Cerca de 60% da população da Guiné-Bissau tem menos de 24 anos de idade. Mas, na casa-mãe da democracia a participação e a representatividade dos jovens é uma ilusão. Dos 102 deputados eleitos nenhum tem menos de 35 anos de idade.

Estes números poderiam indiciar que os jovens guineenses não se interessam por política. Todavia, a história de Seco Ussumane Sidibé – ativista social de 24 anos – contraria esta tendência. O antigo presidente do Parlamento Infantil e atual assessor para os Assuntos da Juventude e da Criança do Presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau garante que não é uma exceção, ao mesmo tempo que lamenta as desigualdades de género e etárias existentes na política nacional, com consequências diretas na qualidade da democracia.

Permanentemente de mangas arregaçadas e incapaz de alhear-se dos problemas da sua terra, Seco Ussumane Sidibé em entrevista à BANTUMEN assume sem rodeios que faz parte “de uma geração que tem a responsabilidade de mudar status quo vigente no país”, recuperando, assim, “a nobreza da atividade política”.

Quando é que ouviste, pela primeira vez, falar de política?

Seco Sidibé [S. S.] – Desde que me lembro de ser gente! Quando nasci, a minha mãe já era militante do PAIGC e, ainda hoje, trabalha como Secretária Administrativa do Partido na região de Bafatá. Aliás, a minha mãe começou a fazer política muito antes da abertura democrática da Guiné-Bissau.

Então foi dela que herdaste o amor à causa pública e o hábito de pensar no bem comum?

S. S. – Sim, completamente. Como não?! Lembro-me que a minha casa era uma espécie de bancada dos jovens do bairro.Os meus irmãos e os colegas juntavam-se em casa a jogar à tampinha. E, a minha mãe cuidava de todos com o mesmo amor. Nunca fez distinção entre os filhos e as outras crianças. Pelo contrário, incentivava-nos a partilhar a comida com os nossos amigos. Por outro lado, empenhava-se para que as outras mães não tirassem os filhos da escola, acabando muitas vezes por pagar-lhes as propinas.

Ter nascido em Bafatá, no berço do herói da Independência Amílcar Cabral, influenciou a tua entrada, aos 11 anos de idade, no Parlamento Infantil?

S. S. – Sim. O papel de Amílcar Cabral foi crucial para que hoje se discutam políticas públicas que têm em perspetiva os direitos das crianças, dos jovens e das mulheres. Sem o trabalho dele, hoje dificilmente existiriam espaços de reflexão como o Parlamento Infantil. Amílcar Cabral defendia que “as crianças são as flores da nossa luta e a razão principal do nosso combate”. E, foi assim que convenceu os seus pares a lutar, mesmo sabendo que podiam não sobreviver. Arriscaram a vida para que as crianças guineenses pudessem ter um futuro em paz e em liberdade. Contudo, a verdade é que 46 anos volvidos desde a sua trágica morte ainda muito há por fazer. Por isso, a nossa responsabilidade agora é cumprir aquilo que Amílcar Cabral chamava de Programa-Maior: O desenvolvimento da nossa Guiné.

Quem são os teus heróis ou referências?

S. S. – Definitivamente, as mulheres da minha terra. As nossas mães. As mulheres que levantam-se cedo para trabalhar nas bolanhas, nos mercados e nos becos e que, no fim do dia, ainda conseguem tempo e discernimento para cuidar dos filhos e do marido. Capazes de desdobrar-se nos papéis de mulher, mãe, esposa e sustento do lar.

Não havia, nem há uma equivalência entre a Convenção sobre os Direitos da Criança e a realidade da maioria das crianças guineenses. Como é que um deputado de palmo e meio lida com a frustração de saber que, por mais que faça, as suas ações não são suficientes para suprimir totalmente as desigualdades?

S. S. – É verdade que ainda há um grande fosso entre aquilo que a Convenção pretende e a nossa realidade. Mas, uma coisa é certa: Depois da adoção da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças muita coisa mudou para melhor na vida das crianças e na forma como elas são tratadas. Por exemplo, o direito à participação já é uma realidade. O Parlamento Infantil é um exemplo paradigmático da participação das crianças na discussão de assuntos e temas que lhes dizem direta e indiretamente respeito. No caso específico da Guiné-Bissau, existiram progressos ao nível da educação. Graças ao trabalho de várias organizações internacionais, construíram-se mais escolas. E, já há mais crianças registadas. Contudo, ainda temos graves problemas, como a elevada taxa de mortalidade materno-infantil, o acesso a cuidados médicos e medicamentosas. Apesar de crianças, os deputados do Parlamento Infantil sentem, desde o primeiro momento, o peso da responsabilidade de representar uma camada vulnerável da população.

No Parlamento Infantil, passado o período das eleições, todos os candidatos a presidentes são integrados e passam a trabalhar em conjunto, como uma verdadeira família. Porque é que no “mundo dos adultos” continua a ser tão difícil coexistir politicamente apesar das consequências que essa decisão tem na vida da população?

