Cada vez mais vimos nascer novos atores, realizadores e produtores de conteúdos dentro da comunidade lusófona e, com eles, uma bagagem criativa com vontade de vencer e mostrar o seu trabalho ao mundo.

Filmagens " Deepression" / Foto: Dércio Tomás Ferreira
Filmagens ” Deepression” / Foto: Dércio Tomás Ferreira

Dércio Tomás Ferreira é um desses jovens, angolano, licenciado em Mulltimédia, no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra, Portugal, e com quem já falamos aqui.

“Deepression” é a mais nova curta metragem “oficial” de Dércio Ferreira, baseado no álbum do rapper luso-cabo-verdiano, Rahiz com a participação de Silvio Nascimento, Lana Bampoqui, Annia, Nadia Veronica e Diogo Dias. O enredo fala sobre um indivíduo que há anos nega e luta contra o seu estado mental depressivo.

“Deepression” foi realizado em colaboração com JayCee (Operador de câmara), Dillage (Diretor artístico), Cattuco (Técnico de som) e Geovanny (Produtor assistente).

Não podemos divulgar muito mais sobre a história, mas abaixo podes ler a entrevista que a BANTUMEN fez ao realizador Dércio, de forma a sabermos um pouco mais sobre a curta em apenas seis perguntas.

A curta-metragem estará disponivel já no dia 17 de maio, sexta-feira, na plataforma Tellas, às 19h. Para veres a curta, basta fazeres o registo de forma gratuita no site.

1- O porquê de uma curta metragem e não uma longa?

Criar uma longa-metragem envolve muito mais tempo, dinheiro, produção e equipa. Algo que não estaria ao nosso alcance tendo em conta o tempo que tínhamos para realizar este projeto. Tivemos uma semana apenas. Além disso, queríamos aproveitar o momento.

2 – Qual foi o interesse em abordar o tema da depressão?

Recentemente, a agenda da depressão ganhou destaque nalguns espaços à volta do mundo, e o álbum musical “Deepression” de Rahiz, que aborda esta mesma temática de forma profunda e real, também foi lançado nesta altura, então juntando o facto de eu e o Sílvio termos achado uma brecha no nosso tempo para o fazer acontecer, decidimos não desperdiçar a oportunidade.

3 – Numa altura em que há grandes jovens atores a surgir nos pequenos e grandes ecrãs, porque escolheste trabalhar com o ator Silvio Nascimento? Quais foram os requisitos?

Há duas pessoas no meu mundo com tanta fome pela criação de arte quanto eu. Rahiz e Sílvio. Então eu não podia desperdiçar a oportunidade de juntar o trabalho dos dois num só projeto.

Desde miúdo que eu conheço o Sílvio e sempre admirei o trabalho dele. Mas não é por isso que o quis. O Sílvio tem uma energia “on set” que mal dá para explicar. Ele não representa, ele vive a história. Ele chora… e muito (risos), ele ri, ele emociona-se, ele entrega-se de corpo e alma, literalmente.

Filmagens " Deepression" / Foto: Dércio Tomás Ferreira
Filmagens ” Deepression” / Foto: Dércio Tomás Ferreira

As nossas conversas são sempre sobre produção de conteúdo. E quando não estamos a criar, sentimo-nos mal, como se tivéssemos a falhar. Portanto, ele é e sempre será a minha primeira escolha. Para além de família, é o meu segundo ator angolano favorito, sendo o primeiro, aquele que ele trata como seu mestre, Tomás Ferreira.

Em termos de requisitos para os outros atores, o projeto começou com um processo de candidatura tanto para dramaturgos poderem escrever uma história que seria então interpretada pelo Sílvio, quanto para os atores poderem contracenar nele.

O objetivo da B.O.B.One é juntar a nossa comunidade e uni-la. Queremos dar oportunidades a quem as deseja e colaborar com quem vibra na mesma frequência que nós.

4 – Achas que a depressão é ainda um tema tabu e pouco falado na comunidade africana?

Não, eu não acredito que a depressão seja um tema tabu nas nossas comunidades. Porque o termo “tabu” implica qualquer tipo de proibição, e não somos reprimidos por o abordarmos, independentemente do contexto, nem por questões sociais ou políticas sequer. Mas o tema é pouco falado, com certeza.

Isso, a meu ver, deve-se ao facto de dentro da comunidade africana a depressão nunca ter sido vista como uma realidade. E o filme, num momento, com uma única frase, retrata este mesmo “desprezar” de um estado mental que não escolhe cultura, principalmente agora que basicamente vivemos todos em torno e nas sombras de padrões europeus.

As pessoas não falam dela porque não sabem bem o que é. Nós, africanos, sempre fomos fortes, qualquer tipo de perturbação psicológica é “frescura”. Como se diz na América: “This is white people stuff”. Então, quando enfrentamos algo do género, pensamos em mil e uma coisas, incluindo em “feitiços” e nunca chegamos a um diagnóstico tão simples e comum como a depressão. Infelizmente.

5 – Qual o sentimento de teres algo teu cá fora para que o mundo possa ver?

Esta é a minha terceira curta-metragem. A primeira foi ainda quando estava a fazer a faculdade, que infelizmente não chegou a ser publicada por erros no enredo. E a segunda está em fase de desenvolvimento. É como dizem: “a terceira é de vez”.

Filmagens " Deepression" / Foto: Dércio Tomás Ferreira Deepression
Filmagens ” Deepression” / Foto: Dércio Tomás Ferreira Deepression

E felizmente tive sorte em ter trabalhado com as pessoas envolvidas. Senti que, desta vez, já não dava para falhar. Juntei-me a amigos profissionais dedicados. Amantes de criação de arte e conteúdo como eu. O Geovany Cattuco que é o meu salvador e a quem recorro sempre, o Dilage, um dos melhores criativos que conheço, o Jay Cee da Digital Motions, uma das grandes produtoras na indústria de videoclipes em Lisboa, e o Geovanny Pitra, um dos meus melhores amigos com quem posso contar para tudo.

O sentimento de ter algo finalmente publicado é soberbo. Sinto-me “suave na nave”. Estou orgulhoso de mim mesmo porque raramente valorizo os meus próprios trabalhos ao ponto de os querer espalhar por todo canto.

6 – Podemos esperar mais trabalhos teus?

Sem dúvida. A B.O.B.One (uma estrutura de entretenimento) quer dinamizar a nossa indústria cinematográfica. Estamos dedicados a criar uma comunidade sólida de criadores dispostos a trabalhar em torno deste objetivo.

Vê abaixo o trailer de “Deepression”: