O primeiro dia de Super Bock Super Rock viu os seus bilhetes esgotados por causa de Lana Del Rey, mas o que nos interessou neste primeiro dia do evento foi Dino d’Santiago. Apesar de o artista já ter dado vários concertos e de ter batido vários recordes com o seu álbum Mundo Nôbu, cada apresentação deste trabalho em palco continua a surpreender-nos.

O artista de Quarteira subiu ao palco EDP por volta das 20h, com um resplandecente pôr de sol como pano de fundo. Em cena, Dino, esteve acompanhado pelas suas back vocals, que nos fizeram lembrar as personagens animadas do filme Hércules da Disney, de 1997, ao interpretarem a canção “The Gospel Truth” de Jocelyn Brown.

Seguiram-se as músicas do seu álbum Mundo Nôbu que tem corrido o mundo e três novas músicas. Dino, saiu de si, correu o placo, invadiu a plateia e brilhou à sua maneira com essa panóplia de sonoridades que invadem a sua veia artística.

No backstage, a BANTUMEN teve a oportunidade de conversar com o artista e ter um feedback do próprio sobre como tem vivido estes últimos nove meses após o lançamento do seu disco.

Dino D'Santiago
Fotografia: Miguel Roque /BANTUMEN

Sobre as novas músicas apresentadas, Dino explicou-nos como surgiram.

“Os beats novos que ouviram são dois batuques, que é o género mais antigo de Cabo Verde, que vem diretamente das escravas para a Tchabeta, e um funaná 160 bpms, com uma introdução da música eletrónica muito presente. E o grande segredo são as mensagens lá metidas. Um dos temas é uma mensagem da Nha Balila, que é uma senhora que vai fazer 90 anos este ano, para a minha avó a dizer “um dia gostaria de conhecer a tua avó”. Ela ouviu a voz dela no “Bô é Sabi” e é perguntou “quem é essa senhora que fala como eu? Gostaria de conhecê-la”. E eu disse-lhe para deixar uma mensagem para a minha avó e a partir dessa mensagem escrevi a canção, “Carta pra Teresa”. Depois tenho um tema dedicado aos meus pais, Jorge e Andreza, onde eu digo que as orações deles são o que me mantém firme na caminhada e com que eu não me desvirtue e é um batuque também com uma pancada muito hip hop, muito agressivo. E depois tenho um funaná 160 bpms, que é o “Nu Fazi”, que quando interpreto ao vivo viajo mesmo. Estou muito contente com esta nova fase e com os novos sons que estão a vir, toquei só três mas tenho mais. As pessoas vão gostar. É uma afirmação.”, explicou-nos ainda com a euforia na voz pós actuação.

O seu último trabalho discográfico foi dos mais aclamados pelo público no último ano, ganhou o prémio Melhor Álbum nos PLAY e esse afervoramento à volta dele, nove meses depois do lançamento, ainda é palpável.

Dino D'Santiago
Fotografia: Miguel Roque /BANTUMEN

“São nove meses do Mundo Nôbu e este álbum já fez coisas que eu não esperava. Tu tens a aceitação do público em geral, a do público mais intelectual, a aceitação da media, ou então das salas de espectáculos ou dos familiares e eu sinto que o Mundo Nôbu foi transversal. Toda a gente abraçou o disco. Eu tive medo de lançar este disco. Achava que os conservadores iam dizer “mas o que é que que este miúdo está a fazer?”. E na verdade foram as primeiras pessoas a abraçarem-me e a enviarem-me mensagens a agradecer-me. O Tito Paris, Zeca de Nha Reinalda e Bitori disseram-me “obrigado por estares a trazer coisas novas”. O Jair, percussionista do Tito Paris durante vários anos, veio ter comigo e disse-me “obrigado, já não és uma réplica de nós. Estás a trazer algo para nós também aprendermos”. Foi a maior bênção que eu poderia ter”.

E considerando a transversalidade da música de Dino, não podemos falar de grandes nomes da música cabo-verdiana, sem falar também nos pesos-pesados da música portuguesa.

Dino D'Santiago
Fotografia: Miguel Roque /BANTUMEN

“Respeito muito os músicos mais velhos da música portuguesa. Foram os primeiros hustlers. Sérgio Godinho, Jorge Palma, os Xutos, Luís Represas… Na fase deles, juntaram-se também, formaram o “gangue” deles e dominaram o país. Mostraram uma forma dos músicos se empoderarem, eles chegaram a estipular o valor que cada banda devia pedir para não estragar o mercado e aí já não é a indústria a dominar. E é uma boa forma de nós mais novos não prostituirmos o mercado, para que não estejamos em “saldos”. Vamos dar um preço ao que é nosso. E assim, pegamos nessa verba e damos o melhor de nós ao público. Tu recebes para investir. E felizmente, quando investes e tens o reconhecimento do público, não há nada que seja mais bonito.

A convite de Kalaf Epalanga, Dino esteve na última semana em Parati, Brasil, à margem da FLIP, uma das maiores feiras literárias do país e contou-nos como foi partilhar a sua música entre brasileiros.

“Eu vivo o mundo tipo arco-íris eu gosto das misturas, mas por exemplo, estive agora no Brasil, um país maioritariamente negro e tu vês que os nossos irmãos não se sentem bem na sua própria pele. Foi-lhes tirada muita dignidade. Então tu próprio cresces a acreditar que não vales nada. Eles ouviram-me cantar em crioulo e viram o Kalaf na FLIP a tocar na ferida e dizer que “temos valor, confia”, para eles foi mesmo um Mundo Nôbu. Em Portugal já tens muita gente a fazer isso e muito bem. O pessoal da Enchufada, Pedro Má Fama, o Slow J, o Gson e sua família Wet Bed Gang, o ProfJam, Plutónio, o Richie… essa geração nova está a criar a sua própria forma de se expressar e não deixam que “o outro lado” invada. Respeitam mas não deixam que isso atrapalhe o seu processo”.

O Super Bock Super Rock continua hoje o segundo dia de atuações com Phoenix, Kaytranada, Christine and the Queens e shame. Pelo EDP Stage vão passar Charlotte Gainsbourg, Capitão Fausto, Calexico and Iron & Wine, FKJ e Conjunto Corona. Por sua vez, DāM-FunK, Ezra Collective e Roméo Elvis vão atuar no Somersby Stage.