Morreu nesta terça-feira, 16, Ricardo Chibanga o primeiro toureiro e matador de touros africano da história da tauromaquia, na sua casa da Golegã, aos 76 anos, depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral no início de março.

“El Africano” ou “Negrito Matador” nasceu em 1942, era assim conhecido Chibanga, filho da terra onde Samora Machel liderou a Guerra da Independência, Moçambique.

Os trajes de luces (a designação “luces” tem origem nos efeitos luminosos produzidos pela refracção da luz nas lantejoulas que os adornam) usados pelos toureiros e as corridas que assistia em Moçambique deslumbravam o seu olhar e despertaram o seu interesse por essa modalidade.

Faltava à escola para ver as corridas, começou por fazer pequenos trabalhos na Monumental de Lourenço Marques (atual Maputo), não recebia dinheiro mas em troca assistia gratuitamente às corridas.

Em 1962 surgiu o convite para que viesse para Golegã, Portugal, pelo matador de touros e empresário taurino Manuel dos Santos. Foi-lhe dada a oportunidade de se tornar numa das estrelas que usavam os fatos reluzentes que tanto adorava.

Foi então que Ricardo Chibanga apaixonado pela “arte” taurina, frequentou a Escola de Toureio Mestre Patrício Cecílio, tornando-se no primeiro toureiro africano e negro e o único matador de touros africano da história da Tauromaquia.

Ricardo Chibanga / Foto: DR
Ricardo Chibanga / Foto: DR

Golegã é uma terra portuguesa conhecida pela “Feira Nacional do Cavalo” e pela tauromaquia. E foi onde Chibanga começou a dar os primeiros passos como toureiro, com a ajuda da escola e de Manuel dos Santos, com as condições necessárias para a aprendizagem.

A vinda da sua terra natal para as terras Lusas tinha uma curta duração, seriam apenas de três meses, mas passada essa data Chibanga não regressou a Moçambique. Ia ser toureiro. 

Em 1966, Ricardo Chibanga era aplaudido por milhares de pessoas, nas célebres touradas em Macau, no Verão, onde as touradas tiveram lugar pela primeira vez, no dia 1 de agosto. Desde então, a praça de bambu esgotava sempre. 

As touradas, os toureiros e tudo que embelezasse aquele evento, fez com que o público asiático reagisse de forma apaixonada ao espectáculo, sobretudo quando Chibanga entrava na praça. 

Três anos depois, em 1969, a empresa de Manuel dos Santos organizou touradas em Jacarta, na Indonésia, entre 22 de Abril e 7 de Maio. Estavam presentes mais de cem mil pessoas e a tourada ficou marcada pelo maior número de assistência de público do mundo. O estádio de Jacarta encheu-se para ver a corrida à portuguesa.

Ricardo Chibanga / Foto: DR
Ricardo Chibanga / Foto: DR

“Sempre senti medo. Não há um único toureiro que não sinta medo”, disse Ricardo Chibanga em entrevista, após ter feito o público composto por milhares de pessoas vibrarem quando virou as costas ao touro e ajoelhou-se e o touro não investiu, como se ele próprio dominasse o touro.

O caminho do “El Matador” foi feito à base de vitórias e grandes conquistas no mundo tauromáquico. A 15 de Agosto de 1971, Ricardo Chibanga, apadrinhado por António Bienvenida e com o testemunho do matador sevilhano Rafael Torres, tornou-se matador na Real Maestranza de Sevilha.

Essa evolução na carreira permitiu que Chibanga toureasse na Praça do Campo Pequeno, em Lisboa. Chegava assim a vez dele vestir os trajes de luce, brilhantes e bonitos que o deixavam maravilhado ainda em Moçambique.

Conheceu Eusébio, Picasso, Salvador Dali, e muitas outras personalidades que eram fãs da sua arte, foi apelidado por Pablo Picasso como “negrito, matador”, que o quis conhecer depois de o ver tourear no sul de França.

Ricardo Chibanga e Eusébio / Foto DR
Ricardo Chibanga e Eusébio / Foto DR

 Em 1972 regressou a Moçambique e foi levado pelos ombros, todos se orgulhavam dele. Chibanga não era homem de muitas palavras, e não mostrava sempre o que sentia, mas as lágrimas que deixou escorrer pela cara quando viu numa reportagem da RTP a Monumental de Lourenço Marques degradada, mostrou o amor que sentia por aquele sítio, que lhe permitiu sonhar além fronteiras.

Ricardo Chibanga mais tarde deixou as lides de lado e arrumou aqueles trajes que tanto o tinham fascinado e feito sonhar, mas não deixou os touros. O seu amor pela tauromaquia era tanta que tornou-se proprietário de uma praça de touros desmontável e com ela correu o país.

“Foi o primeiro toureiro africano no mundo e foi muito importante para a festa, mas, sobretudo, para Portugal, pois ele foi, juntamente com Amália Rodrigues e Eusébio, um embaixador do nosso país no estrangeiro”, lembrou Miguel Alvarenga, jornalista e editor do blog de tauromaquia farpasblogue.