África Negra: o conjunto de São Tomé e Príncipe e de todos

Foi em 1974 que nasceu o Conjunto África Negra. A música que pretendiam fazer era dos santomenses para os santomenses, mas acabou por transpor fronteiras.

Começaram a tocar nos fundões: bailes ao ar livre que juntavam as diferentes comunidades locais; os mestiços, descendentes de colonialistas portugueses e escravos africanos, os Angolares, descendentes de escravos angolanos naufragados que se fixaram em comunidades piscatórias na zonal sul, e os descendentes de trabalhadores cabo-verdianos e moçambicanos que trabalhavam para as plantações de café e cacau da ilha.

A banda é constituida por Emídio Vaz, guitarra solo, Leonildo Barros, guitarra ritmo, e João Seria, vocalista, cantavam o inimitável estilo de São Tomé Rumba, música de uma languidez paradisíaca devedora do vizinho Soukous, com suaves traços redentores de Highlife, acabando por se tornar num contributo fundamental para a construção cultural da identidade da então jovem nação independente.

Foto: África Negra

A Rádio Nacional de São Tomé teve uma participação importante no crescimento da banda no início da decada de ’80. Foi onde foram gravadas cerca de 40 a 50 músicas, o que depois levou a que editassem três LPs prensados, que em Portugal foram distribuídos pela Iefe Discos.

Os estúdios de gravação e as rádios nessa altura não tinham material e nem espaço suficeinte para acomodar um número alargado de músicos, as condições eram mínimas. Com um olhar para o oceano, os África Negra montaram o seu material no relvado circundante da casa e gravavam os seus temas, enquanto debruçavam o olhar nas ondas que banhavam a costa, juntos dos seus fãs.

A música feita pelo conjunto deixou de se tornar local, atravessou o oceano e deu ares da sua graça em países, como Portugal, Angola, Cabo-Verde e Guiné-Bissau.

A banda acabou por se separar e 20 anos depois voltou com mais força e com mais gente: seis pessoas (voz, duas guitarras, bateria, baixo e percussão), sendo que dois dos membros fazem parte da formação original, o vocalista João Seria e o guitarrista Leonildo Barros.

África Negra / Álbum: Alia cu Omali

O grupo voltou a juntar-se para a edição de um novo disco, intitulado Alia cu Omali, com músicas originais, com o selo da editora portuguesa Mar & Sol e vai ter distribuição mundial pela holandesa Rush Hour, no dia 27 de fevereiro. O novo disco foi gravado entre São-Tomé e Lisboa, as músicas que o preenchem são trabalhos de longos anos e com algumas composições novas.

Em declarações à Lusa, Sebastião Delerue, responsável da editora Mar & Sol, explicou que “os África Negra estão vivos, de boa saúde e recomendam-se. Como o espetro da editora seria ir buscar músicas de toda a África lusófona, nada melhor para representar São Tomé que os África Negra, que são uma banda que está no ativo e que é um bom exemplo para representar aquele país”.

O som mantém-se o mesmo, passados mais de 40 anos, uma mistura de puíta (estilo musical de São Tomé) lento, soukous e as influências de rumba.

O conjunto é liderado pelo vocalista João Seria, ou melhor pelo “general” João Seria, como se autointitula e como as suas gentes o tratam, pela boina militar que usa desde sempre nos concertos.

A banda editou cinco álbuns em vinil em Portugal, entre 1981 e 1990, sendo hoje considerados discos raros e vendidos por preços acima dos 100 euros.

Foto: Rádio Somos Todos Primos / “General” João Seria

“Gravaram vários sucessos e conseguiram ficar famosos em São Tomé, mas também no resto da África lusófona. Em Cabo Verde, encontram-se discos dos África Negra e ouve-se na rádio”, vinca Sebastião Delerue.

As mulheres – que deram nome a álbuns como “Alice” e “Angélica” – continuam a ser objeto de temas deste novo álbum, assim como as paisagens de São Tomé (“Alia cu Omali” significa “areia e mar” em crioulo são-tomense).

Após a edição do disco, são esperados concertos dos África Negra “em Portugal, assim como lá fora”, informou o responsável da Mar & Sol.

Foto: R&B / África Negra

“Há cada vez mais interesse nestas músicas. A procura em ouvir estes ritmos africanos está a aumentar e isso é bom. É bom que se oiça esta música, que faz parte da nossa história. Acho importante que isso não acabe, que não tenha um fim, que tenha uma continuidade”, vincou Sebastião Delerue.

Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.