Nasceu na ilha de Santiago, em Cabo-Verde, no campo por camponeses. No início do século XX, através do acordeão ouvia-se tocar pela primeira vez um estilo de música que iria revolucionar e marcar uma cultura, o Funaná. Embora não existam registos musicólogicos que o confirmem, o funaná surgiu de uma adaptação do que se ouvia nas missas, considerando que o acordeão foi introduzido no país para fins religiosos – mas os camponeses deram-lhe outro rumo.

Sobre a atribuição do nome Funaná ao estilo musical pouco se sabe sobre a sua origem mas segundo os habitantes de Santiago é inspirada no nome de dois músicos da ilha, Funa e Naná. Um deles tocava a gaita (concertina ou acordeão diatónico) e o outro marcava o ritmo com o ferrinho, uma barra de ferro contra a qual esfregava uma faca. Há ainda quem diga também que deriva da palavra portuguesa fungagá, que significa música desafinada.

O nascimento deste género não foi bem recebido pelo colono, tendo sido banido. Foi isolada também pela burguesia urbana local, que rapidamente “viu nela expressão musical de camponeses cujas festas acabavam em pancadaria e esfaqueamentos”, de acordo com o jornalista cabo-verdiano Vladimir Monteiro.

Já na Praia, o estilo ganhava protagonismo, fazia sorrir e dançar todos os que pusessem os ouvidos nela. Mas o som era diferente, o acordeão deixou de ser a figura principal e partilhou o seu lugar com um toque da gaita de ferro (badju di gaita ou toki di gaita) e outros instrumentos.

A Revolta do Funaná nos anos 90, emem Cabo Verde / Katchass – Bulimundo
A Revolta do Funaná nos anos 90, em Cabo Verde / Katchass – Bulimundo

Voltando atrás na história, em 1950 alguns jovens conhecidos como Badius, embarcaram numa viagem de mais de 2.500 milhas do interior rural do norte da ilha de Santiago até São Tomé, na costa atlântica da África central. Na altura, essa viagem era feita em busca de melhores condições de vida para conseguir enviar dinheiro para ajudar em casa. Os Badius navegaram toda a costa apenas para comprar um acordeão, conhecido localmente como gaita. Não foi fácil conseguir o dinheiro para esse feito, trabalharam durante anos em condições adversas para ganhar o suficiente para comprar o instrumento e mais alguns anos para comprar uma passagem de volta para Santiago.

Ao voltar para casa, formaram um grupo cujos membros quisessem aprender a tocar gaita e que se interessassem pela música. Ao tocar alcançaram um status semelhante aos griots ( homens idosos que preservam e transmitem as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo, nesse caso a dos Badius e as suas gaitas) da África Ocidental . A gaita tornou-se expressão máxima da identidade Badiu, definida ao longo de séculos por uma cultura persistente de revolta e rebelião contra o domínio e a injustiça. Numa terra sem eletricidade, o instrumento acústico era o rei.

A música e o estilo Funaná (cru) nasceu pelo esforço para conseguir a gaita que sempre desejaram. A música era proibida sob o domínio colonial. Havia o recolher obrigatório, monitorados pelos olhos atentos da polícia secreta de Portugal para impedir reuniões. O Funaná era considerada uma música de dança destinada a grandes multidões e os seus compositores corriam o risco de serem presos ou sofrerem outras represálias.

Logo após a independência, o estilo, resignado à população desfavorecida, volta a ser reavivado, impulsionado pela ideologia socialista de luta contra as desigualdades sociais.

Mas essa realidade mudou em 1991, quando Cabo Verde teve a sua primeira eleição democrática. Os partidos políticos encontraram na música uma solução nova, talvez até um modelo, para transmitir com sucesso as suas mensagens acerca das campanha com festivais de música. Até hoje, Cabo Verde recebe dezenas de festivais por ano, alguns patrocinados pelo governo.

A Revolta do Funaná nos anos 90, em Cabo Verde / Chota Suari e Chando Graciosa
A Revolta do Funaná nos anos 90, em Cabo Verde / Chota Suari e Chando Graciosa

A música feita no orgulhoso interior de Cabo Verde, tornou-se a banda sonora preferida em comícios de campanhas e festivais de música. Atraiu multidões, envolveu a juventude, manteve as pessoas satisfeitas e, sem dúvida, ganhou votos, o que levou que o Funaná se tornasse na música mais importante do país. Mas a produção e a gravação profissional estavam aquém do que se esperava, tendo em conta os poucos recursos.

Artistas mais jovens no início dos anos ’90 começaram a viajar para o interior para aprender os segredos da gaita, tornaram-se amantes de uma arte outrora difamada. Queriam que a música feita em Cabo Verde fosse além fronteiras, tivesse capacidade de competir a nível global com outras músicas e que tocasse nas suas rádios para que todos a pudessem ouvir.

Um “terremoto abalou o país”, escreveu um jornal cabo-verdiano em 1997. Quando um grupo de jovens que se chamava Ferro Gaita “ousou fazer um disco baseado em gaita, ferrinho e baixo.” O primeiro álbum mais vendido no país – 40.000 cópias num país de apenas 408.175 habitantes (na altura) – mudou toda a trajetória da música do arquipélago.

O sucesso de Ferro Gaita chamou a atenção de produtores de dentro e fora da grande diáspora europeia de Cabo Verde, Roterdão. O sentimento generalizado foi homenagear os antigos mestres da gaita das pequenas aldeias de Santiago. O trabalho desses jovens foi publicado comercialmente pela primeira vez.

A Revolta do Funaná nos anos 90, em Cabo Verde / Ferro Gaita
A Revolta do Funaná nos anos 90, em Cabo Verde / Ferro Gaita

E dessa história nasceu agora em 2019 uma compilação composta por oito faixas de um curto período no final dos anos ’90, quando os pioneiros, que arriscaram tudo para dar um som à sua cultura, foram finalmente colocados num estúdio de gravação. Esta compilação de nome Pour Me A Grog: The Funaná Revolt in 1990s Cabo Verde é em si uma revolta a favor da música e dos marginalizados e silenciados.

O álbum é para ser ouvido de qualquer forma. Mas com um copo de grogue tem mais intensidade. Ouve abaixo Pour Me A Grog: The Funaná Revolt in 1990s Cabo Verde.