Com uma carreira de cerca de 20 anos de muita música e estrada, Patche di Rima é unanimemente considerado um dos maiores artistas da atual geração de cantores e compositores guineenses e um verdadeiro embaixador da música lusófona, graças a uma quase ininterrupta digressão mundial, que o levou a países como Alemanha, Angola, Brasil, Cabo-Verde, Dinamarca, Estados Unidos da América, Inglaterra, Macau e Senegal.

E, 2019 fica marcado pelo regresso do artista às edições discográficas. Maratona de Amor é o nome do terceiro trabalho de originais – lançado com a chancela da RTP África – que promete surpreender quem o tem seguido de perto ou quem queira embarcar agora numa entusiasmante viagem de sabura com paragens meladas entre os ritmos de gumbé, tina, singa, afro-beat, zouk e kizomba.

Ao longo de 13 canções, o cantor e compositor – que revela um profundo e admirável respeito pela sonoridade tradicional guineense – guia-nos por histórias de amor, mas sobretudo por mensagens de esperança, otimismo e orgulho no seu país, num verdadeiro hino à “guineendade”.

Patche di Rima
Foto de Inês Seba / BANTUMEN

“Este álbum tem várias vertentes: musical, cultural, sociológica, antropológica e científica”, revela Patche di Rima, sublinhando que “o Maratona de Amor veio resgatar a música tradicional guineense, trazê-la para a ribalta e, paralelamente, dar a conhecer a nova Guiné-Bissau”.

“Eu, enquanto jovem, tenho essa missão, esse dever, essa responsabilidade, exaltar e promover tudo o que é nosso, recuperar a música tradicional da Guiné-Bissau, mostrar ao mundo o verdadeiro país – um país de potencialidades, de esperança, de futuro. É isto que me move enquanto artista, músico e guineense”, continuou.

Consciente que a música é arma para mudar a imagem do país, Maratona de Amor – que sucede a Rendez-vous di Siko, Disco de Ouro em 2014 – faz frente à plasticidade e fugacidade dos tempos modernos e demonstra que a música não serve apenas para “entreter, dançar e/ ou abanar a cabeça”.

Eu tenho que ter orgulho em explicar-lhes quem é o Armando Cabral

“Nós devemos falar do nosso país sem complexos. É esta vitimização que está a matar-nos. Um africano vem para a Europa, começa a estudar e a trabalhar aqui e quer ser europeu. Não. Nós somos cidadãos do mundo, mas não podemos esquecer-nos de quem somos e de onde viemos. Eu não tenho que ter vergonha de levar as minhas filhas para Biombo, terra dos meus pais. Eu não tenho de ter vergonha de ensiná-las a comer com a mão. Eu não tenho de ter vergonha de ensiná-las a dançar as músicas da minha terra. Eu não tenho de ter vergonha de contar que o maior compositor de música urbana guineense é o Justino Delgado. Eu não tenho de ter vergonha de explicar-lhes que quando quero ouvir tina tenho de pôr Nelson Bomba. Eu tenho que ter orgulho nisso. Eu tenho que ter orgulho em explicar-lhes quem é o Armando Cabral. E, é isto que me move e foi isso que me inspirou ao longo destes cinco anos em que trabalhei este álbum. É esta a Guiné-Bissau em que eu acredito e que quero transmitir às outras pessoas”, exalta.

Apontando como principais influências na sua trajetória interpretes com percursos díspares como Akon, Alpha Blondy, Cesária Évora, Eros Ramazzotti, Gabriel o Pensador, Salif Keïta, Tupac Shakur, o também Embaixador do Turismo da Guiné-Bissau – que tem como casa-mãe o rap, mas que não gosta de se encaixar num estilo musical – define o seu trabalho como World Music.

“Eu não me sentiria feliz em fazer um Reggaeton”, confessa Patche di Rima, frisando que sente um orgulho desmedido em fazer singa, sikó, tina, gumbé. “Eu sou guineense e é na música tradicional do meu país que me encontro, que me conheço, que me defino”.

