Sandro Sussuarana é poeta, produtor cultural, idealizador do projeto Sarau da Onça, membro do Grupo Recital Ágape e professor na Associação de Capoeira Anjos do Berimbau.  

Diz que com a capoeira aprendeu a esquivar-se das barreiras impostas pelo quotidiano. Mas, há combates que tardam em ser ganhos. O do empoderamento negro no Brasil –  o último país do mundo a abolir a escravatura – é um deles.

Nos últimos 20 anos, o homicídio de jovens negros por arma de fogo aumentou 428% no país. Mas, estes números não o demovem. Enquanto ouvir o som do berimbau, que é como quem diz, enquanto a vida rolar, Sandro Sussuarana recusa-se a virar a cara à luta e ergue a voz para incitar à revolução que tanto defende: “com papel, caneta e a favela toda graduada”.

Quando é que percebeste que tinhas suspeito escrito na testa?

Sandro Sussuarana – Como falo em minha poesia: “quando eu descobri que era preto”, uma vez que o racismo no Brasil é uma coisa muito preocupante, principalmente para nós, homens e mulheres negros e de periferia.

Como é que uma criança lida com o peso da cor?

S. S. – As crianças não têm a “maldade” dos adultos, porém se ensinado desde pequeno, ela logo irá compreender as diferenças que são impostas para pessoas de pele clara e pessoas de pela escura. Acredito que toda criança negra sente o peso de sua cor na hora das brincadeiras, dos apelidos, nos grupos dos “melhores” e “piores”… Porque o racismo ele não dá trégua e está o tempo todo se mostrando para nós!

Há uma dupla discriminação sentida por quem é negro e vive num bairro social ou periférico. Em pleno século XXI ser jogador de futebol ainda parece ser o único caminho lícito para o sucesso?

S. S. – Não. Existem outras formas para se chegar ao sucesso e elas não estão diretamente atreladas ao futebol, muito menos a se ganhar muito dinheiro. Sucesso, felicidade não se resume a riqueza e sim a paz de espírito, realizar-se.

Eu, por exemplo, sou poeta e me considero uma pessoa de sucesso, não somente no que eu faço, mas também por estar ao lado de pessoas que eu amo.

Garantes que “para alguns é dom, para outros é só rimar”. Escrever começou por ser um refúgio ou tinhas a certeza que era por aqui o caminho?

S. S. – Escrever começou como um ato de libertação! Precisava falar o que sentia. E a poesia me permitiu isso. Sempre costumo dizer que “rimar” todos sabem, porém, tocar o outro com a sua escrita, colocar no papel aquilo que Conceição Evaristo descreve (e muito bem) como “Escrevivência” (escrever nossas vivências) é algo que somente quando se tem/passou pelo que se escreve pode fazer.

Um escritor é a soma do que viveu?

S. S. – Sim! Quando se escreve sobre o que passou, sim!

Escrever é um ato político?

S. S. – Escrever é um ato político! Principalmente quando se escreve sobre as mazelas sociais, quando um dos objetivos dessa escrita não é apenas criticar mas também de manter seus leitores informados sobre o que de fato acontece.

De acordo com a Fundação Abrinque, o homicídio de jovens negros por arma de fogo aumentou 428% nas duas últimas décadas. Como é que justificas a dureza destes números?

S. S. – Se justifica falando que o Brasil é um país racista. Que não oportuniza homens e mulheres negras, que não se preocupa com esses corpos tombados no chão, que além de tudo é um país que promove a “caça” a nós, pretos, de forma direta.

O Brasil é multicolor, 54% dos brasileiros autodefinem-se como negros ou mestiços. No entanto, 95% dos cargos executivos são ocupados por caucasianos. De que forma é que o projeto Sarau da Onça pode mudar esta realidade?

S. S. – Sinceramente, o objetivo do Sarau Da Onça é fazer com que nosso povo negro se mantenha cada vez mais informado e mais empoderado e a sociedade menos racista, a mudança será consequência daqueles e daquelas que se permitirem passar por estas mudanças, do contrário não sairemos do lugar!

Os teus poemas deixam transparecer um total descrédito em relação ao poder político, seja ele de esquerda ou de direita. Se não é através da política, por que via será feita a revolução “com papel, caneta e a favela toda graduada” que tanto defendes?

S. S. – Acredito que a favela graduada é uma das formas de se chegar sim à revolução.   Meu descrédito pelo poder politico é por conta da politicagem, mas defendo também que a politica é de suma importância quando levada a sério pode trazer politicas públicas de qualidade para toda a população.

És frequentemente acusado de racismo reverso. Como olhas para essas críticas?

S. S. – Eu só sei rir quando me chamam de racista reverso. Porque é só estudar um pouco de história (nem precisa fazer um bacharelado nem nada) que se aprender que racismo reverso não existe, que o racismo é estrutural e foi criado para diferenciar “Os melhores, mais bonitos, inteligentes” dos “Piores”, como forma de se criar uma Hegemonia de uma raça em detrimento da outra, dai eu nem me abalo quando me chamam de racista reverso, eu riu e digo para ir estudar a verdadeira história e não a que está nos livros didácticos escritos por homens brancos e a Igreja Católica. Todos racistas!

Como é o Brasil que queres que a tua filha cresça?

S. S. – Um Brasil de equidade, de mais oportunidades para homens e mulheres negros, com menos corpos pretos assassinados diariamente. Porque todo o resto, deixa que a gente mesmo faz!

"Nasci no ano que o telescópio Hubble foi lançado. Mas, à medida que ele comprovava que "lá em cima há planícies sem fim", mais eu acreditava que cá em baixo há um mundo por contar. Nos últimos anos, tenho-me dedicado a contar estórias de, e sobre, os PALOP. Ser jornalista é a minha paixão, o sonho é contribuir para um mundo mais justo. Vamos a isso?"