, ou em mente ainda para este ano?

Para fechar 2017, quero acabar a Corda Bamba que é uma saga de 6 a 7 episódios criados por mim, onde faço o balanço entre a minha ida para França e a volta para Portugal.

Lancei o primeiro episódio no dia 30 de junho e no dia 28 de agosto foi lançado o segundo episódio, até ao final do ano quero acabar a saga com um episódio em França, não tenho data certa para lançar todos os episódios porque não depende só de mim, mas provavelmente um por mês. Depois disso é começar a trabalhar no meu EP a solo.

8 – Pretendes trabalhar na indústria musical, como agenciares e trabalhares com a nova geração ou apenas focares-te na tua música?

Em Abril deste ano, criei e montei a minha label, decidi fazer as cenas da minha maneira e tem corrido bem. Mas primeiro quero voltar a ter a credibilidade que tinha antes de ter ido embora, neste momento não a tenho e deixei de fazer falta aqui, preciso elevar a fasquia.

Tenho o meu estúdio, o departamento de comunicação e multimédia, estou a aprender a misturar e masterizar para depois dominar nessa área e deixar de depender dos outros e com isso conseguir agenciar alguns artistas.