Músico, produtor, técnico de som e baterista, Charlie Beats é o nome que está em grande parte de muitos trabalhos de vários rappers de Portugal, como os Wet Bed Gang, Pappilon, XEG, Piruka, Vado Más Ki Ás e Phoenix RDC, entre outros.

Tem marcado o seu lugar no hip hop nacional e, cada vez mais, tem a agenda preenchida entre produções, rádio, televisão, jogos e espectáculos. A BANTUMEN esteve à conversa com Charlie Beats, e fomos descobrindo em cada pergunta um pouco mais do produtor que faz inúmeras coisas ao mesmo tempo, mas cuja vontade de fazer e descobrir mais é insaciável.

Charlie Beats ou Tiago Rodrigues?

Na verdade praticamente toda a gente me chama Charlie, muitas pessoas não fazem ideia que me chamo Tiago e até pensam que o meu nome é Carlos. De qualquer forma é-me indiferente, mas só as pessoas mais próximas de mim é que me costumam chamar pelo nome que os meus país me deram.

Entre o bass, kick e a tarola, onde entram os beats e o hip hop?

A música faz parte da minha vida desde que tenho memórias mas os beats só entraram na minha vida aos 16 anos, até porque antes disso confesso que não ligava muito ao hip hop. Já tocava em bandas mas mais viradas para o rock, punk rock e hardcore. Claro que vibrei com os clássicos do grande Sam, dos Mind the Gap, Boss AC ou Da Weasel, aliás acho que pouca gente da minha geração ficou indiferente a sons como o “Lena”, “Dedicatória”, “Não percebes” ou “Toda a Gente”, sonoridades que me influenciam ainda nos dias de hoje. Mas só aos 16 é que descobri o mundo da produção e percebi o que estava por detrás das músicas. Foi amor à primeira vista.

A criação dos “Bizontes Kanibais” foi necessária para a tua vida musical?

Sem dúvida nenhuma que foi não só necessário mas fundamental. BK foi a minha primeira banda a “sério”. Talvez por outros membros serem todos mais velhos que eu, aprendi imenso com eles sobre música, gravação, instrumentos, composição e até sobre a vida. Dei os meus primeiros concertos, aos 16 dei os primeiros passos na gravação em estúdio, ainda com condições muito precárias mas que serviram de base para o que ainda estava para vir.

Consegues produzir de tudo um pouco, mas nunca pensaste em manter-te fiel apenas a um género musical?

Nunca o hei-de fazer. Mesmo que quisesse e me obrigasse a tal, sei que não me ia conseguir manter a produzir apenas um estilo musical. Eu costumo dizer que só existem dois estilos de música: a música boa e a música má, e tão depressa vibro a ouvir Cesária Évora como vibro a ouvir Rach Maninov, Django Reinhart ou até mesmo Rihanna. Já fiz muitas coisas diferentes que começam no rock, passam no jazz e culminam no dancehall por exemplo. Sinto-me sem sombra de dúvidas um produtor mais rico por ter passado por tantas estéticas musicais diferentes. O que faz com que as minhas produções não soem só a uma estética específica e tenham sempre ali mais qualquer coisa.

Como é o processo criativo de um instrumental? É fácil criar um beat?

Não considero nada fácil produzir um beat, e quando o processo não requer só produzir o beat mas sim produzir o beat para um artista em específico, estruturá-lo da melhor forma, fazer o refrão e tudo o que envolve fechar um single a coisa torna-se ainda mais complicada. As minhas primeiras produções não eram horríveis, mas eram muito más, e só talvez passados uns oito anos a produzir praticamente todos os dias é que comecei a sentir que estava já bastante confortável a produzir. Ou seja, para se saber produzir bem, na minha opinião, não basta saber cortar samples, programar drums ou saber criar linhas de bass. É fundamental saber a teoria por trás de cada decisão que tomamos, assim como a teoria das máquinas, Vst’s ou Plug-ins que usamos para criar. Quando começo a produzir já tenho ideias na cabeça, consigo ouvi-las dentro do meu cérebro, ou então tenho referências ou influências que uso como base inicial. E para conseguir chegar às sonoridades que pretendo preciso mesmo dominar a teoria e a técnica a fim de ter plena noção que parâmetros alterar e calibrar para lá chegar. Em suma, qualquer pessoa consegue sacar um software de produção e fazer um beat com algumas horas de pesquisa no Google mas isso estará sempre longe de um single bem produzido, com pés e cabeça.

