Inspirado nos ritmos de Angola, São-Tomé ou Cabo-Verde que se fundem nos subúrbios de Lisboa, o DJ português Firmeza atuou este fim-de-semana, numa discoteca da zona antiga de Pequim, China.

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Cilio Manuel Pegado, de 23 anos, tocou na capital chinesa antes de partir para Seul, na Coreia do Sul, e voltar depois à China, para tocar em Shenzhen, no sul do país. A tournée faz parte do programa financiado pela União Europeia EUphoria, que traz artistas de diferentes países europeus para atuar em discotecas e eventos nas principais cidades chinesas.

Firmeza toca sobretudo Techno e House, mas a influência africana das suas origens não passa despercebida. Sentado num dos raros “hutongs” – os típicos becos da capital -, que não foi arrasado para dar lugar a construções em altura, Firmeza lembra à agência Lusa como cresceu rodeado pela música na Quinta do Mocho, bairro social de Sacavém, Portugal.

“Ali, a música toca-se na rua, ao ar livre”, conta. “Uns cantam, outros dançam, outros gostam de ouvir, tocar ou produzir. Todos têm contacto com a música”, descreve.

Firmeza, que além de DJ é também produtor, começou a atuar ainda em adolescente no Alcântra-Mar, estabelecimento outrora considerado a catedral portuguesa da música de dança.

“Ainda era menor de idade e o dono da casa dizia-me: se a ASAE [Autoridade de Segurança Alimentar e Económica] aparecer tens que te esconder”, lembra, a rir.

DJ Firmeza hoje vive da música e “para a música” e já atuou em festivais nos Estados Unidos da América, Espanha, Itália, Roménia, Sérvia, Suíça e Suécia.

“Para ter reconhecimento em Portugal, é preciso ser primeiro reconhecido lá fora”, nota.

Numa noite em que Pequim registava dez graus negativos, o português aqueceu durante duas horas uma audiência de cerca de cinquenta pessoas no Dada, um dos mais emblemáticos clubes underground da capital chinesa.

“É interessante como a sua música integra influências africanas”, comentou uma jovem chinesa sobre o set de Firmeza.

A chamada “vida noturna” é uma indústria nova na China, mas que tem vivido um boom nos últimos anos, com nightclubs e bares a brotar rapidamente nas grandes cidades do país, acompanhando a sofisticação da sociedade chinesa.

Ao contrário da geração dos seus pais, aparentemente uniformizada pelo rígido controlo ideológico da ortodoxia maoísta, a juventude chinesa parece não temer assumir gostos e visuais diferentes.

No piso acima do Dada fica o Temple Bar, onde todas as noites há concertos com bandas de punk, heavy metal ou indie rock. Outros espaços noturnos apostam em música latina. Concertos de jazz e blues fazem também parte da agenda cultural das principais cidades chinesas.

Luís Coelho, um dos raros músicos portugueses a viver na China, conta que “ainda há aqui bastante trabalho para músicos e uma certa liberdade para tocar originais”. “Na China, posso tocar num bar e ser pago para tocar a minha própria música. Na Europa ou Estados Unidos, tinha de ser eu a pagar para tocar”, explica o guitarrista.