S. S. – Como eu costumo dizer, as crianças são seres humanos muito especiais. São muito verdadeiras, dizem o que sentem sem pensar nas consequências. E, por outro lado, não têm rancor, não sabem fingir e, por isso, não disfarçam sentimentos. Esta é a explicação possível. No Parlamento Infantil somos ensinados a conviver na diferença, embebidos na cultura da tolerância. Ensinam-nos que as pessoas mais fortes são aquelas que respeitam as diferenças e que são capazes de em conjunto mudar o paradigma das coisas. Os adultos – lamentavelmente e não raras vezes – têm outras preocupações e agendas que se sobrepõem ao bem-estar do povo. E, quando o foco está em mostrarem que são melhores que os seus oponentes, acabam por perder a nobreza que as crianças revelam enquanto parlamentares.

Qual foi o melhor e o pior momento que viveste enquanto Presidente dos deputados de palmo e meio?

S. S. – O melhor momento foi quando conseguimos organizar a Sessão de Paz aquando do Golpe de Estado de 12 de abril, juntando na mesma sala as partes desavindas. Nessa sessão, apelámos que olhassem para nós, crianças, como um fator de unidade nacional e acredito que com esta ação contribuímos para que houvesse uma transição pacífica.

O pior momento da nossa Legislatura foi quando tivemos que enfrentar na Justiça aquele que era um dos maiores apoiantes do Parlamento Infantil, acusado de pedofilia. Se já é difícil para um adulto enfrentar alguém que sempre o apoiou, imagina para uma criança. Mas, nós tínhamos uma missão: garantir o cumprimento escrupuloso dos Direitos das Crianças. E, por isso, não podíamos permitir que nenhuma criança fosse violada. Independentemente de quem fosse o violador. Mesmo que fosse a minha mãe – a minha maior fonte de inspiração – eu tinha que enfrentá-la.

Representas uma nova geração de quem se espera uma outra maneira de fazer política. Sentes essa pressão?

S. S. – Não diria que represento, mas sim que faço parte de uma geração que tem a responsabilidade de mudar status quo vigente no país. Atualmente, na Guiné-Bissau diz-se que a política é um jogo de interesses. E, nós temos de fazer alguma coisa para recuperar a nobreza da atividade política. O político é, ou deve ser, um servidor público, que abdica de si para ajudar os que mais precisam, lutando diariamente para satisfazer o bem-estar da população.

2019 é o ano da CPLP para a Juventude. Tens esperança que a celebração desta data se traduza em melhorias palpáveis no acesso à educação, nos índices de saúde infanto-juvenil e num sistema judicial mais sensível aos direitos das crianças?

S. S. – A celebração em si mesma pode não trazer grandes mudanças, mas é uma porta que se abre, tendo em conta o número de iniciativas que vão acontecer ao longo deste ano. A juventude e as crianças representam a maioria da população da CPLP, mas continua por definir-se uma estratégia clara e inclusiva que coloque estas faixas etárias no centro da agenda do desenvolvimento dos países membros da CPLP. Espero que os estados-membros olhem para 2019 como uma oportunidade para refletir, debater e criar uma agenda nacional capaz de mudar a vida dos mais novos, nos domínios da educação, saúde, emprego e da participação nas decisões das questões que lhes dizem respeito. 

És um dos mentores do Fórum Infanto-Juvenil da CPLP. Quais são os seus grandes propósitos?

S. S. – O nosso propósito é criar um espaço de troca de experiência entre crianças e jovens da CPLP, particularmente um espaço advocacia sobre os direitos da criança. Acreditamos que a CPLP, enquanto comunidade no verdadeiro sentido do termo, ultrapassa as instituições e, por isso deve ter um papel mais ativo junto da população. O futuro da CPLP depende muito dos laços que se criarem entre os jovens dos nove países-membros. E, nós estamos, de forma singela, a contribuir para que esses laços cresçam, para que no futuro a relação entre os países seja mais próxima e mais afetuosa.

Com um desejo vincado de transformar o mundo e um percurso ascensional, quais são as tuas ambições futuras?

S. S. – A minha maior ambição é contribuir a todos os níveis para mudar a vida daqueles que mais precisam, sendo a voz de uma camada da população permanentemente ignorada, que vive na miséria, que vive à margem do século XXI e que precisa de uma oportunidade para estudar e de ver satisfeitos os seus anseios mais básicos, como o acesso à saúde, à água potável, ao saneamento e à energia elétrica. Resumidamente, pretendo ser um soldado do povo. Para isso, vou continuar a lutar pelo desenvolvimento do meu país, abraçando os desafios que me propõem.

"Nasci no ano que o telescópio Hubble foi lançado. Mas, à medida que ele comprovava que "lá em cima há planícies sem fim", mais eu acreditava que cá em baixo há um mundo por contar. Nos últimos anos, tenho-me dedicado a contar estórias de, e sobre, os PALOP. Ser jornalista é a minha paixão, o sonho é contribuir para um mundo mais justo. Vamos a isso?"