Nos finais dos anos ’90, Enidê MC teve o seu primeiro contacto com a cultura da rua. O rap e o graffiti foram os primeiros contatos com o movimento, o que era normal naquela altura. A música chamou-o muito cedo, aos 10 anos escreveu o seu primeiro rap por cima do beat e música “Pátria Que Me Pariu” do seu ídolo, Gabriel O Pensador.
Enidê é mestre de cerimónias, compositor, improvisador, jornalista e arte-educador. 
O rap não era a sua única paixão, pouco tempo depois apaixonou-se no pelo skate e pela língua espanhola. Entre as pistas de skate do Vale do Paraíba, Brasil, e a cultura da rua que foi se intensificando no seu dia-a-dia, conheceu Santiago. Da sua boca as rimas eram latinas e assim, nasceu o amor pelo rap latino-americano.

Auto-didata, aprendeu a falar e escrever em espanhol sozinho, através do rap. O que faz hoje em dia, é uma mistura dos dois idiomas, português e espanhol para conseguir dessa forma chegar aos “los hermanos” da música como o mesmo afirma. Esse “jogo de palavras”, permitiu-lhe fazer amizades além fronteiras que resultaram numa tour e missão de vida, “Mangueando Vou”. É também o nome do seu mais recente trabalho, produzido por Bruno Alvarenga, em comemoração das 12.000 cópias vendidas de mão em mão, em mais de 100 cidades do Brasil e da América do Sul (Chile, Argentina e Paraguai).

Em entrevista exclusiva à BANTUMEN, Enidê MC desconstrói o significado do nome da sua peregrinação, da mixtape, a língua que gosta de falar e a que adquiriu pelo rap, e a relação entre o rap e a política.  

A música faz parte de ti, mas o porquê de escolheres o rap em vez do jornalismo ou arte-educação?

A escolha foi natural, pois eu tive contato com a música desde muito cedo. Aos 9 anos de idade eu já gostava de escrever, cantar músicas de artistas que eu já gostava e também de fazer paródia em cima de músicas famosas. Foi através da música que eu despertei a vontade de fazer jornalismo e, através dela, que eu recebi o convite para lecionar sobre a cultura de rua, nas comunidades da minha região. Então o jornalismo e o trabalho de arte-educador engrandece mais ainda a minha correria na música.

Aprendeste espanhol sozinho? Qual a importância dessa língua na tua vida?

Sim, aprendi o espanhol conversando com os amigos “raperos” do Chile. Eu gosto muito do rap latino, acredito que eles ainda mantêm a essência do hip-hop viva em suas músicas e em seus eventos. Eu sempre notei a proximidade com os irmãos dos países vizinhos e também a presença da muralha, chamada de idioma, que é o que nos impede de nos comunicar melhor com os nossos vizinhos. Música é comunicação e a vida é a arte do encontro, então, com quanto mais pessoas a gente conseguir se conectar é melhor, afinal, vivemos no mesmo planeta e respiramos o mesmo ar.

Como rapper brasileiro, não achas que ao cantares também em espanhol, perdes um pouco a tua identidade perante os teus fãs do Brasil?

Acredito que isso só acontece se eu parar de cantar em português, aí deixaria de fazer sentido. Mas por outro lado, os brasileiros são bem receptíveis a culturas diferentes e esse lance de misturar o espanhol, soa bem a muitas pessoas. Sempre haverá pessoas para reprovar a sua atividade, mas isso faz parte da caminhada, não se pode agradar a todos. Por isso seguimos nesse propósito, pois independente da opinião adversa, nós também somos latino-americanos.

Qual é o significado da tua mixtape Mangueando Vou e o porquê?

Mangueando é um dialeto dos hippies, que representa o ato de desenvolver uma arte com as próprias mãos e sair na missão de vendê-la na rua, de pessoa para pessoa. Mangueando Vou quer dizer que vou criar o meu artesanato sonoro e me sustentar através da minha arte, ou seja, criar uma arte e viver dela. A mixtape ganhou esse nome, pois é o que eu tenho vivido nesses últimos anos.