Em “Paz pa Guiné-Bissau”, a faceta social e interventiva de Patche di Rima está bem presente :

A música que é, acima de tudo, um apelo ao diálogo, não podia ser mais atual, uma vez que três meses depois das eleições legislativas – realizadas a 10 de março – o novo primeiro-ministro da Guiné-Bissau ainda não foi indigitado pelo Presidente José Mário Vaz e o novo Governo também não tomou posse devido ao novo impasse político que existe no parlamento para a eleição da mesa da Assembleia Nacional Popular.

“Não há problemas sem solução, e, neste caso, a solução apenas pode passar pelo diálogo franco e pelo fim da cultura da matchundade”, destaca o autor e compositor do novo hino da Paz da ONU na Guiné-Bissau.

“Se os políticos não têm noção do que é o Desenvolvimento, do que é o progresso que declarem a sua incompetência, porque há filhos da Guiné-Bissau suficientemente capazes e competentes para assumir o destino do país. Nós não vamos tolerar mais brincadeiras e criancices. O país tem de avançar e, por isso, está na hora de dizermos basta”, sublinha.

Patche di Rima recusa ainda a ideia de que deve ser a Comunidade Internacional a colocar um ponto final no novo impasse político que atormenta o país.

“Não podemos esperar que sejam os Estados Unidos da América ou Portugal a resolver o problema da Guiné-Bissau […] O Desenvolvimento e a resolução deste problema tem de passar pelos guineenses”, frisa.

Por outro lado, o mundo artístico não conhece fronteiras e Patche di Rima optou por gravar o disco em várias línguas, como o Português, Francês, Inglês, Olof, Lingala e Suaíli, sem esquecer as línguas tradicionais guineenses. Mais do que representar uma ampla diversidade cultural e afirmar o pan-africanismo, o artista natural de Bissau pretende com este gesto contribuir para a promoção da solidariedade e da unidade entre os países do continente africano que permanecem afastados “pelo ego, ignorância e regionalismo”. “É imperativo criarmos uma agenda própria”, defende, reiterando que “só juntos, de mãos dadas, a olhar na mesma direção, podemos acreditar num futuro próspero e na construção de um continente de esperança”.

Do público, tem ouvido um feedback muito positivo, apesar de reconhecer a indústria musical lusófona ainda está por consolidar-se. “Um guineense lança um CD e a sua música é barrada em Angola, Moçambique, Cabo-Verde”, refere o embaixador da Boa Vontade para a Criança e Adolescente do Parlamento Infantil e da RENAJ – Rede Nacional das Associações Juvenis da Guiné Bissau, acrescentando que “é lamentável que passados tantos anos ainda não exista uma verdadeira sinergia entre os artistas da CPLP”.

 E, porque o filho pródigo regressa sempre a casa. No dia 26 de Junho, quarta-feira, o cantautor terá as honras de abrir as Festas Multiculturais do Vale da Amoreira, no concelho da Moita, onde passou grande parte da sua juventude. Num espetáculo que constitui uma oportunidade impar para viajar até África, celebrando assim a riqueza cultural do mais velho continente do mundo.

Para os próximos meses, o plano é tocar. Garantidas já estão as atuações em Londres (29 de Junho), Madrid (06 de Julho), Almería (13 de Julho) e São Paulo (24 de Agosto).

Apresentações feitas. Carrega no play e conhece o cantor de “Amizade sabi” na primeira pessoa em exclusivo na BANTUMEN.  

"Nasci no ano que o telescópio Hubble foi lançado. Mas, à medida que ele comprovava que "lá em cima há planícies sem fim", mais eu acreditava que cá em baixo há um mundo por contar. Nos últimos anos, tenho-me dedicado a contar estórias de, e sobre, os PALOP. Ser jornalista é a minha paixão, o sonho é contribuir para um mundo mais justo. Vamos a isso?"