Depois das aventuras que teve como Indiana Jones, chegou a hora de ter de fazer as coisas com mais calma. Cada coisa a seu tempo tem seu tempo: esta frase seria perfeita para fazermos uma analogia ao poema com o mesmo nome de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, mas não. Vamos antes falar de outro tipo de poema, o cantado por Harold.

Prestes a lançar o seu segundo álbum, marcámos um encontro com o rapper. Queríamos falar de tudo, mas a conversa sobre o seu novo álbum captou-nos logo de início. Tudo Tem Seu Tempo é o nome do LP que não tinha o objectivo de se tornar algo grande. Começou por faixas apenas, que deram vida a um EP que, com o tempo, amadureceu e se tornou num álbum. Com conteúdo, com histórias para contar e desejos realizados, onde cabem todos os sonhos de Harold.

Na produção deste trabalho está El Condutor, um mestre na sua arte, cujas variadas produções para diversos artistas de renome deixam adivinhar um LP muito bem conseguido.

“O Conductor é aquele chato, mas aquele chato que eu precisava. Trabalhámos juntos no Indiana Jones, mas foi muito pouco, a percentagem dele no álbum foi mínima. Mas foi na altura em que os Buraka [Som Sistema] estavam na fase final da tourné, então não houve muita possibilidade de trabalhamos mais. Acabei por ser eu a editar o álbum todo sozinho, mas desta vez quis ter alguém a acompanhar-me desde o início ao fim, e acabei por falar com ele”, explica-nos Harold entre risos.

Harold / Foto: Janeth Tavares / BANTUMEN
Harold / Foto: Janeth Tavares / BANTUMEN

Já ouviste aquela música dos Xutos e Pontapés “Homem do Leme”? Se não, ouve: para que possas perceber a comparação. Condutor foi o Homem do Leme que rumou o barco de Harold na direção certa. A presença do produtor é evidente, desde as várias horas no estúdio como também de forma pessoal, foi uma motivação extra e necessária que incentivou Harold a puxar mais por ele e a desafiar-se musicalmente.

Tudo Tem Seu Tempo é um álbum de amigos, de desejos e sonhos realizados. De uma sonoridade nova ou que sempre esteve dentro de Harold e só agora sentiu a necessidade de a expulsar cá para fora. É uma festa onde nomes como Holly, Wonder Beats, Fresh, Migz, Azagaia, Papillon, Marta Ferreira, El Conductor, Vado Mas Ki Ás e Toy Toy T-Rex, foram presença assídua.

O nascimento deste álbum é também por culpa de três rappers que sempre o influenciaram desde que se lembra de fazer as primeiras rimas. Um deles tem uma ligação em comum com Harold, Moçambique, o seu berço, onde despoja todo o seu amor e onde foi buscar também inspiração para o seu álbum, em 2018. “Eu digo sempre que tenho três rappers que me influenciaram bué, sem contar com o meu irmão, minha grande influência directa. Azagaia, Sam The Kid e Valete sempre foram a minha referência” acrescentou ainda que o facto de ter ido a Moçambique no ano passado, e poder voltar a ter a mesma ligação que sempre teve, sentiu a “cena” de querer incluir na sua música o país onde nasceu.

Harold / Foto: Janeth Tavares / BANTUMEN
Harold / Foto: Janeth Tavares / BANTUMEN

Harold tinha um sonho que sempre pensou estar longe de alcançar. Fazer uma música com Azagaia. Através de El Conductor a ambição tornou-se realidade. Marcaram um almoço onde trocaram ideias, onde Azagaia ficou estupefato “por saber que eu sabia as histórias das faixas dele”. O próximo destino foi o estúdio onde as coisas foram acontecendo enquanto ouviam algumas tracks e o “Azagaia disse que devíamos fazer algo juntos. Foi algo natural nada forçado, criamos uma química e ele acrescentou algo à faixa que cantámos. E eu sempre quis fazer um som com uma referência como o Azagaia, foi importante, vale mais que dinheiro.”

O álbum tem sido preparado desde 2017, mas só depois de uma pausa na faculdade é que foi possível a conclusão do mesmo, já em 2018, altura em que Harold debruçou-se a 100% neste segundo projecto. Sem data certa de lançamento, as músicas que fazia tinham um objetivo, encaixarem-se num projeto que é só para isso que trabalhava. “Não gosto de apenas lançar singles, têm de fazer parte de um projeto.”

Tudo Tem Seu Tempo é uma festa que vai ser celebrada no dia 25 de outubro, é um ritmo que liga todos, com vibes africanas e não só. Um álbum orgânico, verdadeiro e puro, que transmita isso mesmo para as pessoas. “A minha preocupação é fazer boa musica e ser o mais puro possivel”, conclui Harold. Vê a entrevista na íntegra abaixo.