Sexo (con)sentido, da coreógrafa moçambicana Kátia Manjate, é uma espécie de denúncia, um relato, uma experiência traumática que traz com ela questões sobre os direitos humanos, liberdade e sexualidade feminina.

Sexo (con)sentido manifesta o desejo da mulher poder ser dona do seu próprio corpo e administrar as formas de prazer que lhe são importantes e satisfatórias, independentemente de opiniões morais, religiosas ou outras que atendam a alguma forma de controlo. A poética deste trabalho centra-se em movimentos conscientes e inconscientes de corpo que partem do estado emocional, a violência corporal e emocional como chamada de atenção para o corpo feminino, as mensagens que carrega e que reflexão podemos fazer a partir daí sobre os tabus e sistemas de opressão que a sociedade foi impondo à mulher.

A coreógrafa moçambicana apresentou em Lisboa, nesta quarta-feira, 31 de julho, no Espaço Alkantara, que se dedica ao desenvolvimento das artes performativas em Portugal e num contexto internacional. A sua actividade assenta numa visão global diferenciada e menos eurocêntrica da criação contemporânea.

Katia Manjate nasceu em Moçambique, em 1984, e em 1994 iniciou a formação em danças tradicionais na Casa de Cultura do Alto Maé, e mais tarde 1999 como membro da associação grupo de canto e dança Milorho, onde foi desenvolvendo o seu trabalho como bailarina. Em 2003 continua a sua formação específica em dança contemporânea no Programa de treino profissional em dança contemporânea, organizado pela Culturarte e danças na cidade, onde recebeu uma formação profissional com vários coreógrafos nacionais e internacionais.

A artista afirma que a primeira relação com a vida em geral foi uma relação de violência. Violência dos 500 anos de colonização, dos 16 anos de guerra civil, violência de um regime marxista-leninista.

“Neste tempo, a violência é visivelmente consciente e exposta. Sentimo-la, rodeamo-nos dela, encontramos uma certa familiaridade. Uma estranha mistura de violência, ternura, alegria e tristeza, egoísmo e fraternidade, todas essas coisas que constroem certamente muitas famílias, no que diz respeito a Moçambique foi ainda mais longe, agravou-se em cada canto, ela misturou-se aos anos de guerra, “moçambicanizou-se”. Casamentos prematuros, violência doméstica, violência da guerra, violência do exílio, violência sexual, violência de palavras, gestos, olhares….

E como mulher, por apenas sermos mulheres, somos todas danificadas, desapossadas psicologicamente, sexualmente e em todos os outros níveis, e ainda assim sentimos necessidade de lutar para mudar a nossa condição. Existimos como mulheres, cada uma abandonada pelo momento.”

Atualmente desenvolve o seu trabalho como intérprete e criadora. Dos seus trabalhos mais recentes destacam-se Sexo (con)sentido que teve a primeira apresentação no Senegal (Dakar) e Maputo (Moçambique), e Casa criado no âmbito do Programa Pamoja, em colaboração com a artista bailarina de Madagáscar ,Judith Olivia e o artista plástico Moçambicano, Válter Zand. Em 2016/7, participou no projeto transcontinental Shift Realities dos centros culturais alemães Hellerau e Tanzhaus em parceria com a Ecole de Sables. Onde co-criou a peça Fragiland em parceria com os os coreógrafos Jason Jacobs, Souleymane Ladji Koné , Anna Till.

A sua mais recente criação Life in numbers em colaboração com a coreógrafa Alemã, Anna Till, tem estreia agendada para Outubro de 2019 na Alemanha e Moçambique.