Para ti, a água é um bem que te chega às mãos sem esforço, sem se quer pensares no assunto. É um dado adquirido. Essa realidade não é a mesma para cerca de 4,5 mil milhões de pessoas (três em cada dez) em todo o mundo, de acordo com a ONU.

Em Angola, pouco mais de metade da população – 52%, para sermos exatos, segundo a ANGOP – tem acesso a água potável. Para ajudar a solucionar esta problemática, o Centro de Química Aplicada – Química Verde Lab [QVL], dentro da sua linha de pesquisa, desenvolveu uma técnica simples, barata e sustentável que filtra água contaminada nas comunidades mais distantes e carentes.

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Existe uma alta proporção da população rural em Angola que não tem acesso a uma fonte melhorada de água e a maior parte dessa população rural depende de poços tradicionais, nascentes desprotegidas ou corpos de água corrente ou estagnada para o seu abastecimento diário.

Estes pontos de água são passíveis de contaminação por seres humanos ou animais e, portanto, a água dessas fontes é de qualidade duvidosa. Devido a isso, a incidência de doenças transmitidas (como cólera, disenteria, hepatite A e febre tifóide), morbidade e mortalidade nestas províncias é alta.

Apesar dos esforços contínuos do governo angolano, a cobertura continua irregular nas áreas rurais.

Por esta razão, o Centro de Química Aplicada – Química Verde Lab decidiu desenvolver o projecto comunitário “MINHA ÁGUA MINHA VIDA”.

O objectivo é implementar uma Tecnologia de Tratamento Doméstico de Água que melhora a saúde de homens, mulheres e crianças assim como as suas condições de vida, com base na qualidade da água que consomem.

A missão deste programa corresponde ao sexto objectivo da Organização das Nações Unidas (ONU) da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável:

O QVL recorre a um Bio Filtro, um dispositivo que permite melhorar a qualidade da água, cuja tecnologia é uma adaptação dos filtros lentos de areia usadas em estações de tratamento de água mas projectado para uso doméstico.

Os resultados são essencialmente: remoção de turbidez, cor, odor e ferro, melhorando o paladar; eleva a capacidade de remoção de agentes patogénicos (até 98%); vazão acima dos 30 litros por hora, indicado para o consumo familiar; não faz uso de eletricidade/pressão/químicos com base na máxima “Natureza purificando Natureza”; baixo custo financeiro; alta durabilidade; fácil de operar e manter; instalação única e custos operacionais insignificantes.

O Biofiltro é feito de betão (94 cm de altura e 30,5 cm de largura) devido a facilidade do material em ser encontrado localmente. A sua camada de filtração é preenchida de areia e cascalho, pedras de pequena dimensão, que são cuidadosamente seleccionadas e preparadas para serem colocados no interior do filtro.

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Distribuição

Até ao momento a Química Verde Lab já implementou cerca de 40 filtros em duas províncias: Bengo, município do Dande, e em Luanda. 

O custo de produção do Biofiltro é de 16 500 kz, cerca de 40 euros. A intenção não é comercializar diretamente para as pessoas que vivem nas zonas rurais, embora muitos moradores de zonas urbanas manifestaram o seus interesse no mesmo devido aos recentes problemas de qualidade da água que os tem afectado igualmente.

Contudo, o Química Verde Lab quer apresentar o projeto às empresas com iniciativas de responsabilidade socio-ambiental, e também aos órgãos governamentais, para que possam implementar e ajudar a melhorar a qualidade de vida das populações em zonas rurais.

O dinheiro arrecadado servirá para aumentar a capacidade de produção de Biofiltro, desenvolver pesquisas que visam melhorar a sua eficiência, levantar dados sobre outras zonas sem acesso a uma água potável, criar programas de higiene e saneamento básico bem como o design de um biofiltro numa escala maior, que terá como nome BioFiltro Comunitário, para escolas e hospitais.

Outra missão do QVL é a procura por mais parceiros, que possam apoiar o acompanhamento do projeto junto de um maior número de famílias. “Com novos parceiros, aumentaremos a capacidade de produção dos filtros (até ao momento temos uma capacidade de apenas de 4 Biofiltros / dia).”

O que o projeto comunitário da QVL tem de tão especial?

Os projetos de água geralmente não são bem-sucedidos como resultado de projectos inadequados, bombas partidas, falta de peças de reposição disponíveis nos mercados locais e nenhuma manutenção ou manutenção especializada. No entanto, as deficiências não são apenas técnicas.

“Já o nosso BioFiltro é construído com materiais locais de simples instalação e manutenção e um programa de educação efetivo de higiene e saneamento básico. Acreditamos na mudança comportamental como a chave para a criação da sustentabilidade.”

Quem integra o projeto?

António Quilala – Gestor, Mestre em Química Aplicada e director geral do Centro de Química Aplicada – Química Verde Lab.

Yonara de Freitas – Coordenadora, Engenheira de Petróleo.

Manuela Filhos – Coordenadora de Higiene e Saneamento Básico, Enfermeira.

Diatumua Simão – Supervisor Técnico, Geofísico.

Manuel Fonseca – Técnico.

Qual foi a base da iniciativa?

Transformar a vida das comunidades rurais por meio do fornecimento de água potável. A água está na base de uma “pirâmide de problemas” para milhões de pessoas em todo o mundo. O fornecimento de água segura abre caminho para o desenvolvimento da comunidade. Tais impactos abrangentes incluem: melhor estado de saúde, maior produtividade e posição social de subsistência fortalecida, mais oportunidades de educação, maior participação dos indivíduos na sociedade e construção de comunidades mais fortes.

Este BioFiltro trata-se de uma invenção?

Não necessariamente. Trata-se de uma adaptação dos sistemas de tratamento de água usadas nas Estações de Tratamento de Água, só que numa escala menor e usando o sistema natural de gravidade.

Esperas que o governo veja a tua criação e te financie de forma a conseguires chegares a todos que precisam?

Certamente, uma vez que permitiria aumentar a nossa capacidade de produção e distribuir para toda Angola. “Ninguém fica para trás” é o nosso lema!

Já pensaram em criar o protótipo em 3D?

É a melhor maneira de tornar o filtro viável para compra. Já pensamos sim, construir o Biofiltro com outros materiais, uma vez que o feito de betão é muito pesado e inapropriado para pessoas nómadas. Porém a construção do Biofiltro com um outro material terá implicações no seu preço final. Estamos à procura de soluções que o tornem o mais sustentável possível do ponto de vista económico.