Como surgiu a ideia de viajares entre 100 cidades do Brasil e da América do Sul a vender de mão em mão a tua música?

A ideia de sair pelas cidades foi inspirada na vivência que tive com o skate, onde se vive a cultura de viajar para conhecer as pistas, a galera local e rever velhos amigos. Com a música não foi diferente, sentí a responsa de fazer isso para conhecer lugares, pessoas e eventos diferentes, para apresentar o meu trabalho. E para fora do país, foi a responsa de conhecer a cultura que eu acompanho há anos via internet, só que pessoalmente. Sempre tive vontade de conhecer o Chile, pois é considerado o país mais “rapero” do mundo, devido a alta quantidade de adeptos por metro quadrado. Também tenho vontade de extender essa peregrinação para Portugal, Espanha, França e Angola, mas não sei se vou conseguir fazer isso tão breve.

Vendeste 12 mil cópias, foi um espanto para ti ou já calculavas que assim o fosse?

Hoje é um espanto pois vejo que trabalhamos bastante para alcançar essa marca, mas ao mesmo tempo sabemos o ritmo de vendas que exercemos, era tão forte, que mal conseguíamos pensar nisso, a mentalidade era sempre focada em “sair na missão”. Foi um lance que foi tomando força e a galera foi percebendo essa sede pelas vendas de cds pelas ruas, no entanto muitos foram nos dando força para continuar.
Um salve aos meus manos Jorginho, Paulo Nobre e Leitinho!

Tendo em conta a situação política no Brasil, achas que é possível usar a música como forma de combate e revolução?

Sim! Acredito que muito além de entreter, a missão da música é passar algo relevante para as pessoas. E não tem como você escrever algo que não reflita a sua realidade. Acredito que temos uma consciência e ela não pode deixar de estar presente em nossa música (trabalho), nas nossas conversas e nas nossas atitudes.

A tua música é feita das tuas vivências? O que te inspira? 

Sim, são inspiradas nas vivências que me proporcionam reflexões, e também em conversas com pessoas e amigos que me ajudam a despertar uma visão mais evoluída sobre a vida, sobre o universo e a minha missão nesse plano. O “Mangueio”, é algo que me inspirou muito, porque contribui bastante para a minha evolução pessoal e espiritual. Vivemos no Vale do Paraíba-SP, uma terra onde a busca espiritual e o respeito à mãe Terra e o espetáculo da natureza, é bastante cultuado e priorizado. Independente de fazer Rap ou não, essa vivência já nos faz refletir e respirar essa atmosfera.

Qual a tua opinião no que toca ao rap feito no Brasil, hoje? 

O nosso rap é reflexo do que vivemos, do que acreditamos e praticamos. Hoje o Rap está em alta no Brasil, apesar de ter muitos artistas destacados, que não agregam nada na vida de ninguém, acredito que os verdadeiros rappers contundente que nos influenciaram e nos inspiram, nunca pararam de fazer os seus trabalhos ecoarem nas ruas, por isso acredito que temos que focar no que é bom e não se basear em “qualidade” através de “hype”, views e veículos que não tenham um compromisso com a cultura que salva vidas!

Dos trabalhos que saíram recentemente, indico a vocês o disco Boogie Naipe do mestre Mano Brown, Quem tá no Jogo do RZO, Rap Crime do LK O Marroquino, Philliaz (que são duas minas FODA), e Do silêncio ao centro dos irmãos Rato e Mattenie (E-Zílio).

RAP E BRASIL
Tens projectos futuros?

Sim, pretendo lançar os videoclipes de algumas faixas da mixtape, ampliar a peregrinação para outros países da América Latina, outros estados do Brasil que ainda não fui, terminar os novos singles que já estão sendo produzidos pelo meu mano Bruno Alvarenga (Grande responsável pelo lançamento da mixtape “Mangueando Vou”) e colocar uma energia no projeto que estou participando com o Bruno e com o monstro Caio Fernandes de Santos-SP.
Ouve abaixo Mangueando Vou: