No meio lusófono, quem conhece a Top Model Maria Borges já ouviu com certeza falar de Périkles Mandinga. Contudo, o guineense não se restringe à etiqueta de apenas marido de uma das modelos mais conhecidas a nível mundial. Empreendedor, ator, modelo, participante de reality show e jogador de basquetebol são apenas algumas das atividades que tornam Périkles um ser que pode servir de inspiração para muitos jovens.

Na sua biografia podemos ler que foi destaque em passarelas, revistas, outdoors e televisão. Mandinga venceu o Rip the Runway, um reality show produzido por P.Diddy, no canal BET Network. Tem vários créditos de cinema e teatro nos EUA e internacionalmente. A sua lista de participações no teatro incluem Tower of Babel, Insanity e Properly Plucked. No cinema, o seu nome aparece em filmes como ELF, The Street Z Project e The Science Project. Mais recentemente, Mandinga apareceu no Amazon Prime como um dos mais novos rostos de Nollywood, a indústria cinematográfica do Nigéria.

Considera-se um homem do mundo e, como tal, Perikles é fluente nas línguas portuguesa, francesa, espanhola, Inglesa e crioulo. Os seus maiores interesses são História africana e europeia e adora jogar futebol, basquete, ténis e vólei. É assim descrita a vida deste homem que mora entre Nova Iorque e Lisboa e que dorme uma média de três horas por noite.

Numa das suas várias estadias em Lisboa, encontramo-nos com o Périkles para percebermos melhor quem é e o que tem feito nos últimos tempos. Ora lê abaixo.

Périkles Mandinga
Périkles Mandinga em Nova Iorque

Quem é o Perikles?

O Périkles é um gajo muito curioso, que tem uma paixão tremenda pela vida. Gosto de ser simples, de estar calmo. Que não se expande muito e que gosta de estar com as suas amizades de sempre. Não gosto de atenção.

Cresci em Bafatá. Os meus irmãos já estavam a estudar na Europa, e eu vim para cá para estudar.

Como começou a ligaçao com o desporto?

A ligação com o desporto começou desde criança. Queria ser jogador de futebol, avançado nato, que gosta de marcar golos. Vim para Portugal, o basquetebol era aquilo que toda a gente queria fazer e eu era alto e fininho. Em casa, o meu pai curtia bué do Michael Jordan, e ele decidiu inscrever-me num clube. Tinha 14 ou 15 anos. Até hoje ainda jogo. Na altura joguei na PT, Torres Vedras, no Estoril…

E entretanto surge a oportunidade de seres modelo…

Eu sou um homem multi-tarefas. As miúdas na escola diziam-me “tu és alto, devias ser modelo”. Na universidade deram-me um cartão de uma agência. Entretanto, assinei com a Face Modeles, mas não tinha muito tempo para me dedicar porque já jogava e ganhava alguns trocos com o basquete. Mas, aqui em Portugal, estavam sempre a dizer que o mercado estava fechado para os negros. Fiz a universidade, fiz as minhas malas e fui-me embora. Em Londres conheci uma agência, que fez um contacto com uma agência em Nova Iorque e fui. Cheguei lá, não tinha visto para trabalhar, voltei para Portugal, consegui o visto e voltei. Tinha 22, 23 anos. Tudo isto foi muito corrido. Até hoje, nunca tenho tempo para fazer só uma coisa. Faço negócios, sou ator, faço management, faço desporto. Às segundas e quartas faço futebol, terças e quintas jogo basquete, e ainda concilio com a família. É complicado.

Como foi separes-te da família para ires à procura de uma carreira de modelo?

No início, os meus pais não viam com bons olhos a minha ida para Nova Iorque. Mas [emigrar] já estava no sangue, o meu pai também imigrou cedo e eu queria ser ‘alguém’. E foi daí que eu decidi. Querendo ele ou não, era o meu destino, tinha de fazer por mim.

Périkles Mandinga
Périkles Mandinga em Nova Iorque

Como é que acontece a tua participação no reality show que te deu a fama nos EUA?

Foi por acaso. Estava com um amigo que ia para o casting. Fomos, tinha uma fila com mais de duas mil pessoas. Eu perguntei-lhe se ela ia ficar nessa fila o dia todo… ele pediu-me para lhe fazer companhia e, daí, quando chegou a vez dele, ele assinou os documentos, e perguntaram-me se eu não me queria inscrever e eu disse que não. O meu amigo disse-me que fiquei ali tanto tempo com ele, que não custava nada inscrever-me, que não tinha nada a perder. Quando entrei, os jurados olharam para mim. Perguntaram-me de onde sou, eu expliquei e gostaram de mim. Pegaram na minha ficha e colocaram de lado. Fui-me embora. Quando vieram a minha casa, chegaram com a televisão e tudo. Bateram-me à porta e contaram-me que ganhei. Depois, seguiram o meu dia-a-dia, iam comigo para todo o lado, e na final, estava presente o P. Diddy, que era o director.

Marcou-te esse programa?

Era o destino, mas por exemplo, quando fui campeão de basquete pela PT, quando tinha 18 anos, foi uma emoção, marcou-me muito. São um conjunto de pequenas coisas que nos marcam. 

Como foi a tua adaptação em Nova Iorque?

Os meus pais não queriam que eu ficasse lá, porque não conhecia ninguém nem falava a língua. Houve um episódio em que pisei alguém e comecei a dizer thank you, thank you (obrigada) em vez de dizer i’m sorry (desculpe).

E como surgiu a representação?

Sempre gostei da moda, mas desde criança que eu já fazia performances. Sempre tive o bicho pela representação, mas como criança africana é complicado dizeres aos teus pais que queres ser ator. “Um actor ganha o quê?”. Depois de uma introspeção, comecei a perceber que a minha vocação era a atuação. Peguei no dinheiro que ganhava com a moda e investi numa escola para aprender a atuar. 

Nasceste na Guiné mas viveste, praticamente, toda a tua vida na Europa e nos Estados Unidos. Como é que te voltaste a reencontrar com as tuas raízes africanas?

Eu nunca soube muita coisa sobre África. Sabia que era africano, conhecia África, mas em termos de conhecimento, nao tinha acesso a muita coisa. Quando cheguei a Nova Iorque, nao me sentia conectado com os afro-americanos porque, apesar de sermos negros, somos diferentes. Eu nasci na Guiné, o meu presidente era negro… e a mentalidade era diferente. E acabei por sentir necessidade de me educar a nível da história africana. Quando descobri o amor pela minha pátria e a forma como vejo África acabou por influenciar a forma como escolhia, por exemplo, os papéis que ia representar.

Atualmente, podemos ver Périkles em Who’s Mandinga?, uma série original da Amazon Prime e produzida pela Aflik TV, um dos maiores distribuidores digitais de vídeos sob demanda (VOD). A série, que nos dá uma maior visão sobre o percurso do ator, foi criada e dirigida por Akeju. O foco da trama é a jornada para se tornar um ator, os seus projetos atuais e o futuro de Nollywood, do qual faz parte, no cinema mainstream.