Se as palavras tivessem movimento, certamente estariam a saltitar enquanto as lias. Porque foi exactamente assim que fiquei ao ouvir o novo álbum de Burna Boy, African Giant. E é sobre isso mesmo que vou falar abaixo.

Se ainda não conheces, Burna Boy, passo às apresentações. Na sua certidão de nascimento lê-se como seu nome Damini Ebunoluwa Ogulu, nascido a 2 de julho de 1991. Burna nasceu na terra onde o Afrobeat foi pioneiro pela mãos e voz de Fela Kuti, Nigéria.

A música sempre fez parte da sua vida. Burna cresceu a ouvir Fela. O que acabou por traçar o caminho musical do cantor nigeriano, que faz uma fusão musical interessante entre Dancehall, RnB, Rap e música nigeriana, com uma mistura agradavél de sonoridades provenientes, como por exemplo, de um saxofone. A isto chamamos de Afro-fusão.

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O mundo começou a prestar atenção ao cantor após o lançamento do seu primeiro single “Like to Party” em 2012, que anteveu o seu primeiro álbum L.I.F.E (2013). Em 2017, Burna Boy assinou contrato com a Bad Habit / Atlantic Records nos Estados Unidos e com o Warner Music Group, onde deu vida a Outside, o seu terceiro álbum de estúdio.

Mas foi em 2019 que Burna Boy mostrou que queria mais, que a música que fazia tinha de percorrer meio mundo e não só. E foi assim que a música feita por este talento da Nigéria deu o ar da sua graça. Foi a faixa “On The Low” (que conta com mais de 50 milhões de visualizações no YouTube) que conquistou as pistas de dança e playlists de muitos à volta de África e do mundo.

Burna Boy é uma das estrelas mais importantes em ascensão de África, e com esse crescimento marcou a sua posição no concerto que deu no Coachella nos EUA.

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Watchu lookin at?! 🤨

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“Acredito que a mensagem de Burna seria de que todo negro deveria, por favor, lembrar-se que é africano antes de se tornar qualquer outra coisa”, lembrou a mãe e manager de Burna Boy no início do ano ao receber o prémio BET na categoria de “Melhor Atuação Internacional”.

É disso que o cantor fala no seu mais novo álbum, African Giant, sobre a grandeza africana e como África se tornou a base para as suas composições. O LP acaba por ser uma reflexão/crítica pessoal e política da realidade que conhece. African Giant é mais coeso, mais arriscado em termos sonoros e mais amplo do que o trabalho anterior.

As músicas que se ouvem neste novo trabalho de Burna atravessam a diáspora, deixaram de ser propriedade de um local só, a sonoridade tem lugar em África que depois se estende para fora.

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I’ll just leave this here. #africangiantthealbum 🦍🚀 out on Friday

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O inglês é base cantada no álbum, mas podemos também ouvir dialetos africanos na maior parte dos temas, como Pidgin, Yoruba e Igbo que acaba por englobar um número mais alargado de africanos. Para além dos dialectos, o cantor nigeriano chamou para embelezar mais o LP, artistas de renome como Zlatan da Nigéria, Manisfest do Gana, Angélique Kidjo do Benin, a lenda do reggae Damian Marley e Serani da Jamaica, Jorja Smith do Reino Unido, Jeremih, YG e Future dos EUA. Uma mistura de talentos que tornaram essa Afro-fusão tão deles como de Burna Boy.

Ao ouvirmos African Giant percebemos a história que Burna quer contar, uma mistura de ritmos que nos remete ao continente berço. “Show & Tell” é um encontro da melodia africana que se funde com o auto-tune de Future, que se torna num balanço dinâmico e imprevisível. A melodia que se ouve em “Secret” com a voz de Jeremih e Serani é ideal para um sunset num rooftop numa tarde de verão. As notas da guitarra fazem uma sincronização perfeita entre Naija pop e RnB.

Mas a essência muda um pouco quando fazemos play na faixa com Zlatan, “Killing Dem”. Nessa música existe uma agressividade instrumental em que se percebe claramente que ambos estavam entusiasmados e que um puxava pelo outro. Já em “Different”, com Angélique Kidjo e Damian Marley, sente-se a essência entre o dancehall e o reggae, em que cantam sobre as semelhanças e as diferenças do sofrimento negro de uma forma estruturada e melódica.

Como já referi acima, African Giant é uma reflexão de Burna Boy e mostra qual a posição que quer ter no mercado musical africano. É também uma forte crítica política ao seu país, onde grande parte do álbum quebra as narrativas circundantes sobre a Nigéria e da independência do país, em 1960. E para que se perceba do que fala o cantor, basta ouvir “Wetin Man Go Do” e “Dangote”, canção que recebeu o nome do empresário nigeriano Aliko Dangote, o homem mais rico de África, segundo a revista Forbes.

Abaixo podes ouvir African Giant e tirar as tuas próprias conclusões, com a certeza de que este álbum vai tornar-se numa das referências musicais africanas que atravessou fronteiras e inspirou outros cantores.