Desde que o ser humano conseguiu juntar sons e criar uma harmonia entre eles que a música tornou-se num escape de emoções e frustrações. Muitos artistas do panorama urbano, principalmente do movimento hip hop, são provenientes de bairros sociais, onde nasce a inspiração e onde a criatividade não tem limites, sendo muitas vezes um meio de sobrevivência.

F.Milly é fruto do bairro Cruz Vermelha. Quer contar uma história enquanto canta, podemos assumir até que é um storyteller dos tempos modernos. Tem conteúdo e quer transmitir isso mesmo para todos. Influenciado pelo seu tio, o rapper Plutónio, F.Milly quer relatar na sua música o que o involve e o que está à sua volta, o seu crescimento no bairro da Cruz Vermelha, as experiências que viveu e as oportunidades que perdeu.

A sua música é uma mistura perfeita entre o Rap e o RnB, dois estilos que se tornam num só na vibe de F.Milly, que podes confirmar no single “Ainda Tou Aqui” que é a faixa mais recente do cantor, que antevê a sua primeira mixtape intitulada de “Falso 9”, que será lançada brevemente.

Abaixo podes ler em exclusivo a entrevista que a BANTUMEN fez ao F.Milly, um dos artistas das nova geração em Portugal. Onde foi possível conhecer um pouco mais da vida do cantor e a vontade que tem de conseguir um lugar seu no mercado musical.

Qual é teu nome completo, quando e onde nasceste ?

O meu nome e Francisco Rafael Colaco Amarchande e nasci no dia 5 de novembro de 1999 (19 anos).

Onde cresceste? Fala resumidamente da tua infância.

Eu cresci no Bairro da Cruz Vermelha. Durante a minha infância passei por várias dificuldades que me ajudaram a crescer e a amadurecer desde muito cedo.

Acompanhei a realidade do bairro e testemunhei os aspetos positivos e negativos do mesmo. Venho de uma familia humilde, que nunca teve muito mas sempre procurou mais. Desde novo, sempre tive muito talento para jogar à bola. Sempre foi o meu sonho, até que aos 14 anos me foi diagnosticada uma lesão que me impediu de poder praticar futebol a nível profissional. Desde aí, dediquei-me à música a tempo inteiro. 

Quem é o F.Milly e o porquê desse nome?

O F.Milly é um rapaz de 19 anos que cresceu no Bairro da Cruz Vermelha, num ambiente musical que o acompanha desde crianca. Cresci a ouvir o grupo dos meus pais, os Atoxikus, da qual fazia parte o meu pai (JamaikaProducoes), a minha mãe (Grace) e o meu tio (Plutónio). Acabei por herdar a musicalidade deles como base ao longo da minha vida, o que faz deles a minha maior influência. O nome F.Milly nasceu da junção do meu nome verdadeiro e da alcunha que a minha mãe me deu quando era mais novo: “Camilli”.

Como é que entraste no mundo da música e o porquê?

Desde pequeno que sinto que nasci para fazer música. Mesmo quando jogava futebol, sentia que de alguma forma ia estar ligado ao mundo da música, fosse através de videoclipes, beats ou mesmo como cantor. Quando tive de me afastar do futebol, acabei por me agarrar à música com tudo. Hoje em dia faço música porque quero mostrar ao mundo a realidade onde eu es os meus crescemos. Quero mostrar ao mundo as coisas boas de ter crescido num bairro social, mas também as coisas más, que têm que ser expostas. 

Como nasceu a tua primeira música, onde gravaste e qual a história por detrás da mesma?

A minha primeira musica nasceu a partir de uma brincadeira. Um amigo meu desafiou-me a fazer um freestyle num beat da Internet e gravou o que saiu. Após ouvirmos várias vezes o freestyle, logo concordamos que a ideia tinha bastante potencial, e no mesmo instante comecei a escrever a música que mais tarde se tornou no “All Night Long”, que é a minha primeira faixa e conta com a participação da minha irmã Slaya. Após concluir a música, decidi mostra-la ao meu tio, e com a ajuda dele gravei-a no home studio dele. A música relata as coisas banais da vida de um adolescente, tais como as raparigas, a festa, os amigos, etc.

O que te atrai no mundo da música?

O que me atrai mais no mundo da música é o facto deste não ter regras. Cada um pode expressar a sua arte da forma que desejar e lhe apetecer. Isso atrai-me bastante, uma vez que, eu tenciono expressar a minha arte, de formas muito abstratas. O facto de saber que não preciso de seguir regras, dá-me liberdade para inventar e inovar o quanto quiser.

A minha maior influencia é sem dúvida Plutonio. Toda a minha vida me baseei na musicalidade dele para fazer as minhas próprias musicas, que eventualmente, revelavam as influências dele. Só aos meus 18 anos é que comecei a descobrir a minha própria musicalidade, e arranjar um meio-termo entre a minha musicalidade e a dele. Os meus artistas preferidos são Lil Baby, Roddy Ricch e Jaden Smith, que de certa forma também têm muita influência na forma como faço música, pois sou capaz de ouvi-los todos os dias do ano.

Como quem já trabalhaste e com quem gostarias de trabalhar?

Ainda não tive a oportunidade de trabalhar com muitas pessoas no meio musical infelizmente… Atualmente trabalho com o Condutor, que é quem me grava, e dirige enquanto artista, e trabalho com o Plutonio que vejo como um mentor. Gostaria claramente de poder vir a trabalhar com o Lhast que para mim é dos melhores producers a nível internacional.

Quais as tuas influências dentro da música feita em português ?

Por mais incrível que pareca, não costumo ouvir música feita em português… Todos os artistas que costumo ouvir no meu dia a dia são americanos e nigerianos, mas é evidente que a minha influência em Portugal é o Plutonio, por ser quem é e por ter crescido a ouvi-lo todos os dias.

O que podemos esperar deste teu primeiro trabalho?

Diria que um pouco de tudo. Se há algo de que me orgulho é da minha versatilidade. Gosto de fazer todo o tipo de música, por isso podem esperar de tudo um pouco neste meu primeiro projeto. Neste projeto vou recorrer às minhas vivências, a minha realidade e a dos que me rodeiam, para criar uma mixtape rica em conteúdo. A primeira faixa que faz parte do mesmo já está disponível e chama-se Ainda Tou Aqui.

Queres passar algum tipo de mensagem com o que vais apresentar musicalmente?

Muito sinceramente ainda não penso nisso. Faço música porque gosto e não me preocupo com mais nada. É óbvio que se puder passar positividade através das músicas seria uma grande conquista, mas ainda assim não é algo em que pense com muita regularidade. Quero apenas mostrar que ser diferente não é errado, e que a arte não tem regras e cada um tem o direito de se expressar como quiser, ainda que as pessoas possam discordar.

Vives só da música?

Eu faço música e estudo.

O bairro Cruz vermelha e as suas pessoas, influenciam  o que tu cantas?

Sem sombra de dúvida. O Bairro da Cruz Vermelha fez de mim o que sou hoje. Todas as pessoas que vivem e viveram lá enriqueceram a minha história. Tudo o que eu canto, reflete um pouco do meu bairro.

Quais sãos as tuas projeções para o futuro, ou não pensas nisso?

Ainda nao penso nisso, mas gostava de abrir a minha própria label no futuro. Dirigir novos talentos e ajudar quem não tem tantas oportunidades de realizar os seus sonhos.