Estás envolvido em muitos projetos, não te atrapalhas com tanta coisa para fazer?

Estaria a mentir se dissesse que corre tudo às mil maravilhas e que nunca nada falha, mas é muito difícil que assim seja, e de vez em quando, felizmente com alguma raridade, lá me troco com qualquer coisa. Felizmente nunca me atrapalhei de forma a cometer um erro grave, tento organizar tudo ao máximo e escrever tudo para que não me esqueça de nada, até porque trabalho com a vida profissional dos artistas. No meu computador estão muitos projetos que ainda só se encontram ali, e eu trato-os como ouro. A vida tem-me ensinado que organização, responsabilidade e pontualidade são qualidades chave para ser um produtor/técnico de som bem sucedido.

Música, cinema, televisão, rádio, videoclipes, jogos, conteúdos gráficos. O que te falta mais fazer?

Sinto que ainda tenho muito para dar, tanto nas áreas que referiste como em outras, ainda não sei muito bem em quê, mas um coisa é certa: tenho de gravar uma orquestra e de tocar com ela ao vivo.

Quem te inspira a nível nacional e como?

Felizmente trabalho com quem me inspira, sou fã de praticamente todos os artistas com quem trabalho. Claro que ainda faço alguns trabalhos exclusivamente para pagar contas (como técnico de som, não como produtor) mas cada vez menos.

Melhores produtores da Tuga?

Não gosto muito da expressão “melhores produtores”. Sinto que há produtores muito bons e que há uns que prefiro mais do que outros mas não diria que uns são melhores que os outros. Adoro o facto de haver vários produtores a trazerem sonoridades e flavours diferentes para a cultura, até porque há produções que eu jamais seria capaz de ter feito simplesmente porque o meu cérebro não está virado naquela direcção. Assim como com certeza que eu tenho produções que outros produtores se calhar não teriam produzido, não porque lhe falte técnica ou recursos, mas porque não têm a minha sonoridade. E considero isto muito positivo para a música no nosso país. Para mim, o pai da produção em Portugal é o Samuel Mira, não querendo dizer que não hajam outros antes dele ou tão bons como ele mas para mim o Sam influenciou-me imenso no inicio. Todos os beats que ele fez até hoje mexem comigo, e Orelha Negra para mim é uma das melhores bandas do mundo. Também considero o Serial, dos Mind da Gap, um dos grandes produtores da Tuga visto ter produzido beats incríveis numa altura tão embrionária do hiphop em Portugal. O Lhast é um talento incrível, gosto muito das suas produções e só de o ouvir já aprendi muito. Tenho de referir o Spliff porque tem uma vibe mesmo própria que eu adoro. Slow j tem produções também incríveis e é um talento fora de série. Há muitos que merecem estar aqui. Como disse no início, acho que temos produtores de excelente qualidade e é difícil estar a escolher os “melhores” até porque, lá está, para mim, estão todos num nível muito bom, têm é sonoridades diferentes.

Sentes que o hip hop hoje em dia está demasiado comercial?

Não ligo muito a esse assunto do comercial/underground, mas neste momento é notório que o hip hop é a tendência, não só no nosso país como no resto do mundo também. Basta estar atento aos tops. Esta realidade faz com que o hip hop chegue às massas, e como tudo na vida, isso também tem os seus aspetos negativos. Na minha opinião, o que é verdadeiramente importante é mantermo-nos fiéis ao que acreditamos e genuínos no que fazemos. Penso que qualquer pessoa tem o direito de fazer hip hop desde que siga esses dois princípios chave. Claro que quando um estilo de música vira a tendência é normal que artistas de tendência, que nunca fizeram esse estilo na vida, se foquem mais nele, visto que esses artistas fazem o que está na moda, mas isso vai sempre acontecer. Cabe-nos a nós ouvintes filtrar e perceber o que realmente é genuíno e o que vale mesmo a pena ouvir.

