A globalização fez da Kizomba um género musical do mundo. É dos africanos mas foi absolutamente incorporada por europeus, asiáticos e americanos. A prova está nos vídeos tão partilhados nas redes sociais de aulas e festas ao som da kizomba na Indonésia, Itália, Cuba e por aí afora.

O estilo musical e de dança teve origem em Angola. Kizomba é uma palavra do kimbundu (língua falada no noroeste de Angola, incluindo a província de Luanda e uma das línguas bantu mais faladas em Angola), que significa encontro, confraternização, festa do povo.

Kizomba “Angolanamente Sensual” de Don Kikas – um hit no final dos anos ’90/2000

A partir dos anos 1990, a Kizomba, que rapidamente se estendeu para Cabo-Verde e depois para outros países e misturou-se com o Zouk e outros estilos musicais, tornou-se indispensável em qualquer convívio entre africanos.

Com essa globalização do estilo e todas as suas transformações inerentes à passagem por outras paragens, será que a sua essência continua a mesma? É uma das questões que a BANTUMEN fez numa entrevista sobre Kizomba e música no geral ao grupo Shooh & Pajo, constituído por dois elementos: Herlander Magalhães (Shooh) e Paulo Ferreira (Pajó).

Nos dias que correm, em que a Kizomba se expandiu a nível mundial, acham que a sua essência africana se mantém ou mudou para se adaptar à atualidade?

Pajó – Sem dúvida que mudou para se adaptar, não digo à atualidade, mas sim à Europa. Se formos ver bem, a música proviniente de África ganhou porpoções enormes. É compreensivel que quem faça música tente adaptar à sua realidade, ou onde vive.

Como vêm os novos cantores do estilo?

Shooh – De uma forma geral é positivo, não cabe a mim ou a nós avaliar um colega de profissão, mas no entanto achamos muito importante que apareçam novos cantores de Kizomba, mas com noção que a área está cada vez mais exigente devido à sua industrialização. Só quem está disposto a esforçar-se e a dedicar-se, com um trabalho de qualidade, consegue alcançar os seus objectivos.

Apesar de cantarem há alguns anos, enquanto grupo, só agora estão a ter a visibilidade que querem. O que falta para atingirem o topo?

Pajó – Eu tenho uma opinião muito linear no que toca a esse assunto. Acho que para chegares ao topo tens que criar bases suficientes e uma sustentabilidade forte na tua carreira, e com novas músicas estamos a fazê-lo, é uma questão de tempo para lá chegar. Não podemos perder o foco no nosso trabalho.


Depois de “Atriz de Novela”, “Segunda Vez” e “Meu Amor”, o que traz de novo a música “Deita”? 

Shooh – A maior parte das pessoas, que só ouve e não trabalha com música ou no meio, pensa que a Kizomba é mais do mesmo quando não o é. Os instrumentais mudam, as letras são outras, a base pode ser a mesma, mas com muitas variações. E neste nosso novo tema, “Deita”, o conteúdo envolvente na letra é algo novo, mais íntimo. Falamos daquele desejo entre um casal, mas que uma das parte está em negação, do tipo ‘achas eu não sinto nada por essa pessoa’ , mas na hora do toque entre eles a conversa é outra.

Numa altura em que a música é consumida de forma instantânea, acham necessário fazer um álbum? Qual o objetivo?

Shooh & Pajó – Não achamos que seja necessário lançar um álbum, o nosso objetivo agora é lançar singles atrás de singles e criar o nosso lugar no mercado. Darmos a conhecer mais sobre o nosso trabalho que já vem de anos, um sonho antigo dos dois.

Muitas vezes, o que ouvimos no YouTube não corresponde ao que vemos e ouvimos num palco. É realmente necessário ter-se talento para fazer música?

Shooh & Pajó – Sem dúvida, mas de acordo com as nossas experiências, acaba por ser uma questão de te sentires à vontade no palco, e isso ganha-se com tempo e experiência. O ideal é não exagerar nas criações e produções das músicas para que depois em palco cantemos de acordo com o esperado.

Quais são para vocês os itens necessários para se ter sucesso na música ou para começar uma carreira?

Shooh & Pajó – Talento, vontade, dedicação e muito esforço. Muitas portas não vão-se abrir, e só tens de acreditar em ti ao máximo. Muita gente vai opinar, tentar deitar-te abaixo com as suas criticas, mas se conseguires trabalhar no que gostas sem dar importâncias nos ‘disse que disse’ , vais conseguir ter sucesso. Depende tudo de ti e da importância que dás às coisas.


É possível, em Portugal, viver da Kizomba?

Shooh – É possível, mas para lá chegares tens de trabalhar muito. Não é como se começasses a cantar hoje e de repente no dia seguinte já tens o dinheiro na tua conta. É algo que se consegue com o fruto do trabalho.

É preferível fazer música de forma independente ou ter uma editora e produtora? 

Shooh & Pajó – Pergunta complicada. Claro que com as produtoras e editoras são de alguma forma importantes. Conseguem levar-te a ti e à tua música onde só com o tempo lá chegarias, e se chegares. Mas preferimos trabalhar de forma independente porque se conseguires conquistar tudo só por ti, dificilmente te tiram. Mas o mercado é difícil e nós dependemos muitas vezes das produtores e editoras para ter sucesso.


O que mais podemos esperar de vocês?

Shooh & Pajó – Agora estamos numa fase em que queremos mostrar o nosso trabalho e a nossa versatilidade. Uma das nossas grandes paixões é o RnB e estamos a trabalhar para lançar, o mais breve, possível músicas do género, porque nós não somos só Kizomba, somos música na sua generalidade.