A meteorologia alertava para um dia pouco solarengo em Portugal e com previsão de chuva. No entanto, não foi motivo para que o público arredasse o pé no segundo dia do festival Iminente. Como diz o cantor NBC, “se a música nos junta, nada nos separa.”

O cartaz deste segundo dia estava marcado por bons concertos, mas a ansiedade era mais que muita para ver Common e Mayra Andrade. No entretanto, houve David Bruno com um novo álbum, Miramar Confidencial, acabado de editar, o histórico Large Professor ou o emergente Pedro Mafama. E numa mistura de guitarra portuguesa, RnB e Rap, o promissor português Mike 11.

Já passava da hora marcada para o começo do concerto de Common e a noite prometia. Com alguns minutos de atraso e acompanhado pela sua banda, o rapper de Chicago, EUA, subiu num palco portugês pela primeira vez. Entrou com força, com vontade e toda a energia que trouxe da sua terra natal.

Parecia que estávamos numa lição sobre hip-hop, cada palavra que Common dizia soava como uma aula sobre a sua música. A melhor parte da aula foi quando levou todos de volta até 2005, quando lançou o álbum Be, para relembrar os clássicos desse LP. Common falou ainda dos rappers, de Chicago, de onde é originário, como Kanye West, Chance The Rapper, Noname, entre outros.

Ouvia-se com clareza cada palavra e sílaba que saiam da boca do rapper que num momento mais íntimo e sensual, chamou uma mulher ao palco. Entre “Come Close” originalmente um dueto com Mary J. Blige e “The Light“, a “melhor canção de amor do rapper“, subiu ao palco Telma Tvonrapper e autora do livro Um preto muito português, com quem já falamos aqui na BANTUMEN – para um freestyle extremamente inesperado, galanteador e emponderado.

se fazia tarde e a noite tornara-se escura. Mayra Andrade entrou em palco vestida de branco. Iluminava o que não se via pela luz. A banda era tingida por padrões africanos, cada camisa tinha um diferente, mas de uma beleza plural, que acompanhava bem com os ritmos de funk, mornas e funaná.

Mayra cantou e encantou todos com os temas que fazem parte do recente álbum Manga. Ainda cantou ao público “Tan Kalakatan” o tema com o qual se apresentou na plataforma musical Colors, e agora no Iminente com o uso de auto-tune que assentaram tão bem na sua voz como na performance.

No registo ainda tinha “Pull Up” que fez com que todos se mexessem, a cantiga de saudade “Vapor di Imigrason”, que revelou ter escrito aos 17 anos, quando se mudou sozinha de Cabo Verde para Paris, momento em que começou a perceber o porquê da emigração e da saudade de casa serem temas tão presentes na música do seu país e “Segredu”.

A meteorologia não falhou. Começou a chover. Muitos ficaram para receber a música que transbordava de ouvido a ouvido como uma mensagem de amor, esperança e dança.

Mesmo com chuva, Mayra falou ainda da sensualidade feminina e de uma relação à distância que inspiraram a canção “Manga” e da sensação de que o crescer da idade traz inesperadas melhorias (a quem tem menos de 30 anos e receia envelhecer, deixou uma mensagem: “despreocupem-se”).

“Lua”, do álbum Navega, foi a cerveja em cima do bolo, que fez a delícia de quem sempre acompanhou o seu trabalho. Manga é um dos melhores álbuns lusófonos de 2019, que funde de forma natural a tradição com modernidade, ritmos antigos com uns arranjos atuais que resulta numa festa afro-lusa.

Depois de uma das doces vozes de Cabo-Verde ter cantado e encantando todos, chegou a vez de Shaka Lion, o nome que Raul Windson, um dos responsáveis pela selecção musical do festival, usa como DJ, para um formato especial com percussão e dançarina. No Palco Cave, para terminar a noite DJ Firmeza fez dançar os corpos que lá se refugiaram da chuva, sem que as horas os incomodassem.

O festival Iminente continua até este domingo, 22.