Castelos é uma obra muito pessoal onde Prodígio mostra o seu lado de comentarista social enquanto artista, deixando sobressair uma notar uma coragem e honestidade, pela forma como reflecte sobre questões muito íntimas que realçam a sua vulnerabilidade.

Castelo de Lata” abre o álbum e logo dita o tom em que a narrativa se vai desenrolar.

O single explora questões existenciais que afligem muitos jovens que se encontram na encruzilhada da vida. Colocam-se questões sinceras que revelam realidades inquietantes:

“Como é que vamos ter sonhos de ser pilotos / Se os sonhos voaram / E os nossos heróis estão todos mortos / E o nosso passado torto /e no nosso presente mais abortos / Como é que vamos ter hotéis se ainda dormimos na rua”

A vida adiada de uma juventude sem perspectivas animadoras e um futuro cheio de incertezas, onde a desilusão e a frustração são o resultado de uma governação totalmente insensível às necessidades de toda uma nação. Põe-se o dedo na ferida de forma direta, clara e inequívoca, chamando a responsabilidade aos culpados.

“Sem esperança de vitória a luta  é incerta / Nos enganaram com fatos e gravatas / E comeram o nosso dinheiro com garfos e estas facas todas”

Prodígio transforma-se na voz de toda uma geração, da qual faz parte, e sofre até hoje as consequências de uma governação extremamente corrupta e totalmente alienada da realidade do país .

O ser humano vive de sonhos mas os sonhos precisam de uma sustentabilidade para que se tornem realidade, caso contrário, são apenas devaneios mentais. Uma juventude que não sonha é uma juventude morta.

Em “Olhos azuis” o rapper rende uma homenagem ao seu progenitor como forma de celebrar a sua vida e os seus ensinamentos, fazendo questão que o seu pai saiba do amor e admiração que o filho nutre por si.

Estamos habituados a celebrar as pessoas que amamos quando já não se encontram entre nós, tornando este exercício numa futilidade. Ao optar por uma atitude diferente, Prodígio mostra ao pai a sua vontade de emular as suas admiráveis qualidades, demonstrando humildade e profunda gratidão por tudo quanto recebeu e recebe de si enquanto homem.

Homens não choram” 

Os papéis invertem-se com Prodígio assumindo o papel de pai, enquanto passa os seus ensinamentos ao seu primogénito, partilhando as suas experiências e realçando sempre a importância de se aprender e crescer com as lições que a vida vai nos dando.

Os rapazes crescem numa cultura onde expressar emoções é visto como fraqueza de carácter e falta de virilidade. Esta cultura forma adultos emocionalmente imaturos por terem grandes dificuldades em lidar com a complexidade das suas emoções.

Ao estabelecer esta conversa aberta e descontraída com o filho, Prodígio está a estabelecer e fortificar o elo emocional entre os dois.

Máquina do tempo” e “Devolve o coração ” lidam com as  vicissitudes  das relações amorosas. O rapper despe a sua alma e abre o coração exprimindo os sonhos, desilusões e frustrações que surgem das transformações que uma relação sofre ao longo do tempo.

Na segunda faixa o artista abre mão de todas as benesses que valoriza em favor do conforto e da plenitude que a companheira lhe proporciona quando estão juntos.

“Medo (Radio Skit)” é uma das músicas mais sombrias desta obra pois é uma reflexão sobre a discriminação e violência policial que emigrantes africanos sofrem em Portugal.

A recente situação que aconteceu no Bairro da Jamaica trouxe à praça pública uma questão que durante anos tem sido denunciada por associações de luta contra o racismo e a xenofobia, em Portugal.

A questão do racismo institucionalizado em muitos países europeus é um tema considerado tabu mas o rap sempre fez questão de o abordar e confrontar esse mal social.

Prodígio narra situações muito íntimas e traumatizantes, onde fica claro  como a interação com as forças policiais deixa sequelas muito profundas para além da agressão física e moral.

O artista reivindica o seu direito ao respeito e dignidade humana enquanto cidadão, procurando humanizar a atitude do agente de ordem pública, forçando-lhe a colocar-se na pele da vitima para que este sinta as repercussões do ódio racial.

“Não somos todos espertalhões Nem todos otários / Gostaria de te lembrar que eu pago o teu salário / Os teus colegas não são todos como Tu / Eu sei que Não / Mas nós também não somos todos marginais / Eis a questão”

No coro, a voz feminina repete: “não tenhas medo, não tenhas medo de amar”. A frase deixa a ideia de que o amor é a força que liberta e redime as pessoas das suas insuficiências humanas.

