Gilmário Vemba foi entrevistado pelo site português Notícias ao Minuto, e partilhou histórias da sua infância e adolescência, que ditam o tom do seu novo espetáculo, “Imortal”.  

“‘Imortal’ são histórias do Gilmário Vemba, que acabam por representar a história de um país. Em Angola, todos os que nasceram em 85 já nasceram à beira da morte. Ter conseguido chegar aos 33 anos e conseguir observar uma mudança no país, para mim, passa uma ideia de imortalidade porque as hipóteses de não chegar até aqui eram muitas”, começa por dizer o humorista, que explica que mesmo com todas as dificuldades que enfrentou nunca pensou em emigrar. 

O meu pensamento era “não vou fugir, eu nasci aqui, fui posto aqui por alguma razão, então tenho de estar aqui”. Quero estar aqui e contribuir fazer força para ver até onde é que podemos ir e ser útil para a resolução dos nossos problemas”.

Gilmário indica ainda que a sua formaçao académica foi influenciada pelos seus companheiros dos Tuneza, principalmente por Costa (Daniel Vilela). “Sempre debateu muito sobre política e, como sou o mais novo do grupo, gostava muito de ver a forma como abordavam estes assuntos.

O humor tem essa particularidade de ser a arte que mais faz crítica política. E nós não fazemos isso porque crescemos num país em que fomos educados a não falar de política, por causa do regime que o país tinha, um regime socialista único em que não se debatia. Os nossos avós foram educados a não debater política, os nossos pais também e nós não podíamos fugir à regra, mas havia a necessidade de debater e hoje, felizmente, isso está mais aberto. Os jovens estão mais inseridos na política e eu também fui arrastado para isso e comecei a gostar da ideia de desenvolver e compreender como funcionava a política internacional, porque nós como países de terceiro mundo acabamos por sofrer muita influência, quase somos dominados e guiados pelas grandes potências e é preciso compreender isso.”

Sobre o seu novo show, ‘Imortal’, é uma viagem pelos momentos mais importantes da sua vida, que passam pela morte da sua mãe. Apesar do tema sério, Gilmário não consegue abandonar o tom humorístico nas suas explicações sobre as suas experiências. Começando, “primeiro pela experiência da morte da minha mãe que teve de criar dois filhos na casa da sogra, o que é complicado. E depois pela parte de que sou o filho da minha mãe que mais vezes conseguiu não morrer, e nem estou a falar da guerra mas de oportunidade que a vida me deu para morrer: atropelamentos, envenenamento, intoxicação com álcool, disparos… Estão a ver como se parece já com uma cena tipo cena de terror?”

E sobre como quer morrer, Gilmario ja tem tudo pensado: “Se a vida me oferecesse uma oportunidade para escolher eu pedia um tiro na testa, sem sentir, e acordava no céu. Nunca ia aceitar morrer à facada porque acho que dói muito, nem queimado porque teria de gritar e correr. Se tiver de morrer não me obriguem a correr porque não quero morrer cansado. Não sei o que há do outro lado, não sei se vou precisar de energia ou não, por isso acho que essa seria a minha escolha de morte.”

A entrevista deambula também pelos meandros da política e do novo período que Angola atravessa liderado por João Lourenço.

“Ele tem de fazer alguma diferença. Isso é o maior trunfo de João Lourenço. Se se quiser manter como presidente, se quiser recuperar a esperança no partido. Não tem outra saída. Ele tem de representar a mudança. Não só para ele mas para o próprio MPLA. O único caminho é fazer essa luta titânica, quase que invasiva, para acabar não digo, mas diminuir consideravelmente a corrupção no país. Tem de haver maior transparência, tanto que nós já vemos que os políticos agora andam mais comedidos, já não há aquela ideia de político como uma pessoa intocável, como uma pessoa que não pode ser questionada. Hoje os políticos são questionados, seja os governadores, os administradores, os ministros, todos são questionados sobre o seu trabalho e mesmo aqueles que operavam no tempo do José Eduardo são obrigados a prestar contas.

Hoje já vemos mais pessoas a ir em frente ao palácio governamental, vão à frente dos ministérios e questionam, e fazem grande textos nas redes sociais que viralizam porque o crescimento digital tem ajudado muito nesse aspeto. Hoje, além da imprensa tradicional, temos os fiscalizadores que acabam por estar no panorama digital e acabam por desmentir muita coisa que a imprensa tradicional diz. A imprensa tradicional, para não perder a credibilidade, agora é obrigada a passar a mensagem tal qual como ela é. Ou não noticia ou tem de dizer a verdade, ou seja, já não pode dizer que apenas morreram três crianças, se nós sabemos que afinal morreram 30, porque alguém nas redes sociais, e com provas, vai mostrar que a notícia não está em conformidade.”