ABRA (Angolan Best Rapper Alive) é um disco tão complexo que só um artista como Cage One poderia fazer dar certo.

O álbum chegou às ruas dia 14 de setembro, com 20 músicas, acompanhado de várias combinações de temas, skills e produções que poderiam não dar certo, mas o resultado foi surpreendente.

A princípio, a audição dispersa de algumas faixas do novo álbum de Cage One pode causar estranheza. Isso aconteceu desde que os singles começaram a ser lançados pouco a pouco, e dava a sensação que o rapper estava a atirar para todos os lados, mas não, Cage só estava a ser o ABRA.

Produções

Com produções de Mad SuperStar (4 beats), Edgar Songz (4 beats), Vanilson Beatz (4 beats), Samuel Beatz (2 beats), Chronnicz (2 beats), Shano Beat, Ruaba Beatz e Alen (com 1 beat), o álbum está repleto de bons beatmakers do mercado angolano de Hip Hop e isso, por si só, mostra que Cage One tem bons ouvidos para a selecção de beats e não caiu na tentação de pôr produções de estilos musicais como Ghetto Zouk, Afro Beat ou Kuduro, vincando o seu lado e mostrando que o álbum de um rapper tem que ser assim, 100% rap.

Tracks e Participações

Saudades da voz de Edmásia no álbum. É sempre uma boa surpresa quando canta com o Cage. Lembremo-nos de músicas como “Change Reaction” e “Meu tipo de Rapper”, onde a combinação da linda voz da senhora do “Beijo no Ombro” casa perfeitamente com o rap do Mister Etc.

O Rap Moz está bem representando no ABRA pelos artistas da Sameblood. Hernâni da Silva (“Numaia”) e Lay Lizzy (“Yah”), que teve uma fusão perfeita, já que os dois rappers, Cage One e LayLizzy, têm quase a mesma forma métrica de cantar e misturar inglês no português.

Outro ponto de interessante deste álbum é a música “Força Mulher”, com participação daquele que era considerado como um dos melhores cantores angolanos da nova vaga, o falecido Fill Jr. A musica é um acústico dedicado às mulheres, “não mates os teus sonhos e faz tudo por ti, e aí vais ser feliz”, avisa a letra.

“Drama & Sem Escolha”, com Filho do Zua, dispensa apresentações. Elisabeth Ventura, que teve uma evolução muito forte, e se faz notar neste trabalho, é também uma boa referência de se ouvir.

Em “Barras”, Cage contou com as participações do Sandocan que, reza a história, é daqueles rappers que tornam as letras simples no melaço nos nossos ouvidos; Francis MC CABINDA, que finalmente pela primeira vez, conseguiu ser o mais fraco num som, as suas rimas perfeitas, raras, esdrúxulas, agudas, cruzadas, graves e trocadilhos, não foram a melhor opção para a música, além de que Vuino não se fez rogado e mostrou que continua a ser o OG.

Em cada track, Cage se aprofunda nessa complexidade sonora de uma maneira comovente e criativa, algo que só um artista como o Cage One consegue fazer sem perder o controlo das coisas. Afinal, são muitos caminhos sonoros, muitos cenários num mesmo trabalho.

Pontos negativos do álbum

Das 20 faixas, 12 têm uma participação especial, o que parece mais uma compilação de artistas. Considerando o movimento atual, poderíamos falar também do “excesso” de boom baps.

ABRA é um grande álbum de rap, pode ser considerado como o melhor de 2019 em Angola, pelo menos até agora. Também é uma conquista que só um artista com o status de Cage conseguiria realizar sem se perder no meio do caminho. É um álbum com bons sons, letras, skills, produções e que, provavelmente, teria tudo para dar errado, mas o resultado foi surpreendente. Ehhhh o ABRA fuck!