Depois da entrevista com Verbal Uzula, a BANTUMEN esteve à conversa com Kennedy Ribeiro, que também integra o projeto angolano Okwami. O rapper falou-nos ao pormenor do álbum 6.7.19.

O nome do trabalho descodificado significa seis gajos e sete músicas de um álbum de 2019. Para escolha dos beats e gravação, o elenco esteve em estúdio durante cerca de um mês, aos fins-de-semana. “O que mais nos roubou tempo foi a fase das decisões sobre que caminhos tomar com o material que tínhamos em mão”, explicou Ribeiro.

Na seleção dos beats pesou o facto de os seis elementos do grupo, Kennedy Ribeiro, Damani Van Dunem, Keita Mayanda, Leonardo Wawuti, Verbal e CFKappa, serem amantes de boom bap. Contudo, “CFKappa e Damani conseguem surfar com mais facilidade nas ondas das sonoridades mais modernas, como é o caso do trap. Eles estão mais habituados a isso. O verbal e eu temos visitado essas sonoridades mas sem grande ímpeto.
Será bonito ouvir o Keita e o Leonardo num trap mas não será desta ainda. Este álbum é 90% boom bap.”

Kennedy Ribeiro
Kennedy Ribeiro | Foto: DR

Sobre as principais referências e samples usados nos instrumentais, Kennedy Ribeiro diz-nos que dos sete, apenas três contêm samples. “A faixa número dois, ‘Segue a Pedalada’, tem um excerto da guitarra de BB King, da música “The Trill is Gone”.

A número três, “É tão bom”, foi buscar a sua base a “Eleanor Rigby”, um original dos The Beatles interpretado por Sarah Vaughn. “Não Era Suposto Ser Assim”, faixa sete, contém um excerto de ‘All I Need is Time’ das First Choice, e todas as outras músicas foram criadas sem técnicas de sampling.

6.7.19 vai ser lançado em formato digital, porque “tendo em conta a dinâmica dos tempos e as mudanças que dela advêm, tivemos de dar primazia à forma como as pessoas ouvem música hoje, e só depois pensaremos em fazer uma versão física”, afirmou Kennedy Ribeiro.

Os nomes que compõem o projeto Okwami são extraídos da mais refinada casta do bom velho hip hop angolano e, por isso mesmo, o grupo não se ilude sobre quem integra o seu público. “Maior parte do pessoal que conhece e acompanha o nosso trabalho, está na faixa etária dos 30 para cima. Há uma franja dos 20 aos 30 que também nos acompanha mas seria ingénuo da nossa parte subestimar a existência de ouvintes da nossa música dentro da população mais jovem do rap angolano.

Contudo, independentemente da idade do ouvinte, cada música deste álbum foi preparada para quem estiver disposto a receber de ouvidos abertos as suas letras e sonoridade. “Toda gente é merecedora de boa música. Fizemos o álbum despretensiosamente, sem pensar em quem vai ou deve ouvi-lo. Nesta obra tem para todos. É para todos”, sublinha o artista.

Se 6.7.19 está mais próximo do mainstream ou do undergound Ribeiro responde com um sorriso: “Cortaria metade de cada saco, uniria ambas as partes e coseria o saco “mainground”. Quando estamos a gravar nem sequer nos ocorre o facto ou a necessidade de catalogarmos a nossa música. A cena flui de maneira descompromissada. O saco que se identificar com ela vai receber e acolher o conteúdo sem makas. Penso que rotular a nossa música é meio caminho andado para reduzi-la e limitá-la. O limite é até onde podermos chegar.”

E sem fonteiras, o conjunto espera que as pessoas “curtam e se divirtam com o álbum com a mesma intesidade que nós quando gravámos”.

E depois do lançamento, que está previsto para 1 de novembro, os Okwami já têm na manga “uma série de shows”. As datas e locais serão anunciadas nas redes sociais do grupo.