O título deste artigo podia ser o nome de uma obra literária que nos apresenta as bravuras de dois grandes nomes da literatura negra contemporânea em português – cujas temáticas andam à volta de sujeitos sociais e culturais – à conquista do mundo. E é quase isso. Falamos de Kalaf Epakanga e de Grada Kilomba, convidados da ultima edição de uma das feiras literárias mais importante do Brasil, a FLIP 2019.

“O Kalaf Epalanga tem uma prosa deliciosa, cujo ritmo parece conter toda sua capacidade musical. Ele faz uma ficção que aborda, além da história da música que ele ajudou a levar para o mundo, temas importantes como identidade, imigração africana em Portugal, e a condição da Europa hoje. Além de tudo isso, tem uma relação afetiva e formativa com a cultura brasileira”, afirma Fernanda Diamant, curadora do Programa Principal.

Kalaf Epalanga | FLIP 2019

Identidade, imigração e pertencimento foram temas que atravessaram a última mesa de quinta-feira, “Quirinquinquá”, com os escritores e também músicos Gaël Faye e Kalaf Epalanga. Sob mediação da jornalista Marina Person, os escritores combinaram música, política e literatura, leram trechos das suas obras e visitaram os seus caminhos criativos.

No mesmo evento participou também Grada Kilomba, escritora, teórica, psicóloga, artista interdisciplinar e autora de Memórias da plantação: Episódios do racismo cotidiano e militante do feminismo negro.

“Grande parte do projeto colonial foi matizar a língua portuguesa. Temos que repensar como a língua é capaz de transportar violência e poder”, disse Grada Kilomba, ao propor reflexões para se pensar elementos da colonialidade na mesa “Mata da Corda”, com mediação do escritor Kalaf Epalanga e da historiadora Lilia Schwarcz. Descendente de angolanos, portugueses e são-tomenses, Grada nasceu em Portugal, mas aprofundou os estudos em raça, gênero e pós-colonialismo a partir da obra de, sobretudo, feministas negras norte-americanas, como Angela Davis e bell hooks. “Descolonizar a língua foi um trabalho que elas fizeram”, afirmou. Assim, decidiu escrever seu livro, Memórias da plantação (Cobogó), em inglês. Ao traduzi-lo para o português, meses atrás, deparou-se com as limitações do idioma, sua “linguagem colonial e patriarcal”.

Grada Kilomba | FLIP 2019

Kilomba criticou o uso de imagens que perpetuam violências contra o povo negro, como a de máscaras que amordaçavam homens e mulheres escravizados — a exemplo da figura denominada Escrava Anastácia, conhecida popularmente no Brasil. “Não mostro essas imagens em público. Durante muito tempo, vimos africanos desumanizados através de instrumentos da escravidão. Mostrar as imagens é naturalizá-las”, pontuou.

Com uma produção que navega por linguagens híbridas — texto, performance, instalação e vídeo —, Kilomba apresentou, durante a mesa, o conceito de um trabalho seu, em exibição na Pinacoteca do Estado de São Paulo atualmente, na mostra Desobediências poéticas. A obra remete ao mito grego de Narciso, que se apaixona por si próprio, e Eco, condenada a repetir a última palavra dita pelos outros. A autora equipara a branquitude à figura de Narciso, incapaz de ver os outros como objeto de amor, tirando esses corpos da relação humana.

Para pensar o estigma dos povos colonizados, Kilomba resgatou da psicanálise o Complexo de Édipo — do menino que se apaixona pela mãe e é rival do pai — e o usou conforme pensado pelo teórico martinicano Frantz Fanon: uma metáfora sobre poder e o acesso a ele. “É uma relação sobre família, como sinal de nação. Não podemos esquecer que os povos colonizados não pertencem a essa nação, não têm acesso a ela, suas estruturas de privilégio constitucional e institucional”, ressaltou.

Ao final, Epalanga perguntou sobre o “saudar negro”. Kilomba trouxe a questão do trauma colonial à tona para elaborar o gesto desse cumprimento, traduzido como um reconhecimento. “O trauma colonial tem a ver com fragmentação. Uma história da separação de famílias e corpos, a cirurgia quase física de um continente. Quando nos cumprimentamos é um alinhavar, um coser de novo.” Por fim, acrescentou: “Precisamos tratar o trauma colonial, reassinado constantemente através do racismo. O racismo é chocante porque coloca a pessoa fora da humanidade. Separa aquela pessoa da nação”.

A 17ª edição da Flip aconteceu de 10 a 14 de julho, em Paraty, e teveo escritor Euclides da Cunha como Autor Homenageado.

A mesa literária, que contou com a presença do autor angolano Kalaf Epalanga na 17ª Flip, foi uma iniciativa do Museu da Língua Portuguesa, em parceria com a Festa Literária que integra o Programa Principal desta edição, consolidando uma trajetória de dois anos de colaboração. Em 2017 e 2018, o Museu da Língua Portuguesa promoveu exposições, mesas e apresentações artísticas que integraram a programação paralela à Flip com o intuito de celebrar a língua portuguesa em seus diferentes sotaques, países e vivências. O museu reforça, portanto, sua atuação em prol da integração cultural entre os países de língua portuguesa, mantendo assim a comunicação com seus públicos durante a reconstrução de sua sede, em São Paulo, atingida por um incêndio em dezembro de 2015.