Não acordes”

“Antes da estrada do sucesso, é bom que passes pelas trincheiras”

Uma reflexão da necessidade de se ter um espírito de luta e auto valorização para podermos atingir as nossas ambições. A auto confiança é importantíssima porque a auto dúvida e as opiniões alheias e negativas são armadilhas fatais na vida.

O sonho, enquanto fonte de inspiração para a realização humana, deve manter-se vivo. Devemos sustentá-lo a todo o custo em busca de novas conquistas e realizações.

“Conversa”

Um desabafar honesto e sincero expressando impressões pessoais sobre várias questões que norteiam a vida .

A simplicidade e a espontaneidade usada por Prodígio para narrar certas situações são uma das suas maiores qualidades. Há ainda a salientar a interessante interação entre a vocalização do rapper e as paisagens sonoras que o saxofone vai criando, estabelecendo um ambiente propício, recheado de rimas e duplos sentidos com ideias contrastantes mas complementares.

Nós somos os segregados de nascença / Então como é que tu queres que eles queiram / Que a gente vença / Tanta falta de machos neste mundo machista / É tudo cinzento neste mundo racista / Não dá pra ser pobre neste mundo elitista / Ninguém dá boleia neste mundo taxista / Mano eu não pago para ser visto / As pessoas pagam o que eu visto

Piano ” , “Todos vcs” e “Injusto” são autênticos ego trips e, como era de esperar, Prodígio mostra as suas capacidades de guerreiro do microfone usando rimas e metáforas estonteantes e uma destreza lírica propícia para este tipo de narrativa.

Novela”

O mundo é dos mais fortes / E estamos numa selva / O bairro recebe mais armas e o estado observa”

A observação darwiniana é usada como referência ao facto de na vida ser importante desenvolvermos e aperfeiçoarmos o instinto de sobrevivência, numa sociedade cada vez mais competitiva e menos colaborativa, ou seja uma selva urbana.

A música aborda os sacrifícios que a Força Suprema, como coletivo, teve de fazer e o quanto esses obstáculos tornaram os seus membros no tipo de homens que são hoje. O título é uma metáfora referindo-se à ideia projetada pelas novelas de que a vida é um mar de rosas onde tudo é alcançado sem a menor dificuldade.

Merda nenhuma” é uma sequência da faixa anterior onde o rapper retrata as suas condições, desde Angola até Portugal, demonstrando mais uma vez como a sua vida tem sido uma autêntica luta pela sobrevivência denotando, desde muito cedo, grande resiliência perante as adversidades.

Ė uma vida de vitórias e derrotas mas, acima de tudo, de muitas lições aprendidas e que agora são partilhadas para que sirvam de inspiração e motivação para quem esteja a passar pelas mesmas situações. A vida é uma maratona e não um sprint.  

“Bolo Fofo” e “Uma garrafa” são temas de celebração, onde o hedonismo é detalhado, tal como acontece em várias obras dos membros da Força Suprema, mas mesmo quando se fala de desbunda há sempre uma palavra elevadora com dose de realismo. É a celebração merecida de quem teve que lutar, sofrer e crer bastante e perseverar o seu ofício para que hoje possa usufruir do fruto desse trabalho árduo e honesto.

Castelo de areia”

Nos prometeram Escolas / Nos deram igrejas / Nos deram hotéis, fábricas de cerveja

O que esperar de um país sem Educação, Saúde e sem habitação condigna ,    refém do álcool e da teologia da prosperidade?

Este tema mostra um artista interventivo, exercendo a sua cidadania fazendo comentários sobre situações que afetaram e, ainda afectam, a vida da maioria dos angolanos mais vulneráveis e desfavorecidos.

Prodígio é produto da sociedade angolana que retrata e logo não pode estar alheio ou dissociado desta realidade. Reivindica a sua angolanidade vociferando:

Sou angolano demais pra não me preocupar com este país.

Tal como Teta Lando em “Reunir”, Prodígio propõe uma conversa em família onde se possa dialogar sobre o estado da nação e se encontre um rumo diferente para o país, para que o angolano tenha a tão almejada prosperidade.

Em linhas gerais, o álbum é sólido e explora aspetos muito íntimos e isto só acontece quando a pessoa ganha uma certa maturidade emocional.

Falar de nós mesmos é uma das coisas mais dificéis de se fazer por ser extremamente desconfortável.

Castelos vem mostrar a complexidade de Prodígio como artista e surpreende pela positiva pela sua diversidade temática e musical.

A meu ver, destacam-se os seguintes títulos “Castelos de Lata”, “Olhos Azuis”, “Medo”, “Piano” e “Castelo de Areia” , esta última sendo a melhor do álbum).

Prodigal son indeed!