Quando se fala da música feita em Angola, automaticamente pensamos no Kuduro. Como já explicámos aqui, o estilo nasceu em Angola, no final do anos ’80, e começou primeiro por ser um estilo de dança e só mais tarde se tornou num género musical.

Envolve um estilo africano peculiar, com uma mistura de elementos electrónicos, breaksfunk e loops característicos daquela época, para criar melodias feitas pelo povo angolano, mais precisamente em Luanda, com a contribuição do pioneiro, Tony Amado, o “pai” do Kuduro.

E com vontade de manter o estilo vivo e presente na cultura musical da “banda” (Angola, na gíria) nasceu a Seres Produções, pelas mãos de DJ Satelite, um dos produtores do álbum Estado Maior do Kuduro, um clássico dos Lambas – o primeiro álbum a vender mais de 10 mil cópias em Angola – e produtor do álbum Batida Únika de Bruno M, outra grande referência nacional do Kuduro.

No ano de 2002, a Seres decidiu focar-se no Kuduro e fazer dele parte integrante da sociedade. A Seres Produções tornou-se assim numa das principais casas de produção do Kuduro e agora do Afro-House em Angola.

Danykas DJ
Imagem : Miguel Roque / BANTUMEN

E para percebemos um pouco mais sobre os artistas da Seres Produções, marcámos uma conversa com a Danykas DJ.

No meio de Lisboa, onde os seus cantos e recantos nos encantam, com um olhar sobre as pessoas que passavam, desde turistas, tuk tuks e locais, percebiamos o porquê do interesse nesta cidade que se mistura de forma natural com a multiculturalidade que se faz sentir.

Esta é a cidade onde Daniela Andrade nasceu, as suas origens são cabo-verdianas, do país da Morna, da Cachupa e da Diva dos Pés Descalços, Cesaria Évora.

No mundo da música Daniela é conhecida como Danykas DJ. Na mesa de mistura é onde se encontra e desencontra, e como o gira discos, a sua vida sempre girou em torno do que as músicas transmitiam. Começou tudo em casa, com os pais, principalmente pelo seu pai que cultivou o espírito e a paixão musical em todos.

Danykas DJ
Imagem : Miguel Roque / BANTUMEN

Aos 11 anos nasceu o interesse pela arte de poder fazer as pessoas dançarem através de uma mesa de mistura. As influências que tem são sobretudo africanas, em Angola foi onde abriu os seus horizonte no que toca à musica. Em 2008, o Kuduro foi o que a chamou atenção, numa altura em que apenas queria descobrir mais sobre o que se ouvia à volta de África e os DJs que nela tocavam.

Do Kuduro veio o Afro-House e os seus sub-géneros, mas antes disso, o Techno, introduzido pelos seus cunhados e as festas que frequentava com eles. “A base era muita essa, as festas organizadas em Oeiras e o que ouvia deram-me a pujança que precisava” afirma a DJ.

Para iniciar uma carreira em qualquer que seja a profissão, muitos inspiram-se em outros profissionais, cada um tem o seu role model. Que não é o caso da Danykas DJ, a sua essência está na procura de algo que a faça sentir bem quando ouve, não procura nada em específico. “Tento buscar pedaços de cada um dos DJs que vou descobrindo. Todos eles vão contribuir para aquilo que gosto, que está na minha base”, acrescenta.

E nessa caminhada, consequentemente, vai descobrindo outros géneros e sub-géneros, e há um em que se deixa levar, ora seja pelos bpms da música ou pela vibe que é captada no momento, o Deep House é um dos sub-géneros que mais gosta.

O Deep House é um sub-género que deriva da House Music (surgida na década de 1980) com influências e elementos da chamada Chicago House, Jazz e o Funk e Soul music.

E são todas essas misturas de estilos e géneros que influenciam o processo criativo da DJ. Esta é a base, o início da criação, e tudo que torna esse processo bonito são os diferentes ritmos que se podem utilizar.

“Ritmos Blues para o Afro House, vais buscar French House para contribuir no que estamos criar. Vamos buscar elementos em África, Índia, América para complementar”, explicou Daniela quanto aos ritmos que utiliza.

Com o passar dos tempos, o Afro-House foi-se tornando um dos genéros musicais mais tocados em várias partes do mundo. A sua essência é marcante. Há DJs que partem em busca desse tipo de música à volta do himisfério, “à procura da batida perfeita”, já dizia Marcelo D2.

Danykas DJ
Imagem : Miguel Roque / BANTUMEN

Para Danykas DJ ainda há muito por explorar musicalmente em África, onde existem talentos por lapidar com uma grande vontade de mostrar ao mundo a sua música e as suas criações. E o Afro-House tem sido uma porta de abertura para chegar a vários sítios. Portugal é um desses lugares, que acolhe e consome muito da multiculturidade que existe, e acaba por ser o foco central dos PALOP.

A DJ ouve o que é feito nos bairros e nas pereferias de Lisboa. “Em Portugal gosto do Lilocox , gosto da vibe dele e a música que faz. Também dou mérito ao pessoal do Botsuana e Zimbábue, que são muito talentosos e ainda não são ouvidos com a excelência que merecem. E o mesmo acontece em Portugal, mas os que estão aqui estão a fazer acontecer e estão a fazer-se ouvir.”

Sem muitas pressas e com tudo controlado, Danykas DJ acredita que as coisas quando têm de acontecer, acontecem com o seu tempo sem acelerar nada. Mas por outro lado quer ver cada vez mais mulheres a fazer o que ela faz e o tabú tem de deixar de existir.

“A minha posição de mulher, DJ e negra é desafiante, não encontras muitas oportunidades como no mundo masculino, e a fazeres o que fazes acabas por influenciar outras com a tua ousadia. Há muitas que não têm coragem para sair, mas como surgi eu, muitas outras virão. O panorama irá melhorar e temos de pensar assim. No mundo da música tem de haver mais aceitação e temos de fazer as coisas funcionarem”, concluiu Danykas DJ

Abaixo podes ver a entrevista video da Danyka DJ em que a mesma explica na primeira pessoa quem é, o que faz e que vibe sente com a sua música.

Entrevista BANTUMEN