Vladimir Mendes Borges, 35 anos, nasceu em Cabo Verde mas aos três anos foi viver com os avós em Amiens, uma cidade do norte de França, acerca de 160 km de Paris. Adjunto do presidente da Câmara de Amiens e com vários projetos sociais em Cabo Verde, Mendes Borges foi nomeado um dos Young Leaders (jovens líderes, tradução literal do inglês) de 2019 da French-African Foundation.

Oriundos de vinte países do continente africano, estes jovens embaixadores da organização têm menos de 40 anos, possuem um percurso promissor e vêem agora ser-lhes oferecido um acelerador das suas carreiras a nível intercontinental.

Numa entrevista à Africa News Agency, Mendes-Borges explica que ingressou na política motivado por uma desilusão. “Em 2006, tinha 22 anos e passei vários concursos para a entrada em algumas escolas superiores de Comércio mas era preciso encontrar um meio para pagar as taxas de acesso exorbitantes. Um amigo do mesmo bairro estava na mesma situação e pedimos apoio a um político do nosso território. Eleito pelo PS desde 1985, ele aproveitou-se da nossa situação para se vangloriar da sua ação na imprensa mas sem nunca nos ter ajudado. Desiludido, prometi candidatar-me nas eleições seguintes [2008] para o defrontar porque, para mim, era necessário eleitos que agissem em nome do interesse público e, particularmente, dos mais frágeis.”

O confronto não foi fácil e a derrota acabou por ser determinante no seu percurso. “Perdi mas aprendi. E, sobretudo, descobri uma vocação. Comecei a construir-me politicamente.”

Mendes-Borges acabou por se aliar ao partido de centro Modem, aderindo à sua “mensagem de eficácia política utilizando as melhores ideias da esquerda e da direita”. Em 2017, o líder François Bayrou apoiou a candidatura às presidenciais do jovem militante, e entretanto fundador do partido En Marche, Emmanuel Macron.

Apesar de ter vivido praticamente toda a sua vida em França, o político não esquece as suas origens. “Cresci com os meus avós que não falavam muito bem francês, portanto, durante toda a minha infância, bebi da cultura cabo-verdiana. Comíamos diariamente pratos cabo-verdianos, falávamos crioulo, ouvíamos funaná, batuque, kizomba… Além disso, grande parte da minha família vive em Cabo Verde”, explicou à publicação francesa.

A primeira viagem ao país aconteceu quando tinha 21 anos, em 2005, e desde então volta lá sempre que pode, principalmente para dar continuidade aos seus projetos humanitários de saúde, Educação e habitat. Esses trabalhos levaram-no à Coreia do Sul, em 2015, para receber uma distinção da ONU durante o Fórum Mundial da Água.

Questionado sobre o feedback que o novo Young Leader recebeu sobre a nomeação, Vladimir respondeu que teve comentários muito positivos e que há pessoas que têm medo que esta seja uma aliança França-África que relembre outros tempos. “Mas não é o caso”, afirmou.

No que concerne a política sobre o continente africano, Vladimir conclui que “há uma geração de chefes de Estado com uma visão muito interessante. Há países africanos realmente dinâmicos, como o Ruanda, Nigéria, Gana, África do Sul, Cabo Verde, etc. Mas, o que penso é que é necessário governos fortes, como também poderes locais, nomeadamente nas cidades, com uma visão e capacidade de decisão para fazer face aos desafios demográficos e de urbanização”.