O GroundZero foi das tuas maiores realizações?

Sem dúvida. A primeira vez que entrei no Groundzero foi por causa do meu grande amigo Di aka Chapa Dux para gravar a nossa banda de reggae na altura. O BeatLaden na altura dono do Groundzero era tido como o melhor produtor/técnico de som para gravar reggae então decidimos experimentar. Na altura, adorei tanto o estúdio como o resultado que conseguimos lá. Era um estúdio com um ambiente super positivo, familiar e de trabalho árduo, os egos eram sempre deixados à porta e tudo corria bem porque todos remávamos para o mesmo sÍtio em prol de boa música. Mais tarde, sou convidado pelo BeatLaden para trabalhar com ele e, ao fim de um ano, o legado passou para mim. Sinto que o Groundzero ainda vai dar muito que falar no futuro.

Os teus pais orgulham-se da pessoa que te tornaste?

Na verdade, sempre se orgulharam de mim e sempre me ajudaram em tudo, mas também sempre tiveram aquele medo que todos os país têm quando os seus filhos lhes dizem que querem viver da música, principalmente o meu pai. Para o meu pai não foi fácil perceber que eu queria seguir música quando poderia continuar a empresa que já o pai dele tinha construído, mas com o passar dos anos e com aquilo que fui conquistando ele acabou por perceber que este era mesmo o meu caminho. Hoje em dia estão super felizes com o trabalho que desenvolvo diariamente, que faço questão de lhes mostrar e de lhes contar. A minha mãe é fã do Gson e do Piruka!

É satisfatório ver algo produzido por ti, a ser bem-recebido pelas pessoas?

Completamente. Eu lanço conteúdos para a net desde os 14/15 anos e por essa altura a minha música não “batia” ,não chegava às pessoas, tinha pouco feedback e pouca visibilidade, ainda assim sempre produzi coisas tanto na música como no vídeo, tanto com bandas como com MCs. Hoje em dia continuo a fazê-lo, a diferença é que já chega às pessoas e elas, felizmente, estão a gostar imenso do meu trabalho. Recebo todas as semanas dezenas de mensagens a dar-me love, infelizmente tem sido até complicado responder a todas. Quando o público gosta daquilo que tu fazes sentes-te reconhecido, antigamente quando isso não acontecia eu sentia-me realizado pela música que desenvolvia mas quando partilhas com o mundo e o mundo te dá reconhecimento e love então aí é a cereja no topo do bolo.

O facto de cobrares pelos teus trabalhos, já te fez perder “clientes” e ganhar “haters”?

Felizmente penso que não. Eu sou bastante acessível na questão do dinheiro. Eu tenho contas para pagar e como toda a gente preciso de receber dinheiro mas eu não ponho, nem nunca pus, o dinheiro à frente da música: quando gosto mesmo de um artista e quero trabalhar com ele, trabalho com ele e ponto final. Mesmo que ele não tenha possibilidades para me pagar no momento eu sei que no futuro vamos buscar os dois esse dinheiro, até porque isso já aconteceu bastantes vezes. Normalmente, quando digo os meus preços e as pessoas não têm possibilidades de pagar elas compreendem o preço que estou a cobrar e acabam por dizer que “qualidade como a tua deve ser paga” mas que não conseguem pagar, e as coisas acabam por ficar por aí, agora se se tornam meus haters pela calada isso já não sei.

Tens algum sonho que queiras realizar ou alguém com quem queiras trabalhar?

Quero muito trabalhar com o Sam the Kid, é algo que quero desde que comecei a minha caminhada no hip hop, de resto não tenho grandes sonhos de trabalhar com A ou B, simplesmente quero trabalhar com pessoas com talento e sobretudo com vontade e profissionalismo, que façam muito pela música e não só pelo seu ego, por views ou por dinheiro.